Thursday, March 23, 2006

Caminhada em Manaus

Com a sandália emprestada eu descia a rua, a longa rua que separa a minha casa da avenida. Tomo este caminho todas as manhãs para ir ao serviço. Não importa que esteja trabalhando na repartição ou na faculdade, o caminho a pé que me separa desta última é longo, sem árvores, quente e monótono. Há na região várias indústrias e seus funcionários broncos. Mulheres e homens uniformizados espremem-se nos ônibus, alguns nos pontos esperando a condução, uns e outros arriscam-se de bicicleta em meio à multidão de veículos ágeis e inseguros. Eu caminho quieto, os olhos vorazes de um estrangeiro, a testa suada, os passos ligeiros. Meia hora depois chego ao meu destino. Hoje, no caso, o ponto de ônibus, que outra meia hora depois me deixará no meu destino. Ou deixaria, porque hoje não vou trabalhar.

Quando penso o que existe para se fazer numa cidade grande... Posso entrar em qualquer beco, virar qualquer esquina. Posso andar ou tomar um ônibus, qualquer ônibus, em direção a qualquer terminal, onde posso fazer conexões e me deslocar a qualquer, mas qualquer mesmo, ponto de um território imenso, onde moram mais de um milhão de pessoas, por menos de dois reais. Como teria reagido a essa idéia um antigo nômade da pré-história? Será que ele captaria o conceito contido nesse parágrafo, mesmo que eu passasse e repassasse demoradamente com ele cada palavra, cada frase, cada termo que fosse novo pra ele? Acho que sua maior dificuldade seria a palavra milhão. O que é um milhão? pensaria o cérebro primitivo, acostumado com uma caçada e uma refeição. Os dias todos iguais e diferentes, um depois do outro, apenas? As luas e as estações. Não entenderia quanto é um milhão de pessoas, nem se as visse reunidas numa grande planície, não poderia concebê-las como gente, como iguais.

Mesmo aqui, caminhando nessa longa avenida, não consigo concebê-los exatamente como iguais. Sei que somos da mesma espécie, e que estamos de alguma maneira conectados uns aos outros, e que por seis dessas conexões, dizem, eu chego a qualquer pessoa da face da Terra. Mas não hoje. Hoje são só ruas e casas, e corpos que vêm e vão. Pra mim eles não têm história, como eu também não. Hoje sou só caroço, só um pequeno hipotálamo flutuando sobre um passeio, dentro da caixa craniana de um corpo que não é meu, apenas me foi emprestado. Posso, de fato, fazer o que quiser com ele. Posso jogá-lo em qualquer rio, sujá-lo com imundas visões e lugares, posso dizer com ele qualquer improbidade, todo e qualquer desafeto que me vier à mente. Posso muito, mas não devo tanto. Ainda se se tratasse de uma rápida aventura, mas não descobri a maneira de me desligar deste corpo e assumir outro, inocente. Então não me sujo. Apenas ando e reparo.

A avenida aqui sobe uma suave colina até uma grande praça ao redor da qual os veículos circulam com seus fastidiosos viajantes. Passo a praço e sigo avenida abaixo. Agora há árvores na pista do meio, e a cidade já não parece tão má. Decido intervir com outro humano que passa pela rua em sentido contrário. Pergunto-lhe as horas. Não quero saber as horas, mas quero observar a maneira estranha com que ele se porta, como se dirige a mim com um sotaque exótico, uma postura que combina com o clima e suas roupas - sou eu o estranho. Já não lembro mais as horas, isso não me preocupa, apenas o seu passo rebolando grandes glúteos pelo estreito caminho.

Por todo o caminho que me separa do centro da cidade haverá ainda muitas pessoas que me olharão com um ar que eu não serei capaz de interpretar. Olharei de volta, a cada um com uma expressão no rosto, testando suas reações. Mas é um teste sem possibilidade de avanço científico, porque não sei mais quando a reação de cada outro foi fruto da minha expressão ou de sua própria disposição. Persisto olhando-os.

Cruzo uma avenida e uma ponte. Sob mim um rio imundo faz uma curva e passa ao largo de uma pequena reserva arborizada. Já conheço esse lugar, é um parque até extenso, embora estreito. Uma pequena faixa de vegetação nativa ao longo de um rio um pouco menos poluído que este, os dois se unindo para formar algo maior, mas nunca pude observar se mais claro ou mais sujo. Poderia olhar agora, o sol ainda está baixo, mas o céu está hoje tão azul, tão limpo, tão musical, que cada passo que dou me faz querer dar outro, libertar-me através do movimento de vai e vem das minhas pernas, como se fossem uma pequena máquina de extrair pecados, ou que se pensa e se acostumou chamar de pecados, apenas por serem as pequenas imperfeições de cada um. Todos os que vejo na rua têm suas imperfeições. Elas são visíveis externamente, porque haveria eu de pensar que não as teriam também por dentro? E pior, por que alguém julgaria honestamente haver os homens de melhorá-las para depois da morte, como se alguém fosse esperar com bolos e apitos? Não entendo os homens, sinto-me como se viesse daquela mesma época do meu amigo nômade, que varava os desertos e os sóis e as estrelas até chegar a qualquer lugar que não conhecesse ainda, numa eterna aventura.

Mais adiante um beco desce tortuoso e íngreme na direção de um caminho estreito de tábuas. Decido conhecê-lo, já que é uma sexta-feira e os ânimos começam a preparar-se para as festas semanais. Ao longo do caminho portas abertas ou fechadas com grades me deixam ver o interior dos lares humildes. Pessoas conversam nas portas e nas janelas e parecem sentir menos minha presença que os caminhantes da avenida; ou será só minha impressão? Crianças carregam e são carregadas por seus velocípedes e bicicletas. Os pais estão no trabalho. Eu não tenho filhos, e por isso não preciso estar no trabalho. Mulheres solteiras e casadas me olham com seus olhos ágeis. Olho-as e sinto em algumas uma disposição que eu não tenho. Sigo em frente e desço até as tábuas, que formam um caminho, agora entre paredes de tábuas; antes eram umas de tábuas, outras de alvenaria. Sob as curvas e entre os desvãos formados pelas esquinas vejo cortes de água, suja , naturalmente, mas interrompida aqui e ali por uma e outra canoa de madeira, úteis como os carros lá em cima, mas menos arrogantes.

Em uma das esquinas, onde um caminho de tábuas suspensas ergue-se acima do primeiro e leva a três casas mais afastadas, isoladas no meio do alagado, um homem colossal está sentado. Conversa com uma mulher enquanto costura sua rede de pesca. Penso se ele caberá em alguma das pequenas canoas que consigo avistar nessa que é a maior abertura disso que devem chamar de um pequeno bairro bastante diferente dos demais. Imagino que sim, e mais uma vez louvo a água como meio de transporte barato, seguro e agradável. É claro que fora bem mais agradável no tempo em que era limpa e sem cheiro, mas ainda hoje seu cheiro não é, às narinas daquele enorme pescador, mais desagradável que o cheiro do asfalto, gasolina e borracha queimada das ensolaradas avenidas. É possível que esse homem não precise sair das redondezas da sua casa para pescar o sustento e crescimento da família. Mas já estou numa escada após outra curva, e tanto sua casa como suas preocupações já não me são mais visíveis. Alcanço com alguns passos o asfalto de uma rua convencional, arborizada e inclinada, com casas maiores e quem sabe, mais antigas. O pequeno bairro não tinha mais que uma rua de madeira, suspensa sobre um alagado e isento de visitantes curiosos e insatisfeitos, a não ser eu mesmo. Aliás, satisfeito.

1 Comments:

At 4:29 PM , Blogger Chico Prosdócimi said...

Ler Braga dá nisso. :-)
Ótimo!

 

Post a Comment

Subscribe to Post Comments [Atom]

Links to this post:

Create a Link

<< Home