Friday, May 19, 2006

O erro

O sistema é vil. Antes era neutro, indiferente. Antes, muito tempo atrás. Antes que nossos ancestrais aprendessem a contar milhares de objetos empilhados, antes de trocarem papel colorido por comida.
Tenho uma miragem, de quando as flores respondiam aos pedidos de quem passava. De quando os acordes da canção ressoavam como os cantos das aves.
O que restou? O que me restou, senão o jugo da caneta, o tempo para ver o que ainda se perde? Pernas para caminhar para longe... Só quero ir para longe, bem longe, e esquecer tudo isso que se produziu para ocupar o tempo livre do homem que criou máquinas escravas, e delas tornou-se servo.
A tradição suplanta a lógica. O bom-senso está morto e enterrado sobre toneladas de detritos burocráticos. Até a paixão que antes era verbo hoje é só uma lembrança, histórias de amigos saudosos.
O romantismo que antes era ingênuo agora é criminoso. Refaz os erros do passado, que antes tinham graça, mas que agora ninguém mais ri.
Alguns preferem ser feliz que ter razão. Outros querem dar a todos o direito de crer no que quiser, como se tudo fosse igual. O erro, o erro, o erro.
Geração saturada de mentes tranqüilas, ah, tranqüilas até demais!
Antes um profeta gritava em praça pública, e era apedrejado.
Hoje, deixam-no falar, apenas. E não têm ouvidos. Ninguém tem ouvidos, a não ser ouvidos elétricos.
O erro, o erro. Tudo é relativo, a paz e o perdão, o esquecimento e o caos.
Meus contemporâneos querem dar a todos o direito de estarem com a razão, mas a razão é uma espécie de deusa, que só pousa onde bem entende. Não é possível que estejamos todos certos, mas é bem possível que gritaremos até o último dia, sem esperar convencer ninguém, sem tentar mudar nossas crenças, sem querer aprender ou ensinar, sem querer saber.

2 Comments:

At 1:25 PM , Blogger Chico Prosdócimi said...

Muito bom. Imagino que alguma coisa disso tenha saído da nossa discussão de outro dia, tem muita coisa aí... sei lá.

Gostei das máquinas e do homem. Gostei da tradição e da lógica. Gostei do enterro do bom-senso.

Não é tudo igual, mas mesmo assim todos podem crer no que quiser.

Escrevi um trago de filosofia exatamente sobre isso de falar e não ser ouvido uns dias atrás... um meme que a gente não discutiu mas absorveu no mesmo instante, viagem...

O meu pensamento não é o pensamento contemporâneo, se é que vc me chamou assim.

Não é possível que estejamos todos certos. Mas o certo e o errado, fomos nós mesmo que inventamos... ;-)

 
At 12:38 AM , Blogger Rodrigo said...

Putz!
"Não é tudo igual, mas mesmo assim todos podem crer no que quiser."

Tem uma frase dos crentes que eu gosto:

"Posso tudo, mas nem tudo me convém."
Podem crer, mas não deveriam; ou melhor, quando buscamos uma sociedade melhor, há coisas que fazemos melhor em evitar.

Pode crer, os memes viajam mais rápido que a luz.

Eu não te chamei de nada, nem pensamento nenhum de contemporâneo ;P Só escrevi que os meus contemporâneos e eu enxergamos o mundo de um jeito diferente.

Ninguém inventa o certo e o errado.
Nós os sentimos.
É bem diferente.

 

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