Wednesday, January 20, 2016

A criação de regras resolveu o problema do mal?

A questão do bem e do mal, e como cada povo a tem explicado.

Quem veio antes, a ideia de um Deus ou de vários deuses?

A resposta a essa questão depende do povo que a responde: muitos monoteístas dizem que o monoteísmo veio antes. Mas não é o que a geografia parece mostrar. O mapa-múndi está repleto de povos com mitologias tão diferentes quanto suas próprias linguagens.

Na maioria delas, o panteão mítico era ou é habitado por seres ultra-humanos, mais especificamente uma COMUNIDADE de tais seres. E assim como acontece com os animais e plantas, cuja distribuição geográfica é raramente a mesma entre duas espécies, também os habitantes desse panteão variam segundo a nossa posição no globo terrestre. Este é um ponto importante, porque espécies animais e vegetais diferentes ocupam hábitats diferentes, assim como os diferentes deuses e deusas servem a diferentes propósitos. E assim como é o povo o guardião de uma língua, é o mesmo povo o guardião dos seus mitos e divindades.

Este cenário foi predominante na maior parte da superfície terrestre por milênios de ocupação humana, onde cada região apresenta, ainda hoje, uma raça diferente, reconhecível nas portas dos restaurantes caros, onde geralmente só podem pagar aqueles mesmos que trouxeram o "deus único", chamado por eles "Deus", como que aniquilando num simples passar de borracha a diversidade de todo um planeta. A mesma estratégia foi usada mais tarde pelos ingleses, esse povo antipático, justamente porque anti-empático. Não vê o outro em si. Não vê a si no outro. Darwin, o típico inglês, laborioso, incansável, grande herói da ciência, não via nos aborígenes senão aberrações de um "ideal platônico": o Adão loiro das frias latitudes. Foi preciso um Wallace -- não por acaso relegado a segundo plano -- para ver as semelhanças antes das diferenças. Mas poupemos Darwin, sua ideia de uma Árvore da Vida, é digna de substituir a Cruz da morte pregada pelos brancos que dominam -- e demonizam -- Continentes.

Qual a estratégia que seria usada mais tarde pelos ingleses? Batizar dois de "seus" maiores países com o mesmo nome de um Continente (ou parte) que contém vários Estados-Nação. Assim os Estados Unidos da América -- que não são, como o nome faria supor, uma ALCA estendida -- costumam abreviar-se como "América", num dos mais gritantes caso de falta de modéstia deste Hemisfério. O outro caso inglês é a África do Sul, que não é nem metade da África, nem um quarto, e nem mesmo uma oitava parte (para ser preciso, ocupa apenas 4% do Continente Africano). Contudo, usa um nome como se representasse, quem sabe, a quarta parte do Continente Africano, berço da humanidade desde muito antes daqueles ancestrais já tão longínquos que muitos sequer toleram sonhar. E ainda assim, preferem se separar como podem da população local, dona de riquíssimos conhecimentos, porque é assim que se mantém uma raça reconhecível o bastante para ainda se acreditar herdeira de seus heróis e mártires, por covardes e violentos que tenham sido.

Assim também estes homens e mulheres, seguidores deste ou daquele livro, versão ou tradução, costumam posar de donos do único livro relevante da história do Mundo. Reparem que uso Mundo com M maiúsculo, e livro com L minúsculo, uma vez que o Mundo é maior do que qualquer livro. E os donos do livro, que preferem escrever Livro, acabam escrevendo mundo assim, com M minúsculo, colocando a mitologia de um povo -- de um único povo, entre tantos outros -- como única mitologia válida em todo o Mundo. Pior, em todo o Universo! De tal forma que, numa postura ainda mais drástica que a dos EUA e da África do Sul, o seu deus deve ser o único, nem mais nem menos. O deus de um povo do deserto fará parar de chover na Amazônia, antes ou depois de matar a sua última divindade?



Voltando à questão das regras. É evidente que cada povo tem suas próprias regras. O que menos gente sabe é que algumas dessas regras parecem ser observadas em todas as culturas conhecidas. Um antropólogo chamado Donald Brown as nomeou 'Universais Humanos' (Human Universals): rir, chorar, contar piadas, registrar o parentesco, ter tabus contra o incesto e contra o assassinato de membros do bando, entre outros. O número de traços registrados chega perto de duzentos. Talvez tantos traços em comum tenham uma origem biológica, inata, mais antiga até que nossos parentes primatas mais próximos. Vários deles são observados não apenas em chimpanzés, mas em outros primatas e até outras ordens de mamíferos (filhotes brincam nos mamíferos em geral, chimpanzés fazem brincadeiras e riem delas, e também foram observados isolando uma fêmea estéril após ter matado o filhote de outra, como relatou Jane Godall em 'Uma Janela para a Vida').

Sendo assim, nossas similaridades significam que a espécie humana muito provavelmente pode conviver em paz. Os povos de uma região não são tão diferentes dos povos de outra região. Todos contam piadas. Todos têm indivíduos que se embriagam de vez em quando, que brigam por ciúmes e que pulam a cerca. Então será mesmo tão difícil conviver?

Claro que, se cada povo ficasse em sua terra (respondendo àquela máxima de Lao Zi de "amar a própria roupa e o próprio lar") os conflitos seriam reduzidos. Ainda assim, os seres se multiplicam, sejam bactérias, insetos, cereais ou pessoas. E onde antes comiam 10 agora comem 20, 30, 100... cedo ou tarde o conflito se torna inevitável.

Então, qual a origem do mal? Seria como perguntar: qual a origem do bem?

Talvez um precise do outro para existir. O alto não existe sem o baixo. O claro não existe sem o escuro. Tudo são contrastes, opostos, variações entre os extremos de diferentes réguas que formam a nossa interpretação do mundo. Tudo faz parte da existência. E, ainda assim, cada povo criou regras adicionais às que já parecem ter sido dadas pela Natureza no nosso longo processo evolutivo. Mas essas regras combatem efetivamente o mal? Ou, quanto mais tabus, maior a miséria (outro ponto de Lao Zi)?

Um equipamento para manter o conforto térmico de um edifício tem uma peça chamada Termostato. Quando está quente demais, ele manda esfriar; quando está frio demais, ele manda esquentar. Se essa peça quebra, a máquina deixará de funcionar, e seus usuários sofrerão, seja de frio ou de calor.

O mal se parece com esse afastamento do estado ótimo de um sistema. Mas como podemos conhecer o estado ótimo do sistema humano? Conhecendo o ser humano. E como se conhece o ser humano? Aprendendo línguas, conhecendo culturas. Quanto mais diferente a cultura, maior o ângulo de visão do cenário ao redor. Como uma ilha, um lado pode ter montanhas, e o outro planícies e desertos, e ainda assim todos terão vida. Enzimas têm uma temperatura ótima, por isso nós também temos uma temperatura ótima. Como poderíamos pensar o que é bem e mal do ponto de vista da enzima, sem conhecer o seu ponto ótimo? Assim, como podemos pensar o que é bem e mal do ponto de vista humano, sem conhecer os ciclos e fluxos em que a Natureza humana tomou forma? Lao Zi também disse: conheça o mundo sem sair de casa. A Natureza humana é a mesma, e as nossas maiores alegrias e maiores preocupações são basicamente as mesmas de quando nos escondíamos em cavernas de pedra, sem ar-condicionado, eletricidade ou escrita. Podemos ter hoje um doutor com muitos prêmios e honrarias, mas que não conhece a fundo a Natureza humana como uma pessoa dita "ignorante", sem estudos mas com os olhos abertos para tudo o que a Vida lhe ensinou, e com uma raiz próxima dos conhecimentos dos antigos, ainda ligados à Natureza e sua imensa sabedoria.

O referido "doutor", justamente por não ter virtude, precisa passar a aparência de possui-la. Enquanto o "ignorante", justamente por ter virtude, não está preocupado em demonstrá-la. Isso também ensina Lao Zi, quando fala sobre a Espontaneidade. Assim, o "ignorante" pode passar a vida em meio à Natureza, seja de árvores, pessoas ou pedras, e ainda manter a serenidade sem precisar fingir que sabe. O "doutor" por sua vez, para esconder a falta de conteúdo, passa a afirmar mais do que sabe, como já notaram Schopenhauer (A Arte de Escrever) e Renato Russo ("falam demais por não ter nada a dizer"). Assim tais "doutores" preferem adotar um sistema cheio de regras, de difícil assimilação -- um sistema que eleva alguns a "líderes", rebaixando outros a "servos". Os que dominam o elaborado sistema de regras conduzem o restante. Existe portanto uma oposição entre sistemas simples, de um lado, e sistemas complexos, de outro. Os sistemas simples têm o potencial de ser dominados por todos, são uma extensão mínima, um traje leve de verão, sobre os instintos sociais acumulados no tempo evolutivo. Os sistemas elaborados são propositalmente elaborados, de forma que diferentes e extensos sistemas de escravidão possam ser construídos e mantidos por bastante tempo (séculos, milênios).

Exemplos de sistemas simples: o Taoísmo, na China, e as culturas de povos de tradição oral, em vários Continentes. Exemplos de sistemas complexos: os sistemas com grandes livros, como o Confucionismo (em comparação com o Taoísmo) na China, e os grandes monoteísmos, Judaísmo, Cristianismo e Islamismo, que avançaram sobre a maior parte do planeta, como já vimos.

Os sistemas complexos constituem emaranhados de regras, muitas vezes contraditórias, que exigem o intermédio de um desconhecido -- padre, pastor, advogado ou juiz -- entre a pessoa comum e a realidade do Universo. Os sistemas simples, aplicados principalmente em pequenos agrupamentos humanos -- mas cujos ensinamentos já foram usados com sucesso em diversas ocasiões em agrupamentos maiores -- também são por vezes contraditórios, e parecem complexos à primeira vista (principalmente para quem foi educado sob um regime dominado por um sistema complexo). Mas, justamente por serem simples, tendem a ser uma explicação da Natureza humana, e não um combate da mesma. Suas contrariedades refletem contradições naturais, não são brechas para aproveitadores togados. "Um pássaro na mão vale mais do que dois voando", mas "Quem não arrisca não petisca" -- os dois ditados são válidos, mesmo sendo opostos, pois as circunstâncias variam.

Confúcio e Cristo têm em comum a suposta missão de "salvar o homem". Os taoístas dizem que não há do que salvá-lo, a não ser de sua própria procura por respostas. Quando uma pessoa reconhece que não tem as respostas -- e que elas talvez nem existam -- volta imediatamente a se ver livre das perguntas. Nas palavras de Lao Zi, "volta a ser criança". Pode assim conhecer os diferentes povos e ver neles as semelhanças antes das diferenças. Pode assim conviver em paz com o diferente dentro e fora de si, ainda que não precise, pois ama e é amado no próprio lar. É possível aprendermos a amar o distante, e não apenas o próximo. Basta lembrarmos que todos os animais já nascem com o instinto do amor, e que entre as espécies sociais, a violência tende a ser ritualizada e reduzida sem que ninguém precise enunciar regra alguma. Nas palavras do Dao De Jing: "O respeito à Natureza e o valor à Espontaneidade não vêm de uma ordem, mas se expressam naturalmente."

"Parem de pregar o amor, e o povo encontrará de novo o amor natural", ensinou Lao Zi, sem ser ouvido pelos pregadores do amor, esses destruidores do diferente, esses semeadores de desertos (já repararam como as bancadas religiosas do Congresso são muito parecidas com a bancada do agronegócio?).


"Encha o mundo de tabus e a pobreza se espalhará" - Dao De Jing 57

Minha conclusão é de que as regras servem para manter grandes desigualdades, não para reduzi-las.

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