Tuesday, January 19, 2016

Retrospectiva 2015

2015 chega ao fim, o que não quer dizer nada além de uma marca arbitrária no espaço-tempo. Mas se é hora de relembrar e fazer planos, que seja.

Aqui ainda é tarde alta, mas na casa dos meus pais será fim da tarde, a última tarde do ano. Horário meio melancólico, talvez eu devesse ter ligado mais cedo, em horário mais alegre. Será melhor ligar agora ou mais tarde, no ponto alto da noite? Tanto faz, provavelmente. Por que penso tanto? Porque me ensinaram que isso é bom? Mas nem tudo que é bom em certas doses será melhor em doses maiores. Parece que nada funciona assim. Bondade em excesso deixa os santos desconfiados. Paz em excesso é alienação. Amor em excesso é desespero. Então, pensar demais anestesia, adormece, nos afasta até de nós mesmos. Por isso talvez escolhemos outras formas de narcose, o vinho, os sonhos, a religião.

Por mais que tentemos falar de nós mesmos, acabamos falando dos outros. E quando tentamos falar dos outros, invariavelmente falamos de nós mesmos.

Mas o que aconteceu, então, de notável no ano que passou? Uma imagem ficou na minha mente: a Rede Globo, em jornal de grande audiência, comparando dois movimentos em favor do impeachment -- um no início, outro no final do ano. O primeiro, lotado, centenas de milhares de pessoas ocupando uma grande e famosa avenida no coração da direita nacional. O segundo, meses depois, mostrava apenas duas aglomerações, cada uma com uns poucos milhares, se tanto. Quando uma rede, que há muito se pauta pela parcialidade e por diversas formas de manipulação, de repente se mostra imparcial, ajudando a desmontar a própria rede de intrigas que ajudaram a construir, é claro que o santo desconfia. Os ratos também abandonam o navio que afunda. Por isso mesmo, num ano marcado pelo desconforto político, me pareceu um bom desfecho. Mas devemos já ficar otimistas?

As pessoas -- principalmente a mídia -- ainda falam no clima. Falam demais no clima. Parece que nunca falaram tanto. Mas não falam muito das causas maiores das mudanças, não só climáticas: desmatamento, espécies exóticas, superpopulação humana, cultivos insustentáveis e poluidores... está tudo errado, mas só falam em abstratas negociações entre homens engravatados, que sequer parecem viver dentro do clima das regiões que visitam... será que realmente se preocupam?

Este ano um acidente no coração da engrenagem brasileira teve os seus "15 minutos de fama": Mariana, Minas Gerais. O Golfo do México de 2015. Fukushima. Chernobyl. Só que pior. Os outros desastres tinham todos os aspectos da inevitabilidade. Este também? Ou, de fato, nenhum deles? Quem fiscalizava a empresa, afinal? A própria empresa? Provavelmente sim, a legislação ambiental vem sendo desmontada há anos. "É preciso", quando a galinha de ovos de ouro está pra morrer: matá-la logo. Por que nem o sistema de alarme funcionou? E por que a mídia brasileira fala de resíduos não tóxicos, enquanto a mídia estrangeira fala em resíduos tóxicos? Alguém falou que em 5 meses tudo estaria limpo novamente. Algumas fontes citaram 5 anos, o que parece mais realista (e ainda assim pouco). Mas a maior parte da mídia fez ctrl+c, ctrl+v no 5 meses. Acalmar os ânimos é a maior prioridade. Lao Zi diz que as armas da nação não devem ser mostradas ao povo, como o peixe não deve ser retirado do fundo. Aqui poluímos o fundo, matamos os peixes, e não deixamos de mostrar as armas da nação e toda a sua destruição, até mesmo na hora do almoço.

Alguns anos atrás a criação de rádios comunitárias era assunto de polícia (federal!), com acusações de formação de quadrilha, muita truculência e uma morosidade histórica na concessão de licenças, mesmo longe de aeroportos. Então foi feita uma legislação sobre o assunto, que legalizava as rádios comunitárias, desde que fora do dial. Isso mesmo, a faixa autorizada estava alguns MHz à esquerda da posição onde o ponteiro (analógico ou digital) alcança. Por que uma mão tão pesada sobre a comunicação? Hoje a rádio comunitária é um alto-falante de feira. Para quem esperava carros voadores e internet para o século XXI, o primeiro ainda é um sonho (ou pesadelo?), o segundo por enquanto resiste em liberdade.

Na TV, um cenário parecido (ou pior?). Quando a TV foi criada, era como o telefone: o emissor e o receptor custavam o mesmo. A diferença estava numa antena poderosa o bastante (e não cabos), para que um pastor pudesse ordenhar imageticamente um rebanho de milhares, de milhões de ovelhas-primatas, cujo cérebro sensitivo parece depositar suas maiores energias na visão, como nos outros primatas. Assim, a TV desbancou a fogueira como centro de atenções da família que se reúne no aconchego da noite. E, como nas rádios comunitárias, uma mão pesada também decide os níveis aceitáveis de democracia comunicativa: níveis muito baixos. A TV aberta é dividida entre VHF e UHF, tendo a primeira cerca de 15 canais, e a segunda mais de 100, dentro da faixa especificada na legislação. Ora, se temos cerca de 150 canais disponíveis, por que a maioria das cidades tem apenas cerca de 15 canais em funcionamento? Onde está a diversidade de pontos de vista? Ora, diversidade de pontos de vista nunca foi o forte de nenhuma civilização monolítica como as civilizações monoteístas. A pluralidade defendida pelos teóricos do posmodernismo não passa de uma bravata: ao recusar a maior veracidade de certos pontos de vista sobre terceiros, a consequência lógica é um imenso "tanto faz", onde vencem os antigos detentores do poder, que sem a devida regulação, aumentam cada ano mais a extensão de sua rede de influência. Basta lembrar como mesmo a TV a cabo era bem mais diversificada do que hoje (em termos de país de origem dos canais disponíveis).

As perspectivas de curto prazo, os "gráficos históricos" de curta duração, todos fazem parecer que tudo vai como sempre foi, ou até melhor, ou talvez um pouco pior. O que não permitem é uma perspectiva realista do ritmo com que estamos destruindo vários tipos de diversidade de forma catastrófica. Como já dito, o importante é não despertar a comoção popular. Sabem que pisam em ovos.

No cenário internacional, a China se tornou líder econômico mundial, segundo o PIB e talvez o comércio internacional, abriu bancos internacionais de desenvolvimento para competir com Banco Mundial e FMIs da vida, e modificou a cotação da sua moeda de forma a inclui-la entre as grandes moedas de negociação global. Tudo isso nos últimos anos. O Ocidente está um pouco assustado. Por outro lado, o chamado "Estado Islâmico" tem tirado o sono de outros tantos. Sem saber bem com o que estamos lidando, as antigas opiniões sobre muçulmanos radicais e homens bomba agora se somam a um fluxo ininterrupto de imagens de barbárie, assassinatos crueis e decapitações. Multidões oprimidas em suas áreas de origem fogem para a decadente Europa, apenas para serem rejeitadas por um povo cada vez mais assustado. Mortes no mar se somam à torrente de imagens que marcarão gerações. A reação das forças imperialistas é previsível: aumentar a austeridade, aumentar a violência policial, conduzir políticos carismáticos e genocidas à chave das bombas.

Ou talvez nada disso seja mais necessário: a força foi necessária para conter revolucionários até meados do século XX. Então a própria razão da sua fé começou a ser atacada: a lógica que contrapõe revolucionários e reacionários, a lógica que conta a história como um movimento biológico de organismos reais. Essa lógica "materialista" não foi necessariamente atacada, mas submersa num oceano de pseudo-diversidade de pontos de vista, onde qualquer ponto de vista é válido, onde "não existe verdade", onde o ruído é maior que o sinal. Em meio à balbúrdia e à desinformação, os impérios continuam mudando de forma e se aglomerando, se reconstruindo e se fortalecendo. A pseudo-diversa internet é dominada por poucas empresas. Quem quer desenvolver neste ambiente está preso a umas poucas linguagens, html, php, javascript, css... Tem muita gente achando que o Facebook É A Internet. E a maioria dos jornais continua não colocando links para aquilo que citam. Apesar de terrivelmente subutilizada, toda a rede é ainda observada pelos novos profetas, pelos novos oráculos, pelos novos sacerdotes: os ocultos mestres da tecnologia da informação, os líderes mundiais da segurança de redes, alguém sabe quem são?

Em 2016, muito provavelmente nada disso melhorará. Pelo contrário. Então, olhemos para dentro e perguntemos: o que podemos fazer para NOS melhorar?

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