Friday, October 19, 2007

A moral, de novo ela

É impossível não se admirar das conquistas da tecnologia, como é igualmente formidável que não mais nos admiremos de tudo o que ficou sem solução.

Creio que o maior erro, o mais fraudulento e nefasto em toda a história da humanidade tenha sido o de atribuirmos a nós mesmos o pomposo epíteto de Homo sapiens. Como assim! Sabedores! Se traduzíssemos o yin-yang, a fonte do equilíbrio e sabedoria orientais para um termo latino, e então extraíssemos dali o seu antônimo, teríamos talvez um nome adequado para nos descrever, a nossa terrivelmente cega e esclerosada raça de macacos sem pêlos.

Então somos sabedores? Vivemos a acumular bens valiosos que em nada aumentam nossa alegria, a não ser na descarga de neurotransmissores que ocorre no exato instante em que assinamos e entregamos os cheques de intermináveis prestações, ou quando reunimos conhecidos para que apreciem nossos novos pertences enquanto rogamos que ignorem nossa falta de brilho próprio.

Qual o quê! Morreremos com setenta e tantos anos sem nunca termos aprendido que a palavra 'pecado' foi inventada pelo maior espertalhão de todos os tempos, que a "Bíblia Sagrada" é uma falácia conhecida como argumento circular, e que nossa animalidade precisa ser contida apenas para manter o poder na mão de poucos, e o mínimo de sangue rolando, eu diria até circulando. Se valorizássemos nossa carne como aspiramos por coisas que não existem, ou que não deveríamos ter, ou não precisamos, nós e o mundo estaríamos respirando melhor; nossa civilização seria um lugar onde o grotesco ainda nos causaria espanto.

Mas como? A civilização criou-se a si própria, ninguém teve culpa direta, a não ser talvez uma espécie demasiado curiosa, uma natureza demasiado natural, ou divindades demasiado omissas. E hoje os que louvam essa civilização e a defendem são apenas os que estão sobre ela, sobre os demais, sobre as próprias ânsias de juventude. Ou não? Quais seriam, então, essas ânsias? Riqueza? Distinção? Status? As pessoas acumulam cultura em suas estantes, colecionam obras de arte e objetos de tecnologia, mas só são capazes de respirar o ar contaminado pelos próprios memes. Talvez a nossa espécie tenha sido já o macaco mais curioso de todo nosso ramo evolutivo, mas hoje regredimos. Os adultos responsáveis, idôneos, aqueles que querem o melhor para si e para seus filhos já não têm curiosidade. Sua curiosidade é a de conhecer lugares novos, não mentalidades novas. Gastar dinheiro em lugares diferentes, não crescer em direções diferentes.

Hoje 'civilizado' virou um adjetivo simpático, mas penso que um biólogo E.T. certamente ficaria bem mais fascinado pelas diferentes culturas ancestrais, pré-globalização, do que por jovens cujo único lazer são shopping-centers, cujas mães temem que eles sujem as mãos, e cuja alimentação vem envolta pelos mesmos plásticos em qualquer capital cosmopolita. É preciso lembrar que as frutas já vêm envoltas na casca?

Ainda o ideal cosmopolita é defendido? Isso fazia sentido há dois séculos, quando o inglês médio, enjoado de quatro gerações com poucas mudanças, abraçaria as mudanças inovadoras que o resto do mundo tinha a oferecer. Mas hoje? Hoje querem trocar petróleo por biodiesel, carros de metal por carros de plástico, toalhas de pano por papel, toalhas de papel por secadores automáticos, eletricidade suja por eletricidade limpa... Qual novidade seria hoje maior que a redescoberta do próprio corpo, do próprio suor, das caminhadas a esmo que transformam minutos em momentos com cores distintas e variadas?

A juventude paga para proteger a natureza mas usa um carro para percorrer um quilômetro. Nas areias do tempo caminhávamos centenas de quilômetros com a disposição que hoje subimos num elevador para percorrer dois andares, e o mundo tinha, por baixo, dez vezes mais belezas. Hoje destruímos as sete quedas para que 90% dos brasileiros vejam os mesmos outdoors, ouçam o mesmo sotaque na TV, e ainda pretendemos defender tudo isso? Não, eles querem viajar o mundo, mas só vão para os EUA e para a Europa. Querem ter cultura, mas só absorvem a modernidade, esse arauto da fome em todos os sentidos.

As mães educam seus filhos para evitarem o sofrimento, sofrem para que seus filhos não sofram, e conseguem com um só golpe deixar de viver a vida enquanto moldam seus filhos para a covardia, a incompreensão, a alienação. Ninguém aprende a andar sem cair, nem podemos descobrir o que é felicidade sem o sofrimento. Não existe saúde quando tomamos tantos remédios, mas a indústria farmacêutica continua crescendo e fazendo propaganda, nem os cientistas questionam seus princípios, o governo e a mídia escrota contam saúde em número de hospitais, segurança em número de presídios, felicidade em número de eletrodomésticos. O que está errado? Tudo!

Radicalismo é ficar à margem, é ver a margem e para além dela, e constatar que estamos longe, muito longe de tudo o que tinha sido planejado pelas melhores utopias. E quanto mais o tempo passa, mais o dinheiro torna-se deus, mais os governos cedem aos mercados e mais as juventudes carecem de ideais. Mais a população cresce, e mais as igrejas são permitidas a instar que isso permaneça assim, afinal, isso interessa a todos: governo, mercado, religião.

Conheci muitos que temem negar os demais, porque não sabem fazer nada sozinhos. Não saem de suas casas sozinhos para andar, a não ser uma rápida volta no quarteirão para manter a forma. Não atravessam as cidades para explorá-las, olham antes nas revistas aonde ir; não adentram os campos e bosques, nem atravessam os próprios preconceitos. Tentamos, por vezes, atravessá-los, mas quando percebemos que isso nos tornaria radicais, marginais, párias, recapitulamos e engolimos novamente as pílulas encardidas de dourado da civilização e suas recompensas torpes. Um salgadinho da Knorr ou Kellogs ou qualquer outra com K, cujo capital seja estrangeiro, cuja partícula mínima de alimento vem embrulhada numa quantidade absurda de lixo! Chega! Chega de tanto lixo! Precisamos parar de rezar pra Deus e trabalhar para limpar o planeta! Mas ninguém quer trabalhar - a modernidade elétrica preza o conforto! O desmovimento. Vidros elétricos em automóveis! Chegamos ao cúmulo, mas queremos ir além!

Aquela criança está sendo bem educada para não aprender a pensar, para jamais questionar, raramente duvidar e acatar tudo que sua sociedade lhe impinge. Apenas começamos o milênio e já suportamos a maior força que a sociedade já colocou sobre os indivíduos. Temos liberdade de ir e vir, mas não vamos, e quando vamos, é apenas para voltar cheios de fotos digitais e mostrar aos demais nossas extravagâncias, como se fossem geladeiras de brilho metálico na sala de estar. Claro, conhecemos o Louvre, mas já não o conhecíamos?

Acredito que no passado não apenas a honra tinha um significado, mas também a desobediência. Não precisamos voltar à idade das cavernas, isso não nos ensinaria nada, mas podemos desobedecer. Podemos negar que deve haver crescimento, que devemos trocar de computador a cada três ou a cada dez anos, que deve haver excedente de produção para haver economia, que trabalhar enobrece o espírito. Para quê trabalhamos? se o desenvolvimento da sociedade é sinônimo de desenvolvimento da exclusão? Para quê trabalhamos? se as pessoas mais caridosas com os animais sentem raiva do pivete que lhe pede um pão? Para quê trabalhamos? se a polícia que financiamos proíbe quem quer se drogar, gera um tráfico violento e rico, permite que o álcool desestruture a vida de milhões, entra no jogo da corrupção de todas as proibições - volta para nos dizer onde devemos e onde não devemos deixar nossos nomes escritos? Para quê trabalhamos? se um ricaço pode sujar todas as ruas de outdoors, mas um pivete não pode sujar um muro liso com sua assinatura, seu ícone tribal? Para quê trabalhamos? se apenas as tribos com nome e sobrenome são permitidas viver com apego?

Endeusamos a ciência enquanto ignoramos a filosofia. Esperamos que a religião nos salve enquanto ignoramos a filosofia. Compramos o pão quente pela manhã e fugimos das cobranças (formais e informais), enquanto ignoramos a filosofia. E assim, nesse medo medonho de pensar, nessa negação do diferente, nessa esconjuração do alternativo, continuamos a bajular a sociedade, a ensinar nossos filhos a usarem bem os talheres, e continuarem a ignorar a filosofia.

Homo sapiens? Vi uma vez um homem cujo bigode media seis metros. Talvez em sua homenagem devêssemos mudar o nome de nossa espécie para Homo bigodus? Afinal, como disse alguém uma vez, a distância que separa um Nietzsche do ser humano comum é maior, provavelmente, da distância a separar esse humano comum dos chimpanzés. Somos bichos, reproduzimos como bichos, usamos alardes como bichos, só que mais elaborados. Antes, matávamos e morríamos por ideais, pela reprodução, pela vida. Hoje, sequer desses atos de humanidade somos capazes. Por covardia, preferimos deixar matarem e deixar morrerem, enquanto assistimos a tudo isso pelos telejornais, que não nos dão tempo de pensar entre uma e outra manchete, e cujos intervalos comerciais são demasiado curtos e barulhentos para que cheguemos a algum lugar mesmo depois de décadas sentados na frente da TV.

Civilização, para que te quero?

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