Friday, September 14, 2007

SimNation - A Arte de Governar

O que qualifica um grande romance, na literatura? Ou um clássico do cinema, ou do teatro? (Embora esta última modalidade de arte seja (ainda mais) pobremente difundida no Brasil que sua mãe, ou seria irmã?, a literatura.) A literatura, o cinema e o teatro são as artes que se desenvolvem num tempo mais longo e profundo que, digamos, a música. Os grandes clássicos são, grosso modo, aqueles que melhor exploram e expõem as universalidades humanas, as grandes paixões, medos e vícios que todos, em todas as épocas, vivenciamos. Talvez por isso a música não seja uma arte tão grandiosa, tão monumental, quanto as anteriores, a não ser talvez, no hibridismo de uma ópera.

Mesmo a pintura pode adentrar a dimensão temporal, pois passamos do geral aos detalhes em um quadro, ou o contrário, apenas depois de um certo tempo, após alguns instantes de atenção (que podem chegar a anos, quando um detalhe sutil passa despercebido). Ainda sobre as pinturas, cada pessoa, como cada época e lugar, terá uma interpretação, ou antes uma percepção diferente, o que costuma ser explorado por pintores habilidosos.

Voltando à narrativa linear, há uma arte moderna que os mais antigos tendem a torcer o nariz para. Videogames, ou vídeo-gueimes, como querem os modernosos, ou jogos eletrônicos, ao lado de programas revolucionários como o Google Earth (e por que não, o próprio sítio de buscas Google), muitas vezes alcançam o que se chama o Estado de Arte da Engenharia - EAE. Como na arquitetura, não basta fazer bem, valoriza-se praticidade, beleza estética, economia (de megabytes, nos computadores), conforto, eficácia, eficiência, baixo custo.

Tudo isso para sugerir que um jogo pode chegar ao estado da arte, e ainda compartilhar com três das belas artes a vantagem extra do desenrolar de uma história, ou antes várias histórias, como é natural à interatividade, e com isso agregar idéias como moral, sentido (enquanto teleologia, direção) e sentido (enquanto significado); e, com tudo isso, discutir conceitos vagos e até perigosos, mas onipresentes, como o significado do bem e do mal.

A luta contra os vídeo-games é tão antiga quanto estes e cresceu junto com o desenvolvimento tecnológico. O tempo gasto na frente dos computadores aumenta dia após dia, a obesidade, o sedentarismo, a "artificialização" do mundo, o isolamento e o individualismo, são algumas das facetas do nosso nem tão admirável mundo novo.

O processo histórico é irreversível, e pior, não pode ser antecipado (ainda?). O apocalipse, aquela figura mitológica, nunca se sentiu tão à vontade em sua própria sala de estar, ou, esperamos, ainda à porta de entrada. MAS... se não podemos prever o futuro, podemos ao menos simular as sociedades? Para que todo o conhecimento acumulado, senão para alimentarmos testes sobre nosso próprio destino? Para nos compreendermos como espécie, como civilização, como experiência, que é o que é, afinal, toda sociedade?

Faltar ao conhecimento obras é como faltá-las à fé: ambos sem obras são mortos. Enquanto a grande arte tenta antecipar às vezes o futuro (embora o consenso dos críticos intelectualóides reverencie mais os "retratos de época"), uma das coisas boas que a irrefreável tecnologia nos trouxe foi o auxílio da "matemática à velocidade da luz", frase que serviria bem como epitáfio para os computadores, caso reste alguém em condições de escrever um qualquer dia.

Dos mapas celestiais de Galileu e Kepler, passamos aos mapas genômicos, para em breve alcançarmos a próxima fronteira, os mapas sociais: simulações de sociedades inteiras, uma espécie de ecologia social, com modelos matemáticos interpretando as obscuras relações entre economia, política, mídia, poder, dinheiro, população, terra, mercado, energia, bens de consumo, tráfego, comunicação, violência, medo, alimentação, educação, saúde, turismo, indústria, agricultura, pecuária, meio-ambiente, pesca, poluição, investimentos públicos e privados, monopólios, oligarquias, sistemas de governo, bancos, sistema financeiro, forças armadas, previdência, hidrografia, empresas aéreas, mineração, conflitos étnicos, religião, linguagem, relações internacionais, tecnologia, ciência, arte, cultura, saneamento, programas espaciais, nucleares e, por que não, a produção de alfinetes por kW*h*funcionário.

As possibilidades são infinitas, e os benefícios óbvios. Compreende-te a ti mesmo - do humano ao super-organismo. Chegou o momento de entendermos o estranho animal chamado Nação. E lutar por ele.

Simnation.

Rodrigo de Loyola Dias, 2007.

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