Friday, August 31, 2007

expresso bruto

músicas:

Expectations - Belle & Sebastian
I Talk To The Wind - King Crimson
Epitaph - King Crimson
Led Zeppelin IV inteiro


"Isaltino viu o gavião apanhar o pinto na porta da cozinha. A meninada toda saiu correndo atrás de Garcilásio, que levou a espingarda, até verem o gavião dilacerando sua presa do outro lado da maniwa."


Um certo filósofo disse certa vez que há dois tipos de pessoas: aqueles que classificam as pessoas em dois tipos e aqueles que não o fazem. Talvez algum dia essa verdade tenho sido apenas uma curiosidade, quero dizer, essa diferença talvez já tenha existido como mera contingência, como algo não necessário e talvez até sem conseqüências para o modo como vivemos.

Hoje, contudo, existe uma divisão clara que antes não havia. Há, de fato, dois tipos de pessoas: aqueles que querem o futuro e aqueles que querem o passado. De certa forma, todos ansiamos e tememos um pouco pelo futuro, enquanto guardamos com carinho momentos felizes que se foram. A divisão atual diz respeito ao que se deseja como futuro - que ele seja inovador, moderno, tecnológico - ou que mantenha os atrativos do passado que hoje destruímos em nossa sanha de lucro e mercados.

A dicotomia se torna explícita na visão que as pessoas têm da natureza: algumas simplesmente desdenham a natureza como um luxo agradável somente para alguns, sendo assim dispensável para todos que assim desejam. Este raciocínio sustenta que as pessoas não precisam da natureza, que é uma escolha filosoficamente sustentável adulterarmos a natureza a nosso bel prazer em troca do que quisermos, haja visto que somos a única espécie consciente sobre o planeta - e fossem os leões os donos de tal incumbência, fariam o mesmo, como também alienígenas, e como de fato os dinossauros parecem ter feito por longas eras.

Entretanto, há a visão oposta: não de que a natureza seja um bem comum da humanidade - nada tão abstrato. Nem que seja do interesse de todos, ou uma companheira agradável a algum instinto primitivo da "natureza humana". A visão oposta é a de quem vive _na_ natureza, _com_ a natureza e _da_ natureza. Para essas pessoas, a natureza é seu único bem, sua maior riqueza. Destrua-se a natureza, e restará apenas a riqueza criada para os que podem, e um mar insalubre de restos para os demais.

A questão que se coloca: quais fatores determinam de que lado alguém vive?

A idéia do berço parece tentadora. Quem nasce com todos os confortos da vida moderna não costuma abandonar seu carro apenas para evitar o aquecimento global. Afinal, para esses, o sistema público de transporte é "intolerável". Da mesma forma, quem nasce próximo da natureza pode até procurar conforto onde não há, mas vários são os que cedo ou tarde se arrependem e retornam em busca do bucolismo que se extingue muito a muito.

Outra idéia é que a carreira determine a maneira como alguém vê sua relação com o mundo - se como dependência ou parasitismo. Há cursos universitários que abrem a cabeça para esta questão e para a seriedade com que deveríamos hoje estar atrás de sua resposta. Biologia, talvez música, história e filosofia. Há cursos que têm o referencial oposto, de que o homem deve usar sua lógica como ferramenta suprema, e de preferência não olhar para os estragos que essa abordagem causa. Economia, direito e publicidade me vêm à mente. Desnecessário dizer que também há biólogos reacionários e advogados altruístas, mas parecem mesmo a minoria.

Na prática, nenhuma das idéias talvez funcione, apenas porque somos muito mais um acúmulo de vícios e hábitos arraigados do que um projeto logicamente elaborado conforme um status social e uma educação específica.

Uma visão comum entre biólogos contemporâneos parece ser uma terceira opção em minha dicotomia original: "eu sei que há um problema com o planeta, que nossas ações são as únicas responsáveis pelo mal que faremos com nosso futuro e o de nossos filhos, mas ainda assim viverei exatamente como tenho vivido, perseguirei os mesmos ideais, mesmo que não seja hoje tão claro que eles contribuirão com a humanidade (ou com o ambiente) como cheguei a acreditar que eles contribuiriam." Em outras palavras, da boca para fora admite-se que devemos cuidar melhor do planeta, mas na prática não se diminui o consumo de energia elétrica ou combustíveis, ainda se almeja ao mesmo nível de distinção social. Há algo de errado nisso? Talvez, quando metade do mundo está vendendo o almoço para comprar a janta (reparem o eufemismo, pois de fato sequer estão comprando alguma coisa), quando essa desigualdade beira o caos e incendeia a violência urbana, quando sequer as pessoas ricas têm discernimento do que seja a realidade, então tudo o que acreditávamos perde o sentido. Não preciso de um sofá em minha sala, ou de uma cortina decorativa em minha janela. Não preciso de um espelho elegante na copa, ou uma mesa decorada na sala de estar. Não preciso, de fato, de uma copa E uma sala de estar. Talvez não precise de nenhum dos dois. Não preciso ter a roupa passada, como dificilmente precisarei de uma roupa "melhor" que a sua. Não preciso levar duas malas para passar uma semana fora, ou um mês. Não preciso de mais que dois pares de tênis, talvez um par só me baste. Não preciso honrar minha aparência mais que minhas ações, nem preciso do que é melhor, se posso ter quantidade do que é suficiente, e até dividi-lo com meus semelhantes. Tudo isso considerado, todo o mundo continua sendo uma grande farsa.

O dia das crianças é uma farsa, como o dia dos pais e o das mães. O Natal é uma farsa ainda maior, pois comemoramos o nascimento daquele cujas palavras não seguimos. O imposto pago constitui uma farsa, pois é usado para manter o sistema que não mais corroboramos, e se retorna aos mais necessitados é apenas por exceção.

Tudo bem, precisamos estar de algum lado da equação. Muitos até acreditam estar do lado de cá, quando descobrem que há inúmeros quilômetros ainda mais para "cá", e que de fato se encontravam confortavelmente instalados entre os que se assumem, sem mesmo corar, como alguém do lado de "lá".

Pensando bem, é justamente aqui que recai boa parte das pessoas que conheço.

O ser humano politicamente correto de hoje é assim:

1) já sabe que o homem é um câncer sobre o planeta;
2) tomou algumas atitudes quanto a isso - recicla seu lixo ou é vegetariano ou usa canecas plásticas para evitar o desperdício de recicláveis. Ou tudo isso e algo mais;
3) tem um carro - e se não tem, está batalhando duro para tê-lo. Afinal, numa cidade grande não há outra escolha para quem quer ter uma vida social ativa;
4) sequer cogita em mudar de cidade e comprar uma bicicleta;
5) acha, ainda, absurdo que as pessoas pobres sejam tão pobres. Acredita que deveriam ter um nível de vida mais elevado, e apenas a isso chamaria de justiça;
6) acha, também, que se a média de qualidade de vida (sic) dos pobres subisse, isso não se refletiria em uma metástase sobre o planeta (algo como todos nós 6 bilhões de humanos, ou talvez metade, termos um padrão americanóide ou europeóide de vida).

Agora vem o osso:

as pessoas que têm cultura o bastante para pensar sobre isso já devem estar entre os 5% mais abastados do planeta (sendo muito otimista; quem sabe 1% ou menos?)

Essas pessoas que pensam sobre isso são ainda menos abastadas que as pessoas que criam as leis, as pessoas que as executam e as que julgam. Considerando que todas as leis são criadas para estas pessoas, o mundo continuará insustentável por muito tempo ainda. Considerando que essas pessoas conscientes esperam do fundo do coração que os pobres, algum dia, os alcancem em sua qualidade de vida consumista e material, e considerando também que mesmo os pobres não são educados para buscarem outra coisa -- creio que somos mesmo bem poucos do lado de "cá".


No Brasil, o eixo acima descrito está muito bem representado no eixo São Paulo---Amazonas. O primeiro, não satisfeito em ter de longe o maior parque industrial, se ofende com o projeto da Zona Franca de Manaus, cujo objetivo é desenvolver o maior estado do país sem vender sua madeira.


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A escolha de um curso na universidade pode ser o primeiro passo na definição da visão que alguém abraçará em sua vida.
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As pessoas não sabem relaxar. A questão é: o tempo passa e como o aproveitamos? O que outros pensarão a respeito do que pensamos sobre isso? Como nos encararão, conforme o modo como nós encaramos tudo isso? Devo buscar o que é confiável ou o que é belo? Devemos preferir o imediato ou o duradouro? No fim de alguns anos de dúvidas e angústias existenciais, decide-se viver sem pensar no assunto - mas ainda está lá. Como uma pulga, um micróbio que cochila e torna a acordar, a questão permanece. Tic - tac - tic - tac - e depois? Ou ainda, e agora, durante?

Reparo nos rostos na rua, nos pontos de ônibus. Há vários rostos e preocupações diferentes. Este senhor olha o ônibus que não vem, vira o rosto e contempla as pessoas do outro lado. Passa os olhos rapidamente sobre o ônibus em que me encontro, sem reparar que o observo. Olha novamente para um lado e depois para o outro. O que estará pensando? Rugas retorcem sua testa, mas depois afrouxam. Por um instante ele pensou no tempo. Depois focou a visão no ponto distante da rua de onde seu ônibus deveria surgir, e por uma fração de segundo o tempo não o incomodou. Uma senhora espera pacientemente sua lotação. Carrega uma sombrinha para proteger-se do sol, enquanto seu olhar impenetrável pensa milhares de idéias veladas. Não parece tão preocupada como o outro rapaz, não tem aqueles instantes de dúvida e hesitação. Talvez já os tenha tido em demasia, e agora talvez quase nada a perturbe. Do outro lado uma garota tenta se distrair enquanto espera na sombra. Rói as unhas como reflexo de que algo precisa acontecer - não faz sentido que o tempo passe enquanto nosso corpo apenas sinta, estático - é o que ela parece pensar. Se é que pensa. Talvez seu corpo seja ainda apenas um veículo das leis naturais de reprodução, prazer e dor - talvez ela viva como parecem viver as massas quando vistas de longe: sem essa dúvida que nos assola, a nós pensadores.

Quando essa questão vem como uma visagem - o sentido da vida, talvez seja esse o seu nome - há muito pouco a fazer. Talvez filosofar, talvez esquecer. A maioria toma o caminho intermediário - alguns compram, outros fumam, muitos bebem, vários vão à igreja e buscam satisfazer o incômodo da Questão. Ainda assim, no final, Ela estará lá nos aguardando. E nos receberá conforme tivermos feito de nós a nossa vida, sem nos punir, sem nos julgar, sem nos negar. E nós, quando enxergarmos isso, abriremos mão das regras e entraves que construímos na busca de nossas respostas.





E o inefável? Momento? Eternidade?




Pensar, verbo intransitivo

Quando o ser humano toma consciência de estar cercado por inúmeros outros seres pensantes, diz-se que adquiriu um status social. Faz parte da sociedade de pessoas, não é um autista nem um louco. Contudo, apenas depois de um certo tempo é que aprendemos a definir as perguntas mais universais, e depois que as formulamos, passamos a separar as pessoas entre as que já se depararam com as mesmas questões, e as que ainda não chegaram lá. Que questões são essas?

À que hoje ocupa o primeiro plano da minha mente eu chamaria "e daí?". Consiste em perceber que o mundo é injusto, que não existe um Deus ou Papai Noel para nos ajudar, que as pessoas são em geral egoístas, ainda que às vezes altruístas, que mesmo os amigos um dia se vão e que toda a política, a mídia e o sistema estão aí apenas para nos enganar e nos fazer viver no pior dos mundos possíveis (exceto, talvez, para quem manda, mas mesmo isso é discutível).










Há certas questões que não devem ser postas, dizem - Um gay pensa: será que virei um viado? Como um político talvez pense: será que esse tanto já é demais?

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