Tuesday, January 25, 2011

Filosofia Natural

O dualismo mente-matéria deve ser a maior perda de tempo da história! Parece que de um lado temos aquele cara que agarra um porco pelo focinho e prepara uma feijoada, que corta a comida direto da planta, acende o fogo, queima alguns pêlos, se alimenta e tem histórias pra contar; que se encontrar um fóssil vai relacioná-lo diretamente ao animal que caminhava, caçava e cagava, e que não consegue imaginar nossa história a não ser como uma cadeia de "vir" e "ir" de incontáveis gerações, com mentes nascendo, aprendendo e morrendo umas atrás das outras, em fila, em árvore, materialmente conscientes ou não do que seja a vida. E parece que nalgum outro lado (não precisa haver apenas dois lados) temos aquele cara que agarra um livro com delicadeza, abre suas páginas e fica tentando imaginar como será a vida, se será como este autor a descreveu ou se será como aquele outro autor o fez. Para este cara talvez faça muito sentido que a mente possa existir antes da matéria, e que todos os animais que caminharam sobre a superfície do planeta sejam não nossos parentes, mas produtos da nossa imaginação como o alfabeto, a aritmética e o pecado. Mas eu não deveria estar me aprofundando nesse dualismo, muito menos escolhendo um lado. Afinal, os dois lados sempre têm a sua razão de ser. A matéria parece anterior sempre que vemos o desabrochar de uma flor, e compreendemos como tão belo espetáculo pode ter surgido apenas por seleção natural. Mas a mente pode parecer anterior sempre que o desespero da miséria exige a esperança de algo maior, e quantos de nós se erguem a alturas apenas se aproveitando do desespero alheio?

Não, não interessa quem veio primeiro, se o ovo ou a galinha. Embora as modificações genéticas apareçam na prole, não nos pais (logo, o ovo é diferente da cloaca que o botou, mas o pinto que nasce é o mesmo que havia dentro do ovo). O que importa é que o pinto nasce, cresce e ocupa o seu espaço. E livros e bibliotecas inteiras foram preenchidas com patéticas discussões sobre coisas intangíveis. Perdoai-me se sugiro que o ovo veio antes, ou que a matéria produz a mente - mas espero que ainda possamos falar sobre coisas tangíveis. A guerra é tangível, a morte é tangível, a fome que passa uma criança porque o sistema econômico deve expandir-se, e para isso é imprescindível algum desemprego, mesmo em economias avançadas - tudo isso é tangível. Então por que tantos hoje vivem como se uma intangibilidade universal lhes desse o direito de olhar apenas para os próprios umbigos?

Sento-me agora com dez mil fantasmas atrás de mim, assombrando-me com suas suposições e esperanças. Quem são eles? Todos os que, em vida, não tiveram a coragem de dizer o que pensavam, e agora esperam que eu faça isso por eles. Todos que em vida amarraram-se às convenções sociais, seguiram o poder como se fossem um magneto, uma gota d'água obedecendo à gravidade no leito de um rio, uma partícula mecânica sujeita às leis da psicologia de massas, ou do mercado, ao invés das pessoas com pensamento e caráter - que é o que deveriam ser. Mas o que sei eu do que os outros deveriam ser? - Quem faz esta pergunta? senão estes mesmos para os quais tanto fez como tanto faz, desde que meu umbigo primeiro, oba!

Eu quereria falar sobre Filosofia Natural, pois sim: o que é a Natureza senão movimento desde células até estrelas, passando pela carne cortada por presas e garras e pela ambição de sonhos exagerados e limites impostos a pequenos sonhos? Que é a Natureza senão vírgulas seguidas de vírgulas em frases infinitas sem ponto final? Interrogações sobre interrogações, travestidas de exclamações uma vez que interrogações atrasam a marcha que alimenta os campeões? Se é isso a Natureza, ainda há motivo para otimismo, principalmente porque a maioria de nós acostumou-se a viver em meio ao artificial, distantes do natural. Logo, não há porque sermos escravos da Natureza. Podemos burlá-la, enganá-la, distorcê-la, desobedecê-la para todo o sempre - e não é isso mesmo, ainda, a própria Natureza? Temos o privilégio e o direito, se não o dever, de corromper toda a ordem natural das coisas e forjar um sistema onde cada um receba o que precisa e contribua conforme sua capacidade. Mas mesmo o dever, não somos a ele obrigados - sofremos apenas as consequências, conforme, claro, nossa possibilidade financeira de fugir também a essas. Mas, a não ser que tenhais aeronaves e ilhas particulares, todo o cotidiano vos afeta. E o cotidiano é a própria consequência de um mundo que acredita obedecer demais à ordem Natural (que se finge de ordem divina; quando a Natureza não conhece moral, mas nós conhecemos, e aquele Deus, aquele, dos brancos, este a teria criado em primeiro lugar, assim fingem os que acreditam ou fingem acreditar). Pois chega de hipocrisia, e mergulhemos de vez no rio de nossos próprios esgotos morais. Pois são nossas as fezes, de matéria e pensamento, e ninguém melhor que nós mesmos para tentar limpar de novo as águas que correm.

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