Sunday, September 26, 2010

O que é consciência?

Subjetivamente, a consciência parece um conhecimento de si, uma sensação de que todas as sensações e memórias referem-se a uma entidade única, que se mantém desde o nascimento até a morte (e, discutivelmente, antes do nascimento e além da morte). É talvez um sinônimo para a noção de "eu".

A discussão acerca da permanência da consciência fora dos limites nascimento e morte gera duas ideias contraditórias. Ou o indivíduo se formou apenas após a união dos gametas de seus pais, ou o indivíduo já existia antes disso, e esperava apenas uma "cápsula" que pudesse "ocupar" (chamemos isso de hipótese da encarnação). As consequências filosóficas, morais e políticas das duas visões são imensas. Uma questão possível para os que acreditam na hipótese da encarnação é "e se eu tivesse nascido em outra época e lugar?". Para os materialistas (a visão oposta), essa questão simplesmente não faz sentido, pois qualquer corpo criado em outra época e lugar seria naturalmente outra pessoa e não aquele "eu" que fez a pergunta. Os encarnacionistas tendem a se opor ao aborto, como aliás a maioria das religiões institucionalizadas. Entre os materialistas é mais comum encontrar aqueles que preferem um mundo menos populoso, considerando que a qualidade de vida dos vivos é inversamente proporcional à densidade humana, e também que a mulher tem o direito de decidir sobre a família que deseje ou não criar. Claro que o sexo ser um assunto aleijado pela moral religiosa contribui para a inflamação do debate. Para os materialistas, o sexo é percebido como um dos poucos lazeres a que a maioria pobre tem acesso, e obrigá-los a manter todo e qualquer embrião resultante desse ato é uma maneira sutil de mantê-los num ciclo vicioso de miséria. (Um espírita dirá que a superpopulação é necessária para o tipo de aprendizado que os encarnados na Terra precisam ter - ou seja, aceitam tudo como é através de argumentos ad hoc, e não se esforçam para modificar nada).

Mas fujo ao tema. Objetivamente, é sabido que várias estruturas cerebrais são necessárias para sustentar uma consciência funcional. Alguns filósofos, como Marvin Minsky (veja "The Society of Mind"), dividem a consciência em partes, cada uma destas agindo como um pequeno programa de computador, ou "daemon", e realizando uma parte das tarefas mentais. Cada uma dessas partes é inconsciente, e a consciência seria justamente a ligação do trabalho de todas elas - memória, linguagem, sentidos, propriocepção, etc. Alguns autores, como António Damázio (veja "O Mistério da Consciência" ou "O Erro de Descartes") e Oliver Sacks, mostram pacientes cujos danos cerebrais causam estranhas irregularidades cognitivas, jogando alguma luz sobre o funcionamento da consciência. Os modelos conceituais desses três autores são bem semelhantes. Outro autor, o filósofo John Searle (veja seu "O Mistério da Consciência"), abrange um espectro maior de visões, desde o materialismo atual representado pelos autores acima, até visões metafísicas de uma "consciência universal". Nessa ideia, nós temos uma consciência humana, um cão tem uma consciência de cão, uma bactéria teria uma consciência de bactéria e um prego teria uma consciência de prego. Assim, a consciência seria um elemento primordial no universo, assim como a matéria ou o tempo, e não um subproduto de fenômenos bioquímicos.

Muitas pessoas acreditam que a consciência é o que distingue o ser humano dos demais animais. Contudo, quem conhece bem os animais dificilmente acreditaria que se tratasse apenas de autômatos orgânicos, desprovidos de qualquer tipo de raciocínio. A primatóloga Jane Goodall, por exemplo (veja "Uma Janela para a Vida"), passou décadas estudando o comportamento de chimpanzés selvagens, e suas descobertas convenceram a sociedade científica a aceitar o uso de termos antes restritos ao comportamento humano para descrever o comportamento dos chimpanzés, incluindo aí alegria, tristeza, planejamento estratégico, gratidão, inveja, raiva e jogos de poder. Diz-se também que golfinhos têm uma consciência tão desenvolvida quanto sua imensa inteligência (veja o filme "The Cove", de 2009). São capazes de reconhecerem a si mesmos entre outros golfinhos num vídeo, além de inúmeras outras habilidades espantosas. Mais espantoso ainda é o fato de esses animais serem até hoje treinados no infame Sea World através da linguagem de sinais manuais, o que permite apenas que o treinador passe mensagens para o golfinho, e não o contrário. Quem é a espécie inteligente aqui? (Chimpanzés que aprenderam esta linguagem a ensinaram para seus filhos por iniciativa própria.)

Seguindo nesta direção, somos levados a pensar sobre a consciência de cães, gatos, coelhos e ratos, e também de aves, répteis, anfíbios, peixes, e até de invertebrados. Parece um consenso entre biólogos que animais têm níveis variáveis de consciência, desde que um sistema nervoso minimamente complexo esteja presente. Plantas, assim, dificilmente teriam qualquer tipo de consciência.

No fim, a consciência deve ser ou um elemento distinto da matéria ou um subproduto da matéria, fruto das reações químicas e condução de informações organizadas dentro do cérebro. Como não temos elementos para provar como falsa qualquer uma dessas hipóteses, trata-se mais de uma mitologia que de ciência, e cada um pode escolher em que acreditar. Porém, assim como chimpanzés em cativeiro mostram uma tristeza e falta de vitalidade lamentáveis, sabemos que nossa própria qualidade de vida depende de fatores físicos, químicos, biológicos e culturais - todos eles materiais e mensuráveis. A proibição do aborto com base numa mitologia não demonstrada de "pré-consciência do embrião" ou "sacralidade da alma embrionária" é uma fonte de superpopulação que pode interessar a exércitos, políticos e igrejas, mas que definitivamente degrada a qualidade de vida e do meio-ambiente. É urgente repensarmos e discutirmos essas questões levando em consideração todos esses fatores.

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