Sunday, May 08, 2011

Trechos de insustentabilidade

Parece óbvio que os combustíveis fósseis que nos viciaram acabarão cedo ou tarde - aparentemente mais cedo do que tarde. Parece inevitável que cedo ou tarde, por bem ou por mal, boa parte da população terá que voltar a viver no campo, produzindo comida localmente, pois os custos da globalização de alimentos serão impraticáveis. O século XX terá sido uma exceção na história, e o importante será: quanto conhecimento agrícola ainda teremos, quantas fontes de água limpa, quanto solo fértil, quantas variedades de sementes? A questão das mudanças climáticas é um detalhe nessa história; tudo que conhecemos, plásticos, medicamentos, telecomunicações, transportes, tudo depende do petróleo. Os estoques de gás natural durarão menos. Os de carvão, um pouco mais. Tentativas de substituir o petróleo por etanol e biodiesel serão uma tragédia do ponto de vista alimentar e ambiental. Não tem jeito, nossa civilização como a conhecemos está com os dias contados (a civilização Romana caiu por esgotar o solo fértil, a nossa, no ritmo atual, durará muito menos). Nossas atitudes hoje definirão o tamanho da margem de manobra que teremos disponível no futuro. Nós, nossos filhos, sobrinhos e netos.

Quando voltarmos para o campo, poderemos ter ainda alguns avanços da tecnologia, como a Internet. Isso se não esgotarmos por completo os recursos decrescentes - aí sim, voltaremos a uma nova Idade das Trevas, um Mad Max ou algo ainda pior. Teremos tempo e recursos para trocar toda a matriz energética atual por fontes como sol, vento e nuclear? O acidente nuclear no Japão diminuiu a empolgação com esse último tipo de tecnologia. E mesmo placas solares e geradores eólicos precisam de petróleo e outros minerais também decrescentes para sua fabricação. Por hora a negação tem sido a saída mais comum. Por quanto tempo mais poderemos negar o inevitável?

O livro: http://www.amazon.com/Peak-Everything-Century-Declines-Publishers/dp/086571598X


"Os inventores de bombas nucleares, foguetes espaciais e computadores são os construtores de pirâmides da nossa própria era: psicologicamente inflados por um mito similar de poder não qualificado, vangloriando-se através de sua ciência por sua crescente onipotência, se não onisciência, movidos por obsessões e compulsões não menos irracionais que aquelas de antigos sistemas absolutistas: particularmente a noção de que o sistema propriamente dito deve ser expandido, quaisquer que sejam os custos eventuais."

- Lewis Mumford, "Authoritarian and Democratic Technics" apud Richard Heinberg, "Peak Everything", p. 32.


"Cerca de 1500 litros de equivalentes de petróleo são necessários para alimentar cada estadunidense a cada ano, e cada caloria de alimento produzido requer, em média, dez calorias de combustíveis fósseis [na forma de fertilizantes e defensivos químicos, embalagens plásticas, máquinas, combustíveis e energia para irrigação e transporte]. Este é um sistema alimentar profundamente vulnerável, em todos os níveis, a escassez de combustível e alta de preços. E ambos são inevitáveis [devido à produção já decrescente, embora pouquíssimo divulgada, de combustíveis]."

- Richard Heinberg, "Peak Everything", p. 48.


"Enquanto estávamos produzindo milagres de produtividade, os impactos da agricultura sobre o mundo natural também estavam aumentando; de fato, a agricultura é agora a maior fonte isolada de danos ambientais globais produzidos por nós. O estrago toma um número de formas: erosão e salinização dos solos; desmatamento (uma estratégia para abrir mais terra para cultivo); escoamento de fertilizantes (que por fim criam enormes 'zonas mortas' ao redor da foz de vários rios); outros poluidores agroquímicos da água e dos solos; perda de biodiversidade; e escassez de água doce.
"Em resumo, nós criamos abundância sem precedentes enquanto ignoramos as consequências de longo prazo de nossas ações. Isto é mais do que um pequeno lembrete de como sociedades agrícolas anteriores - gregos, babilônios e romanos - destruíram solos e hábitats em sua mania de alimentar populações urbanas crescentes, e entraram em colapso como resultado.
"Felizmente, durante o último século ou dois nós também desenvolvemos as disciplinas de arqueologia e ecologia, que nos ensinam como e por que essas antigas sociedades falharam, e como a diversidade da teia da vida nos sustenta. Em princípio, se nos aproveitarmos desse conhecimento, não precisaremos negligentemente repetir a velha história de colapso civilizacional catastrófico."

- Richard Heinberg, "Peak Everything", p. 53.


"A antropologia cultural nos ensina que a forma como as pessoas conseguem seu alimento é o mais confiável determinante de virtualmente todas as demais características sociais. Assim, à medida que construirmos um sistema alimentar diferente nós estaremos inevitavelmente construindo um novo tipo de cultura, certamente muito diferente do urbanismo industrial mas provavelmente também do que o precedeu. Como sempre antes na história humana, nós o faremos enquanto avançamos, em resposta à necessidade e à oportunidade.
"Talvez essas grandes mudanças não aconteçam até que a necessidade seja óbvia e urgente. Talvez a gasolina precise chegar a 10 dólares o galão. Talvez o desemprego precise subir até 10 ou 20 ou 40%, com famílias implorando por comida pelas ruas, antes que políticos em apuros comecem a reconsiderar seu compromisso com a agricultura industrial."

- Richard Heinberg, "Peak Everything", p. 65.


"Na América do Norte, Frank Lloyd Wright liderou a 'escola da savana' da arquitetura, que buscou fazer construções adaptadas à paisagem ao invés de arbitrariamente dominando-a. Wright odiava a cidade industrial moderna e seu símbolo máximo, o arranha-céu, que ele considerava um 'fichário humano'. 'O arranha-céu como típica expressão da cidade', ele escreveu, 'é o estábulo humano, baias ocupadas com o rebanho, todos aguardando para serem ordenhados pelo sistema que mantém os animais dóceis com as forragens que coloca na manjedoura, e pelo calor que a multidão instila na multidão.' Wright viu a malha urbana das ruas e o arranha-céu como meros expedientes de poder e controle social com 'nenhum ideal mais elevado que o sucesso comercial'. Uma sociedade verdadeiramente democrática, ele argumentou, deve consistir de comunidades humanas descentralizadas, orgânicas, integradas à paisagem ao redor."

- Richard Heinberg, "Peak Everything", p. 70.


"O design industrial moderno cresceu junto com a propaganda e a necessidade crescente por propaganda. Como [William] Morris havia previsto, máquinas alimentadas por combustível poderiam apenas esmagar a comunidade humana e as habilidades e o orgulho dos artesãos. Elas também oprimiram a capacidade de pessoas comuns de comprar e usar bens materiais. Tantos bens podiam ser produzidos, e tão rapidamente, que os mercados ficavam facilmente saturados; daí a necessidade por parte dos fabricantes de novas e rapidamente crescentes indústrias de crédito e propaganda. Mais invenção requeria mais investimento, que requeria mais acúmulo de capitais, que por sua vez requeria mais vendas - mais consumo. Portanto o consumo *precisava* ser estimulado, e anunciantes, usando as descobertas científicas da nova ciência da psicologia, estavam ávidos em compelir.
"(...) O design industrial garantiu a alma e auto-imagem do poder corporativo, de outra forma sem face, à medida que cada corporação buscava sua própria 'personalidade' identificável, expressa na cor, forma, tom e textura de seus produtos. O resultado: durante o século XX, mesmo os esforços mais nobres dos designers industriais geraram produtos que eram expressões de um sistema cujas características principais eram ditadas por escala, velocidade, acumulação e eficiência - ditados que fizeram ambos, criadores e usuários finais dos produtos, meros instrumentos para a obtenção de um propósito em última instância às avessas da integridade cultural, sanidade humana e sobrevivência da espécie.
"(...) Enquanto o design industrial progrediu depois da II Guerra Mundial e através dos anos 50, 60, 70, 80 e 90, o estilo continuou evoluindo, como deveria fazer para servir aos propósitos da moda e da obsolescência planejada. Imagens e objetos tornaram-se mais abertamente sedutores e mais diretamente sugestivos de qualidades das quais as vidas dos seres humanos estavam de fato sendo sistematicamente drenadas - autonomia e criatividade.
"(...) Frequentemente sinto uma resposta visceral chocante quando saio das melhores exibições em museus e retorno a existência urbana contemporânea: tudo do lado de fora parece feio e lamentável em comparação. Tenho o mesmo sentimento quando saio de uma cidade como Veneza ou Kyoto e vôo de volta para a Califórnia. É uma resposta que só posso chamar de choque estético.
"Se William Morris e seus seguidores estivessem vivos hoje, eles considerariam um passeio por uma loja Wal-Mart como uma verdadeira descida ao inferno. Ainda assim, muitos estadunidenses [e brasileiros] evidentemente pensam nesses lugares como uma visita a uma paraíso do consumo. Talvez essa seja uma medida do grau de nossa degradação estética coletiva."

- Richard Heinberg, "Peak Everything", p. 73-75.


"Ainda que a estética hippie fosse pelo menos ocasionalmente adorável, ela era facilmente estereotipada e, quando lucrativa, imediatamente co-optada por cínicos executivos da propaganda. Ela também era com frequência ingenuamente acrítica de seus próprios pressupostos. Se você quiser apreciar por você mesmo as contradições embutidas no movimento, apenas alugue e assista ao filme *Woodstock*. O idealismo de olhos arregalados, auto-congratulatório das 'crianças' - que chegavam de carro para se libertarem pelo uso de psicofarmacologia amadora e para adorarem no altar da amplificação elétrica - é ao mesmo tempo tocante e insuportável. Não causa espanto que a revolução tenha falhado: sem uma compreensão das bases energéticas do industrialismo e portanto do estado corporativo moderno, sua rebelião jamais poderia ter sido algo além de simbólica."

- Richard Heinberg, "Peak Everything", p. 78.

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