Tuesday, April 04, 2006

A mangueira

Quando eu era criança lá em casa tinha uma goiabeira. Lá do alto eu observava, com meu irmão, toda a vizinhança e seus quintais. Víamos árvores, muros, telhados, janelas, portas, corredores, terraços com telhas de diferentes materiais, antenas, chaminés e respiradouros, fios, aves, gatos e dejetos de material de construção, papéis, jornais, poças de chuva e marcas do tempo nos concretos, nas manchas escorridas de tinta, uma e outra pichação. Para dois moleques um tamanho universo proporciona a liberdade aproximada que Adão devia ter no paraíso, até porque toda casa sempre tem algum pai ou mãe furioso e onipotente. Depois de adulto saí de casa, viajei, me mudei diversas vezes, e hoje tenho uma imponente mangueira no quintal da minha casa.

É bom deixar claro a diferença entre uma mangueira e uma goiabeira, além da evidente dessemelhança dos frutos. Uma mangueira é uma árvore bem mais sólida e alta, quando comparada à goiabeira. Seus ramos têm considerável espessura mesmo quando você sobe a 30 metros do chão. Já vi alturas de onde uma queda teria sido fatal, e ao meu lado lá se vai o último ramo de uma mangueira orgulhosa se esticando ainda mais uns cinco ou dez metros acima da minha coragem.

Outro dia subi nela e me esqueci por lá. Olhava as nuvens ao longe, um gavião, a mata a dois telhados do meu quintal de terra. O do vizinho é cimentado. O de trás é gramado, mas não tem árvores. O do outro lado sim, tem um quintal original, com suas bananeiras e um jambo. Do nosso lado eu toco numa bananeira, e mais adiante os pés de pupunha, que são palmeiras com espinhos finos. Imagino que uma coruja pousada aqui devorava o meu cachorro de dois meses. Imagino que as aves andam aqui no alto com a desenvoltura de anjos. Imagino que se eu tivesse uma cauda prêensil eu também dava os meus pulos. E fui imaginando essas coisas quando uma caba massetona me atacou. Me deu uma ferroada que doeu no mundo, mas eu matei a danada e já veio outra e depois uma terceira, e quando eu já ia ficando sem fôlego e vi que ia me esborrachar lá de cima, eu me apoiei num canto mais firme, de onde na posição que eu estava eu tinha certeza que não ia cair, e desmaiei.

Meu amigo que estava embaixo ouviu os gritos e os tapas e me viu ali, estirado com os braços sobre um tronco inclinado no vazio lá em cima. Subiu e enxotou os bichos, mas vendo que não me tirava dali sozinho, nem tampouco que eu acordasse, me amarrou e me deixou pra acordar sozinho. O problema é que eu não acordei. E ele, que é meio desligado das idéias, esqueceu-se completamente de mim, indo embora mais tarde. Não sei no que deu, sei que me acordei já com a Lua e os gatos que miavam e urravam e passeavam e se atracavam do meu lado, como se invadissem a minha rede e o meu lençol sujo de sonhos. Acordei assustado e latindo. Dava latidos grossos e raivosos, tal era o animal que eu incorporava num sonho, um cão ou um lobo e até talvez um urso, negro e violento, alto, feroz e faminto. Quando dei por mim imaginei que toda a vizinhança já estaria me vendo e rindo-se de mim, e aí fui eu quem ri. Depois me envergonhei, mas depois ri de novo. Olhei em volta e só então percebi que a noite ainda não tinha se dado conta de mim. Perdoei-lhe o descaso, mas não ao meu amigo, que de tão desligado esqueceu-se de deixar o nó ao alcance das minhas mãos, para que eu mesmo pudesse descer quando acordasse. Fiquei lá em cima, vendo gatos que iam e voltavam, num impressionante faroeste felino. Ouvi as corujas e os curiangos, vi a Lua terminar sua volta e sumir com a manhã. Ouvi o acordar dos pássaros, depois o clarear lento que apaga as estrelas. Por fim veio o sol, e quando eu já ia pegando no sono de novo meu amigo se lembrou de mim. Desamarrou-me e descemos, eu estava feliz da vida.

Mas cheguei lá embaixo, olhei pra cima, e soltei um suspiro de saudade.

1 Comments:

At 4:07 PM , Blogger Chico Prosdócimi said...

Hahahahahahahaha! Muito doido!

 

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