Friday, November 17, 2006

Educação de menos, por favor...

Tenho a impressão de que o mundo moderno tem uma grande dificuldade em lidar com os instintos humanos.

Acredito que nosso sistema educacional, em sua grande maioria, seja um completo equívoco. Em primeiro lugar, por considerar que o único conhecimento relevante vem da cultura, devendo ser copiado da memória do professor para as dos alunos. Segundo, por presumir que todas as pessoas de uma nação devam receber os mesmos conhecimentos, o que fere não só a (falta de) disposição de cada um para absorver tanta cultura, mas principalmente a diversidade de aptidões individuais. Terceiro, por defender que um indivíduo só tem cidadania quando acumula uma cultura específica, de conhecimentos adquiridos de uma fonte central.

Nega-se por completo o papel da sabedoria inata, do comportamento instintivo, que muitas vezes se sai melhor para resolver problemas inusitados que uma sabedoria confundida por pensamentos antagônicos, por um excesso de conhecimento livresco que ultrapassa a capacidade de processamento da maioria dos indivíduos.

Os inúmeros exemplos de profissionais graduados, formados em boas faculdades, e que não conseguem emprego, ilustram parte da história. Quantas pessoas gastaram mais de quinze (15!) anos estudando para conseguir sobreviver apenas com conhecimentos elementares de aritmética, mais aquele traquejo que só se aprende na prática - por exemplo, no caso de um bacharel que se torna lojista para sobreviver. Toda a decoreba de história, geografia, ciências, português, etc. não contribuíram em nada para que essa pessoa alimente seus filhos.

Argumentarão que conhecimento geral sempre é útil, mas não parece ser o que acontece na prática, a não ser quando um ex-bom-aluno tenta a sorte em algum desses programas de perguntas estapafúrdias da televisão. A maioria dos adultos que conheço, que gastaram seus melhores anos presos na escola, acreditam em fenômenos sem nenhuma comprovação, como o espiritismo e a homeopatia, ao mesmo tempo em que NÃO acreditam em fenômenos há muito demonstrados, como a evolução biológica e a origem dos corpos celestes.

Tanta (des)educação é o melhor que podemos fazer com nosso sistema educacional?

Lembro-me de Roger Waters: Hey, teacher, leave those kids alone!

Nosso sistema educacional tem o horrível mérito de vangloriar o único aluno da turma que se sai bem no sistema. Provavelmente este sistema deveria existir apenas para ele. Os demais transformam a experiência escolar num trauma que quase nunca é revertido: perdem a coragem de fazer perguntas originais - já que costumam ser melhor recompensados ao fazerem indagações retóricas, o que indica que "estudaram" a matéria; adquirem o hábito de apenas buscar o conhecimento em troca de uma compensação bem definida; associam a aquisição de conhecimento com a privação de outros prazeres, o confinamento em uma sala fechada, a dissimulação dos hormônios, principalmente na adolescência.

O que restou desse sistema falido é uma população que não gosta de ler, salvo uma e outra revista semanal - de qualidade mais que discutível - e livros da moda - igualmente rasos.

A curiosidade, a vontade de adquirir conhecimento, é um dos traços mais característicos do instinto humano. Até, é claro, que a educação substitua este instinto por uma cultura de competição e conhecimentos pré-formatados e inúteis. Deixada por si só, a sociedade forma sozinha boa parte de seus profissionais, seja pelo conhecimento passado de pai/mãe para filho/a, seja no caso de adultos que decidem aprender profissões que nunca haviam pensado em seguir.

Afirmar com satisfação que a evasão escolar caiu bruscamente talvez seja visto como uma monstruosidade pelas próximas gerações. Hoje, porém, em nossa sociedade voltada para a economia de consumo, ser analfabeto é motivo de vergonha, mesmo quando os ditos letrados não têm sequer um olhar crítico, individual, sobre as manchetes que lêem na mídia.

Quanto mais nos esforçamos por este modelo de educação, mais nos afastamos da sabedoria inata que a natureza levou milhões de anos para desenvolver em nós. E que ninguém se engane: a natureza continua sendo a mais sábia.

2 Comments:

At 7:42 PM , Blogger Chico Prosdócimi said...

Finalmente entendi esse texto, que depois de nossa conversa me pareceu claríssimo.

O problema também, é bom lembrar, é que a maioria dos professores são exatamente formados por esse mesmo sistema escroto e não são capazes nem de questioná-lo e continuam passando aos alunos as mesmas agruras que sofreu. O sistema é retroalimentado por maus professores.

E infelizmente acho que esse é um processo lento... defasado uma geração, pelo menos. Só formando alunos críticos que iremos produzir professores críticos... ou seja... é lindo o que vc fala, mas é meio utopia... infelizmente.

 
At 11:47 PM , Blogger Rodrigo said...

O pior nem é isso; os professores licenciados aprendem tudo sobre construtivismo, Piaget, métodos alternativos de como formar o espírito crítico dos alunos, como funciona a aquisição do conhecimento, etc. Mas na hora da prática esquecem tudo.

 

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