Friday, November 03, 2006

Lógica e utopia

Toda a lógica irradiada no mundo e palpável na matéria das coisas não chega a aquecer, não chega a nos permitir enunciar o problema central da existência, a questão que passamos a vida tentando formular, a equação que, se escrita, desanuviaria por completo todo o caos da realidade, deixando um nada absurdo, maligno, uma natureza anti-natural, por sua própria definição contrária à Vida - essa busca inquietante, trágica, cômica, teatral, sempre pergunta, nunca, jamais, em hipótese alguma, resposta.

A lógica só pode ser encarada, assim, como parte da vida, não o contrário, por mais que a ciência e seus sacerdotes busquem na matemática a tessitura do universo, por mais que se pense em causas e efeitos como produtos da lógica: ainda assim, quantos microefeitos não se ocultarão infinitamente em microcausas mínimas, fractais, eternamente alheias a nós, imunes à investigação, à lógica. Se cada nível segue uma lógica própria, derivada do nível imediatamente inferior, que lógicas estranhas e alienígenas não se ocultarão nos confins do zero, da distância nula, da sub-partícula primeira, se é que a divisibilidade tem um fim.

A lógica nem é, tampouco, uma invenção, uma "ferramenta" humana, uma vez que podemos vê-la atuando na comunicação de outras espécies, em seu comportamento, em sua percepção do meio, sua cognição. Se a lógica percebida está, nesse caso, no sujeito ou no objeto (ou em ambos), é uma grande questão. Seria melhor definir lógica primeiro.

Lógica = Razão?
Lógica é uma regra que não permite exceção.
Lógica é a propriedade do universo de ser redutível a leis.

Mas cada nível da realidade, com suas próprias leis, tem também sua própria lógica, pois a própria lógica é uma derivação dessas leis. Se os níveis são infinitos, a própria lógica é infinita.

Há ainda uma outra lógica, menos restrita, que é aquela pela qual apreendemos o mundo, damos-lhe pesos e valores, atribuímos efeitos a causas, selecionamos prioridades de ação e julgamento, compreendemos ou julgamos compreender os outros. Aqui, novamente, cada cabeça é um microcosmo, um universo com suas próprias leis, cada um apresenta uma "lógica" peculiar, algumas mesmo mais lógicas, coerentes, que outras. Alguns pontos comuns acabam sendo costurados pela sociedade, de forma a otrnar as pessoas ao menos inteligíveis umas às outras, de modo que se tolerem mutuamente.

O filósofo busca fissuras nessa lógica socialmente aceita. Ele sabe que há outras possibilidades, outras formas de se relacionar os fatos e extrair deles uma lógica mais sensata, mais enxuta, mais parcimoniosa, talvez, com certeza mais justa aos seus olhos, mais verdadeira. Sabe que a lógica consensual não passa de um sistema forjado pelos que estão no poder para se manterem assim. O filósofo não quer, necessariamente, o poder. Sua musa é a verdade; só ela importa, acima de tudo. Interessa-lhe mais que os demais alcancem sua verdade assim descoberta, não para lisonjeá-lo, mas para que se libertem, para que se embriaguem na luz dessa beleza que ele procurou e descobriu, para que se compreendam mais e melhor, para que diminuam seus vícios e aumentem suas alegrias, suas aspirações, suas responsabilidades.

O sonho do filósofo é que as pessoas finalmente se aceitem, se tolerem, se permitam, ainda que não se compreendam. Que sejam diferentes, e que vejam na diferença o sentido da vida, na multiplicidade de lógicas a mãe de todas elas; finalmente, algo que merece ser louvado e cultivado, acima - logicamente - de todas as crenças, religiões, ideologias, nacionalidades e etnias. Apenas quando este ponto for alcançado começaremos a discutir a verdadeira filosofia - aquela que transcende as diferenças e retorna à essência do Homo sapiens, respeitando seus instintos e seu meio, suas capacidades e deficiências, e estabelecendo pela primeira vez e definitivamente suas verdadeiras necessidades.

Essa é minha utopia.

6 Comments:

At 12:17 PM , Anonymous Daniel Dias said...

Minha também.

 
At 11:24 PM , Blogger Rafa Pros said...

Ando discutindo com o chico a possibilidade de pensar numa forma cientifica de se apreender o movimento da sociedade (tipo fundaçao do asimov) e esse texto seu é muito bom para pensar isso...
"Há ainda uma outra lógica, menos restrita, que é aquela pela qual apreendemos o mundo, damos-lhe pesos e valores, atribuímos efeitos a causas, selecionamos prioridades de ação e julgamento, compreendemos ou julgamos compreender os outros. Aqui, novamente, cada cabeça é um microcosmo, um universo com suas próprias leis, cada um apresenta uma "lógica" peculiar"?? SERÁ QUE É TÃO PECULIAR ASSIM...??

 
At 12:36 PM , Blogger Rodrigo said...

Rapaz, tenho pensado nisso nas discussões de boteco, e acho muito difícil pras pessoas entenderem os pontos de vista que os outros têm sobre o mundo. Isso porque todo mundo constrói seu "castelo de cartas" lógico desde a infância, e só os mais científicos e filosóficos tentam simplificar os axiomas, o resto tem um castelo com milhares de cartas diferentes, cada um segundo sua vivência. Por isso as pessoas brigam quando tentam discutir política ou religião, acho.
No mais, fundação! fundação! fundação!
[]s

 
At 10:34 PM , Blogger Chico Prosdócimi said...

Essa do castelo cartas aí é viagem tbm... é incrível, inclusive, que a gente consiga realmente se entender.

Mas se pensarmos que a gente consegue se entender, logo as pessoas tbm conseguem se entender entre si. Consigo explicar uma idéia qualquer para um inglês e fazê-lo concordar, por mais que nossos castelos de cartas sejam completamente diferentes.

Acreditamos na lógica e na razão (queria uma resposta para o lógica=razão?) e sabemos que através de argumentos lógicos conseguimos convencer alguém de alguma coisa. Onde fica então o castelo de cartas?

Voto no fato de que o castelo de cartas é constituído pelas "premissas" que cada um tem para si, o castelo de cartas premissológico que, quando bem entendido, pode fornecer, portanto, uma idéia razoavelmente precisa de "como pensará essa pessoa sobre este assunto". Chamei a psicohistória de premissologia... acho mais adequado e viável, embora sejam teorias parecidas.

 
At 5:00 PM , Blogger Rodrigo said...

Conseguimos convencer o outro quando o assunto é trivial, mas quando vai a fundo a coisa é diferente. Quando nossas cartas, nossas premissas, precisam derrubar boa parte do castelo do outro, o outro simplesmente desiste da discussão. Porque não quer repensar tudo o que acredita.

Quanto mais profundo é o tópico, por exemplo, religião, política, moral, mais cartas estão em jogo, e mais peculiar é a lógica de cada um.

 
At 10:41 PM , Blogger Rafa Pros said...

Acho que a questão aí é pensar quais são as orientações reais das pessoas no mundo? Tipo o que faz vc sair de casa e ir pra rua? Um exemplo no qual fica evidente a não compreensão das pessoas é só pensar nas questões afetivo-sexuais...Cada um ali pode pensar uma coisa "Nossa que trepada foda, mas esse cara podia ir embora".."putz, bem meia boca hein...e que bafo.."...a questão que tento exemplificar é que só poderiamos pensar em orientações gerais desconsiderando nuances...e é tipo o que fazem os caras que trabalham por exemplo na sociologia com teoria dos jogos...eles pensam, "bom considerando que todo mundo pensa assim, como as coisas podem acontecer..." mas no todo mundo pensa assim, creio, que já ficou meio mundo de fora..
ah sei lá.viagem!

 

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