Thursday, November 09, 2006

O homem, as palavras, os rótulos

Vivemos cercados de coisas e pessoas. Ao redor do mundo as coisas são bem mais diferentes do que as pessoas, e acabam moldando assim as pessoas, fazendo-nos achar que são as pessoas quem são diferentes. O simples fato de sermos todos Homo sapiens já nos torna iguais, ainda que sobre um único aspecto. Mas o tamanho deste aspecto, se comparado ao tamanho das coisas, já ilumina meu argumento.

Há diferentes personalidades, como há diferentes topologias e formas tridimensionais. Talvez infinitas, talvez todas únicas. No caso, o estudo da personalidade reconhece que é preciso bem mais que três dimensões para descrever a mente humana. Um tal Grigory Perelman, o russo que parece ter resolvido a famosa (entre os nerds) conjectura de Poincaré, chegou à base de oito formas básicas que seriam os "números primos" da topologia 3D, a partir dos quais qualquer forma tridimensional pode ser construída. Existirá algo análogo a isso no estudo da personalidade?

Arriscaria a busca a partir dos adjetivos pessoais, que falam algo da personalidade de alguém: preguiçoso, violento, ciumento, gentil, educado, mal-educado, etc. Cada um deles tem um oposto - agilizado, pacífico, libertino, grosso, etc. Talvez algumas palavras sejam tão pouco usadas que um antônimo exato tenha caído em desuso, mas acredito que todos os antônimos já existam.

Mas o que existe, de fato, não são as palavras, esses adjetivos, mas os eixos definidos pelos antônimos, e é evidente que cada pessoa está em um ponto ao longo de cada eixo, podendo mudar devido às circunstâncias - o que chamamos de mudanca de humor, ou de opinião - mas tendendo a permanecer em faixas restritas no interior de cada eixo, mesmo nas circunstâncias mais extremas - a isso chamamos personalidade.

É possível agrupar alguns eixos que costumam estar correlacionados? Quem é violento tende a ser ciumento? Quantos impulsivos para comida sáo impulsivos também para consumir álcool e outras drogas?

Os rótulos que a sociedade usa - mauricinho, nerd, galinha, viado,... - reúnem alguns eixos que identificam o sujeito de quem se fala, mas apenas para reforçar o significado daquela palavra. A palavra pode ser usada como explicação para um ato da pessoa, alguma atitude que não faria sentido a não ser que o contexto seja explicado - no caso, o rótulo.

Mas nem sempre se usa palavras para o bem. O mauricinho é aquele que se veste como quem tem algum dinheiro, mesmo sem tê-lo. Tem, assim, uma visáo de que o fator vestuário contribui com a sua auto-imagem, com a idéia que vende de si; portanto, o gasto com roupas náo é visto como gasto, mas como investimento. Claro que há pessoas que valorizam mais o conteúdo, e desprezam os mauricinhos. Como há pessoas que têm mais dinheiro que eles, desprezando-os por esse outro motivo. Há ainda quem ache bonitas suas roupas, extremamente bonitas, e se interessam também pelo conteúdo, casando-se com eles. Como podemos ver, a sociedade se resolve pela diversidade, mantendo-se em ordem apesar dos palavrões e estereótipos.

Já o viado é um tipo bastante característico por outras razões, mas tem uma diversidade escondida pelos próprios gays quando se fingem heterossexuais e se escondem nos guetos. Mais uma vez, homos e héteros, extremos de uma régua. O número de pessoas que "tateiam" pelo desconhecido é considerável, mas seu número é tabu. O que o gay/viado reúne de características que justifiquem o estereótipo, a palavra? Primeiro, são femininos, ou afeminados. Nem todos são, mas todos são "algo" diferentes, mais próximos em diversos aspectos das mulheres. Os menos afeminados acabam passando por heterossexuais. A explicação-tabu diz que os gays sao diferentes, enquanto a explicação-gay diz que os "homens" forçam uma postura de macho, evitando certos assuntos, posições, evitando divulgar em público uma ou outra preferência (coisas tão tolas como gostar de lingüiça ou pepino, por exemplo, dependendo do contexto). O "humor" de quem é simples (no mau sentido) adora ridicularizar minorias, o que talvez explique tamanha vigilância pelos homens, desde pequenos.

Alguns gays têm traços femininos, como fraqueza física ou romantismo exacerbado, enquanto outros exageram posturas para afirmar-se perante a sociedade (vestem roupas extravagantes, preocupam-se com a moda, gritam e desmunhecam, por exemplo). Claro, há gays fortes, putos, desleixados e grosseiros, mas parecem mesmo ser minoria. Claro 2, gays fazem sexo não só com outros gays como com "homens", ditos heterossexuais; alguém que recrimina os gays por "disseminarem" um comportamento libertino e "anti-natural", deveria se perguntar se não são os homens, sejam homo ou hétero, que gostam demais de sexo, demais mesmo, com direito a variações de um mesmo tema, e até de outros temas. Ou se não são eles próprios que, talvez, gostem de menos. Ou quem sabe também gostem muito, mas se vigiaram demais desde crianças, e agora já não saberiam por onde começar a experimentar outras coisas. Ou, claro, nunca tenham pensado em variar tanto - mas quem conheceu o norte do Brasil e seus jovens permissivos sabe que essa nem sempre é toda a verdade.

Grosso modo, curiosidade é uma medida de inteligência - é o que se aprende ao observar os animais. Não há porque ser diferente em relação à nossa espécie, como um todo: os animais mais inteligentes são também os mais curiosos (NÃO estou dizendo que pessoas inteligentes são bissexuais!).

Já o que acontece com o galinha e a galinha - não os bípedes penados, mas os bípedes implumes de Platão - é interessante: o homem recebe um prêmio quando pega muitas mulheres, mas a mulher recebe o risco de ficar solteira, e ainda ser chamada de puta, vagabunda e outros baixos calões, digo, rótulos.

O nerd, coitado, é sempre incompreendido. Geralmente não vai bem nos esportes, usa óculos, interessa-se por infames "coisas de nerd", não é compreendido pelos do fundão, que apesar de algumas vezes ignorantes, preconceituosos, preguiçosos, acomodados e outros baixezas, quero dizer, ah, enfim... quase sempre passam por caras maneiros. Ora, a maneirice do nerd não é compreendida porque seria preciso, no mínimo, ser inteligente para entender seus gostos e suas piadas. Mas, pensando bem, há dois tipos de nerd: aquele que estuda e estuda e estuda só para passar com mais de 90% da nota, e o que já vem sabendo algo, que consegue com um pouco de atenção aprender, e o resto da atenção fazer o mesmo que a galera do fundão. Este costuma se sentar em vários lugares da sala, tem vários amigos, ao contrário dos primeiros nerds que só ficam na frente, sempre com a mesma panela. O segundo nerd passa de ano quase sempre, embora com notas apenas suficientes nas matérias que não lhe interessam.

Isso me remete a uma questão educacional, talvez a escola meio-plural. (Tem algum termo entre o singular e o plural?) O aluno deveria passar em apenas algumas matérias do seu interesse, talvez metade delas, ficando livre para sequer assistir as aulas do que não lhe apraz. É melhor do que ficar atrapalhando os outros, é melhor do que ficar esperando a aula acabar, é melhor para ter mais paciência com o que pode ser mais útil, é melhor para se dedicar a outras atividades - leitura livre, pintura, música, esportes, comunicação, atividades sociais, política; enfim, tudo o que deveria fazer parte da educação, mas não faz.

Mas voltando à vaca fria...

Muitas pessoas pensam que a criação de rótulos permite que elas se comuniquem. Na verdade, há vários tipos de comunicação. Há, por exemplo, comunicação que visa apenas manter um vínculo social, sem que qualquer das partes tenha interesse em transmitir informação útil à outra - é o que se chama de conversa fútil. Claro que o jovem curioso que experimentou de tudo e acabou virando mauricinho ou viado pode ser descrito com algumas palavras, entre elas o rótulo.

Uma vez posicionada a figura de quem se fala dentro da constelação de rótulos=adjetivos, pode-se rapidamente assumir um humor, uma postura, um índice de empatia ou reprovação que identifica o ouvinte com o falante, aproximando-os dentro do grupo social que pretendem compartilhar, ou separando-os em relacáo a um e outro grupo. Esta química social é o que interessa às pessoas em suas "conversas fúteis". Querem falar dos outros para terem uma opiniáo sobre si próprias, e para entrar e sair deste ou daquele grupo. Afinal, não se faz nada sozinho, e a equipe que nos quer bem é aquela cujos valores imitamos.

Conclusão:

No fundo, as pessoas são mais defensivas do que ofensivas. Basta um ofensivo para tornar um bando defensivo. Isso talvez seja a causa da criação não apenas dos rótulos pejorativos, como também dos clubes, partidos, torcidas; rótulos a que as pessoas voluntariamente se vinculam, passando a repudiar automaticamente o rótulo (time de futebol, religião, partido político, etc) adversário. O "minuto do ódio" orwelliano. Instinto. O ódio parece estar mais associado à defesa que ao ataque. Quem ataca age num alvo localizado, bem-definido, tanto no tempo como no espaco. Quem se defende não, sua única chance é manter um estado contínuo de defesa. Não sabe quando ou de onde virá o ataque, precisa estar sempre alerta, precisa se mostrar forte, precisa andar em grupo. O ódio é um instrumento de defesa, é o latido do cão. Quem ataca já tem o prazer da ação - cachorro que morde não late - desprezando o ódio comunal como repulsivo, medroso, decadente, desesperado; numa palavra, desprezível.

.

2 Comments:

At 10:21 PM , Blogger Chico Prosdócimi said...

Viagem, vc usa rótulo como estereotipia e acho quase impossível as pessoas não se estereotiparem umas às outras pela aparência ou comportamento (dentre outros atributos menos importantes).

De fato, parece haver uma regra mais ou menos do tipo: "se veste isso, vota no PSDB" ou coisa qualquer do gênero, onde se possa acertar em 85% dos casos. Os outros 15% representam erro e problemas nos estereótipos em qualquer caso: gay, nerd, pobre, rico, etc.

Nós somos bichos que buscamos ordem nas coisas, estamos vivos porque buscamos ordem e porque o universo tem mesmo uma ordem a ser apreendida. A estereotipia ou rotularização vem de nossa vontade de entender um mundo lógico, é um instinto... e, por mais escroto que seja isso, acho muito difícil de mudar... vem de nosso instinto racional. O que vc acha?

 
At 4:44 PM , Blogger Rodrigo said...

Não sei se vem tanto do instinto, talvez venha. Ou talvez da televisão, que ensina que quem é mau é mau, quem é bom é bom, quem bebe muito bate na mulher e quem lê a Bíblia é justo.

Acho um exagero que se acerte em 85% dos casos. Precisamos de um estudo para ver o número aproximado, mas acho que não chega a 50%, talvez nem a 30%.

Fácil mudar não é, mas é como o texto acima, "Educação de menos" - alguma proposta tem que ter...

 

Post a Comment

Subscribe to Post Comments [Atom]

Links to this post:

Create a Link

<< Home