Saturday, April 28, 2007

II Consideração Intempestiva sobre a utilidade e os inconvenientes da História para a vida

"(...) e se é verdade, como alguém disse, que uma virtude hipertrofiada - tal como é, na minha opinião, o sentido histórico (historische Sinn) da nossa época - pode, assim como um vício hipertrofiado, provocar a ruína de um povo, então, que me permitam falar sobre isso. (...)

"1. (...) O animal, de fato, vive de maneira a-histórica (unhistorich): ele está inteiramente absorvido pelo presente, tal como um número que se divide sem deixar resto; ele não sabe dissimular, não oculta nada e se mostra a cada segundo tal como é, por isso é necessariamente sincero. O homem, ao contrário, se defende contra a carga sempre mais esmagadora do passado, que o lança por terra ou o faz se curvar, que entrava a sua marcha como um tenebroso e invisível fardo.

"(...) A mais ínfima felicidade, quando está sempre presente e nos torna felizes, é incomparavelmente superior à maior de todas que só se produz de maneira episódica, como uma espécie de capricho, como uma inspiração insensata, em meio a uma vida que é dor, avidez e privação. Mas, tanto na menor como na maior felicidade, há sempre algo que faz com que a felicidade seja uma felicidade: a faculdade de esquecer, ou melhor, em palavras mais eruditas, a faculdade de sentir as coisas, durante todo o tempo em que dura a felicidade, fora de qualquer perspectiva histórica.

reproduzo aqui, na íntegra, a sétima parte:

"7.

O sentido histórico, quando reina sem freios e leva até o fim todas as suas conseqüências, desenraíza o futuro, pois destrói as ilusões e priva as coisas existentes da única atmosfera na qual elas poderiam viver. A justiça histórica, mesmo a verdadeira e praticada com boa intenção, é uma virtude terrível, porque ela sempre solapa e destrói os seres vivos: o seu julgamento é sempre aniquilador. Quanto a atividade do instinto histórico não prepara a atividade de um instinto construtivo, quando não se destrói e não se aplaina o terreno para soerguer no espaço assim liberado um futuro já vivo de esperança, quando somente a justiça reina absoluta, então, o instinto criador se vê enfraquecido e desencorajado. Uma religião, por exemplo, que se quisesse transformar num saber histórico regulado pela pura justiça, uma religião que se quisesse submeter inteiramente ao conhecimento científico, se encontraria, ao termo de uma tal operação, reduzida a nada. A razão disso é que a pesquisa histórica traz à luz tanto erro, grosseria, desumanidade, absurdo, violência, que acaba matando inevitavelmente a indispensável pia ilusão, onde unicamente pode viver tudo aquilo que quer viver; porém, o homem cria somente quando ama, quando se banha na ilusão do amor, quer dizer, quando acredita incondicionalmente em algo que seja justo e perfeito. Quando se obriga alguém a não mais amar de maneira incondicional, se cortam as raízes da sua força: por conseguinte, este ficará absolutamente ressecado, quer dizer, tornar-se-á indigno. Por causa desses efeitos, os estudos históricos se opõem à arte: somente quando admite ser transformada em obra de arte, ou seja, numa pura criação da arte, é que a história pode eventualmente preservar ou mesmo despertar os instintos. Uma tal historiografia se chocaria, no entanto, contra o caráter analítico e prosaico da nossa época, que só veria naquela falsificação. Mas uma história puramente destrutiva, uma história que não seja habitada e guiada por algum instinto de construção, com o tempo, torna os seus servidores seres corrompidos e artificiais: estes homens, de fato, destróem as ilusões, e "aquele que destrói a ilusão em si e nos outros, a natureza o castiga com o mais tirânico rigor". É verdade que se pode, durante um certo tempo, lidar com a história de uma maneira totalmente ingênua e superficial, como se tratasse somente de uma ocupação entre outras. A nova teologia, em particular, parece ter se envolvido com a história por pura inocência e somente agora se dá conta, certamente contra a sua vontade, de que, assim fazendo, ela se pôs a serviço da divisa voltairiana do "écrasez l'infâme" ["esmagai a (Antigüidade) infame", Voltaire defendendo o que é moderno]. Que ninguém ouse aventar que possa haver aí novos e voigorosos instintos de construção, a menos que se queira considerar a suposta "Liga protestante" como sendo a matriz de uma nova religião, ou tomar o jurista Holtzendorf (editor e prefaciador da suposta Bíblia dos protestantes) como um São João nas margens do Jordão. Talvez a filosofia hegeliana, que ainda embriaga alguns velhos cérebros, facilite momentaneamente a propagação de uma tal ingenuidade, na medida em que ela distingue a "idéia do cristianismo" das suas numerosas e imperfeitas "formas fenomenais" e na medida em que ela quer convencer de que "o diletantismo da Idéia" adora manifestar-se sob formas cada vez mais puras, para encontrar finalmente no cérebro do atual theologus liberalis vulgaris [teólogo do liberalismo vulgar] a sua forma mais pura, uma forma seguramente tão transparente que se torna quase invisível. Mas quando ouve estes cristianismos totalmente imaculados se pronunciarem a respeito dos cristianismos impuros do passado, o espectador imparcial tem freqüentemente a impressão de que não se trata absolutamente do cristianismo, mas... de que se trata então? Quando vemos o "maior teólogo do século" descrever o cristianismo como a religião que permite "compreender intuitivamente todas as religiões existentes e algumas outras que são apenas possíveis" e quando se diz que a "verdadeira Igreja" deve ser "uma massa fluida, sem contornos definidos, onde cada parte se encontra ora aqui ora lá e onde tudo se junta pacificamente" - mais uma vez, em que poderíamos pensar?

O cristianismo nos mostra como, sob o efeito do ponto de vista histórico, ele próprio se tornou corrompido e artificial, até que finalmente um tratamento inteiramente histórico, quer dizer, justo, o dissolveu numa pura ciência do cristianismo, com o que ele ficou destruído como religião. O mesmo fenômeno pode ser estudado em todos os seres vivos. Eles deixam de viver quando são dissecados até nas suas mais recônditas entranhas e levam uma existência somente dolorosa e doentia, logo que se começa a submetê-los à dissecação histórica. Algumas pessoas, que acreditam na virtude curativa, no poder reformador e transformador da música alemã entre os alemães, constatam com ódio que homens como Mozart e Beethoven acham-se já sepultados sob a douta obscuridade das biografias e obrigados a responder, submetidos ao aparelho de tortura da crítica histórica, a milhares de questões indiscretas. Eles vêem aí uma injustiça contra o que é mais vital da nossa cultura. Não seria destruir, ou pelo menos esgotar prematuramente, uma fonte ainda rica de vida, dirigir a curiosidade para uma multidão de detalhes microscópicos das obras ou das vidas dos seus autores e procurar os problemas do conhecimento lá onde se deveria aprender a viver e a esquecer todos os problemas? Então, transportai pela imaginação alguns destes biógrafos modernos às origens do cristianismo ou da Reforma luterana: a sua curiosidade sóbria e pragmática só trouxe como resultado tornar impossível qualquer actio in distans [ação à distância] espiritual. Assim observamos que o menor animal pode impedir o nascimento do carvalho mais poderoso, devorando as suas glandes. Todo ser vivo tem necessidade de estar envolto numa atmosfera, num véu de mistério; caso se queira privá-lo deste envolvimento, caso se queira condenar uma religião, uma arte ou um gênio a gravitar como os astros privados de atmosfera, então, não se deve ficar admirado ao vê-los logo mirrar, ressecar e se esterilizar. Como disse Hans Sachs em Os Mestres Cantores, assim ocorre também com todas as coisas grandiosas, "que jamais medram sem alguma ilusão".

Para alcançar a maturidade, um povo, ou mesmo um homem, tem necessidade deste véu de ilusão, deste invólucro protetor, mas hoje se detesta o amadurecimento sob todas as suas formas, pois se respeita mais a história do que a vida. Proclama-se inclusive vaidosamente que "a ciência começa a dominar a vida"; pode acontecer talvez que ela um dia consiga isso, mas o que é certo é que uma vida assim dominada não valeria grande coisa, porque seria muito menos vida e porque garantiria menos vida para o futuro do que a vida tal como era antigamente dominada, não pelo saber, mas pelos instintos e por poderosas ilusões. É verdade, como já o disse, que esta época não quer absolutamente ser aquela das personalidades maduras e realizadas, das personalidades harmoniosas, mas quer ser a época do trabalho coletivo e da produtividade a todo custo. E isto significa somente o seguinte: os homens devem ser treinadso de acordo com as necessidades da sua época, a fim de poder o mais cedo possível ir para o trabalho; eles devem trabalhar numa fábrica de utilidade pública antes mesmo de terem alcançado a maturidade, ou melhor, para jamais chegarem à maturidade - pois isto seria um luxo que privaria o "mercado de trabalho" de uma grande quantidade de forças. Há pássaros que são cegados para assim cantar melhor. Não acredito que os homens de hoje cantem melhor do que os seus ancestrais, mas sei bastante bem que ficaram cegos muito cedo. Porém, o meio, o meio infame que se emprega para isto consiste em submetê-los a uma luz demasiado crua, demasiado brutal, demasiado oscilante. Os jovens são levados debaixo de chicote através dos milênios: adolescentes que ignoram tudo o que seja uma guerra, uma manobra diplomática, uma política comercial são tidos como aptos para serem iniciados na história política. E, da mesma maneira como os jovens passam pela história, assim também nós, os modernos, passamos pelas salas dos museus e dos concertos. Percebe-se bem que uma coisa não tem o mesmo som da outra, que uma coisa não produz a mesma imperssão da outra: mas o sentido histórico e a cultura histórica consistem precisamente em perder pouco a pouco este sentimento de estranheza, em não mais admirar-se com absolutamente nada, em tudo aceitar. Para falar sem eufemismos: a jovem alma está submetida a um tal desatrelamento de fatos estranhos, bárbaros, brutais, "fundidos em blocos hediondos", que não lhe resta senão refugiar-se numa apatia deliberada. Ao lado de uma consciência refinada e vigorosa, este procedimento produz um outro sentimento, um sentimento de desprezo. Os jovens se viram assim tão desenraizados, que acabaram por duvidar de todos os costumes e de todas as idéias. Eles sabem agora: pouco importa o que tu és, já que nunca duas épocas viram as coisas da mesma maneira. Numa melancólica indiferença, eles vêem passar diante dos seus olhos um cortejo de opiniões e compreendem então a obra e o sentimento de Hölderlin, ao ler a obra de Diógenes Laércio sobre as vidas e as doutrinas dos filósofos gregos:

"Muitas vezes experimentei algo que me impressionou, ou seja, que os aspectos efêmeros e flutuantes dos pensamentos e dos sistemas humanos me ferem de maneira quase mais trágica do que os destinos aos quais se atribui habitualmente toda a realidade."

Não, a juventude não tem certamente necessidade, como demonstra o exemplo dos antigos, de que tudo seja remetido à história de maneira tão brutal e tão cega; isto é inclusive, como o demonstra o exemplo dos modernos, extremamente perigoso para ela. Mas examinemos agora especificamente o estudante de história, herdeiro de uma apatia prematura, surgida provavelmente já na adolescência. Desde cedo, ele deve já assimilar o "método" que usará no seu trabalho, os truques e o tom superior do seu mestre; ele recortou cuidadosamente do passado um pequeno capítulo, sobre o qual empregará a sua sagacidade e o método apreendido. Ele já produziu, ou para usar uma palavra mais ambiciosa, ele "criou"; a partir de então, com o seu trabalho, ele se transformou num servidor da verdade e passou para o campo da história universal. Se, quando era ainda adolescente, ele já se sentia "realizado", eis que agora ele se sente mais do que realizado: basta apenas sacudi-lo para fazer cair estrepitosamente os frutos da sua sabedoria; mas esta sabedoria está podre e cada maçã tem já o seu verme. Creia-me: se os homens fossem obrigados a trabalhar e a produzir na fábrica da ciência antes de alcançarem a maturidade, a própria ciência estará logo arruinada, assim como os escravos prematuramente utilizados nesta fábrica. Lamento que seja preciso recorrer ao jargão dos senhores de escravos e dos patrões para tratar de assuntos dos quais a utilidade e a necessidade material deveriam estar ausentes, mas as palavras "fabrica, mercado de trabalho, oferta, produtividade" - junto com toda a terminologia usual do egoísmo - vêm inevitavelmente aos lábios, quando se quer descrever a nova geração de eruditos. A mediocridade constitutiva se torna cada vez mais medíocre, a ciência se torna cada vez mais lucrativa do ponto de vista econômico. Na verdade, os eruditos mais recentes não dão prova de sabedoria senão num único ponto, mas neste ponto, eles são mais sábios do que todos os homens do passado, enquanto que em todos os outros pontos, por outro lado, eles são somente - para falar com prudência - infinitamente diferentes de todos os sábios da velha cepa. No entanto, eles reclamam honrarias e privilégios, como se o Estado e a opinião pública fossem obrigados a avaliar com os mesmos pesos as novas moedas e as antigas. Os carroceiros fizeram entre si um contrato de trabalho e decretaram que o gênio era supérfluo - e marcaram cada carroceiro com o selo do gênio: sem dúvida, uma época posterior verá nas suas construções que elas foram obra de carroceiros, e não de arquitetos. Àqueles que têm constantemente na boca o grito de guerra e a invocação sacrificial dos modernos: "Divisão do trabalho! Entrem no jogo!", a estes é preciso dizer alto e clarametne: se quiserdes estimular a ciência a todo custo, estareis também prestes a arruiná-la, assim como levaríeis à morte uma galinha forçando-a com meios artificiais a chocar com uma rapidez excessiva. É verdade que a ciência progrediu, durante as últimas décadas, numa velocidade extraordinária, mas olhai também os eruditos, estas galinhas exaustas. Não são verdadeiramente naturezas "harmoniosas". Elas cacarejam mais do que nunca, pois chocam com mais freqüência: os seus ovos, em compensação, são cada vez menores - embora os seus livros sejam cada vez mais volumosos. O resultado último e natural deste processo de aceleração é a "vulgarização" tão apreciada pela ciência (assim como a sua "feminização" e "infantilização"), quer dizer, o infame ajustamento da roupa da ciência às medidas do "grande público" - para aplicar a uma atividade de alfaiate uma linguagem de alfaiate. Goethe via nisso um abuso e exigia que as ciências não agissem sobre o mundo exterior senão pela via de uma prática superior. As antigas gerações de sábios julgavam, aliás com boas razões, que um tal abuso era grave e molesto. Por todas estas boas razões também, este abuso parece não pesar nos jovens eruditos, que, para além de um pequeníssimo domínio do saber, fazem eles mesmos parte do "grande público" e compartilham das suas necessidades. De fato, basta a eles apenas se instalar bem confortavelmente nas suas poltronas para, em seguida, abrir a sua pequena especialidade à curiosidade faminta do grande público. Este gesto cômodo seria depois qualificado de "modesta condescendência do erudito para com o seu povo", embora, na verdade, o erudito, na medida em que é "plebe" e não sábio, somente tenha condescendido para consigo mesmo. Criai para vós o ideal de um "povo": não poderíeis jamais concebê-lo tão nobre e tão elevado. Se fizerdes uma elevada idéia do povo, seríeis misericordioso em relação a ele e evitaríeis lhe oferecer o vosso ácido histórico como sendo um elixir de força e de vida. Mas, no fundo de vós próprios, tendes por ele uma baixa estima, pois não podeis ter pelo seu futuro um verdadeiro respeito, fundado em sólidas razões. Agis pois como pessimistas de fato, quer dizer, como homens que, pressentindo uma catástrofe, se tornam apáticos e negligentes em relação à felicidade dos outros, inclusive a de si mesmos. Na suposição de que a terra continue a nos suportar! E quando ela não nos suportar mais - isto não será pior. Estes são os sentimentos que eles nutrem - eles levam assim uma existência irônica."

em: Friedrich Nietzsche. Escritos Sobre História. Ed. PUC-Rio, Edições Loyola. Tradução de Noéli Correia de Melo Sobrinho.

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