Monday, April 09, 2007

Um apócrifo

Ofensas 1:1 O que é mais belo que a vontade realizada sem ofensa a ninguém? Mas quantas vezes é a vontade suprimida, pelo medo de se perder algo maior? Qual é, então, a melhor de todas as sociedades? Aquela com menor número de ofensas.

Um duelo de espadas. No final o contendor desiste e devolve a espada à bainha.

Ofensas 1:2 O que não me ofende, pode não ofender a meu próximo, mas ofender ao mais distante! Ora, que distante mala!

Um bar podrão. O dono, gordo e velho, fala escancaradamente para a câmera, numa entrevista. A câmera segue do dono ao próximo, e deste ao mais distante. O mais distante, mostrado do ponto de vista do dono do bar, é um sujeito esquisito, que começa a reclamar de alguma coisa, e contorcer-se, e esbravejar sem autoridade, lastimando-se pateticamente como um marreco na neve. De longe, o senhor atira um tomate na cabeça do outro, que já erguia os braços e aumentava a voz.

Ofensas 1:3 O juízo de valor sempre será aplicado, mas raramente será admitido por completo, em público, sob a luz de uma lanterna, quem dirá do meio-dia equatorial.

Julgamento. Uma questão familiar. O juiz bate o martelo, em close, só se vê o martelo batendo, uma duas três vezes. Afasta-se do prédio para o alto, uma multidão em fadeout, juízos, um enforcamento? um enterro? um túnel! pessoas conversando, um homem negro sendo humilhado por seu superior, saindo ofendido - a luz em sépia. O superior, um branco, está cansado e abatido. Um carro sai do fórum, um Mercedes-Benz (close no símbolo como no martelo) - é o juiz, enquanto a família que era atendida no processo, negra, caminha alegremente pelo salão ensolarado rumo ao seu automóvel antigo.


Ofensas 2:1 Quero ofender a mim mesmo, tenho direito?

Ofensas 2:2 Para quê, em primeiro lugar, ofender-se? O que se busca nessa jornada?

Ofensas 2:3 Demonstrar a ofensa sentida, identificar sob olhares desinteressados que há uma ofensa no que foi feito. Agir como o outro, ofendendo-o, mas ofendendo-se no ato de baixar-se a tal ponto. O homem afastado, que não se ofende e nem aos outros, tem ainda assim seus próprios medos, mas não teme em público. Esconde-se e não cede. Este homem cresceu nos sertões das Amazonas, nas terras distantes de águas, palmeiras e fêmeas de peles nuas e perfumadas, e garanhões viçosos e jovens, e todo tipo de caboclo d'água, índio e sertanejo, garimpeiros e aviadores, proprietários e patrões. Nessas terras a ofensa era pouca, e dava-se cabo de uma vida. Hoje, ele tem os olhos serenos, este homem, e assiste a tudo impassivo, guardando para si e para os seus os seus elaborados rancores. Por que haveria de mostrar-se, quem já se acostumou a essa vida? Quantos têm o desejo de mudar? "Que percam para os mais fortes, para a resistência armada, tradicional e sagaz como os espíritos de nossos antepassados" - mas continuamos perdendo...

Ofensas 2:4 Ou não, quero apenas me ofender, como que desafiando qualquer autoridade escondida sob as sombras das lianas que escurecem meu sub-consciente.

Ofensas 2:5 Quero pôr em luta os meus mais remotos instintos, para torná-los sagazes e fortes. Quero ver o caos, de perto, para sentir de perto sua loucura e sua força.


Ofensas 3:1 Cansei de ofender a mim mesmo. Vou ofender agora apenas ao próximo.

Ofensas 3:2 Cansei de ofender aos outros, vou agora apenas ofender-me, às vezes.

Ofensas 3:3 Cansei disso tudo e foda-se.

Ofensas 3:4 Chegai, irmão, e descansai. Nesta casa há morada para todos, enquanto nos tolerarmos.


Ofensas 4:1 A sua água, próximo, me faz falta.

Ofensas 4:2 Há entre nós, caro irmão, um muro de diferenças devidas sobretudo àquilo que melhor lhe fizer dormir à noite.

Ofensas 4:3 Sim, mas temos sede. Nossas diferenças não permitem que você nos ajude? Chegou afinal o ponto em que os recursos não são mais suficientes? Eu satisfaço quem precisa. E muitíssimo me apraz que agora tenhamos que diminuir por completo os nossos caprichos, e lutar pra sobreviver. Defenda-se quem puder.


Ofensas 5:1 O tempo é uma caixinha de surpresas. Tic-tac-tic-tac-tic-tac... o tempo escorre como mel pela casca exposta da árvore, desperdiçado se não for encontrado pelo ser mais sortudo do universo, ou nem tanto. Enfim...

Ofensas 5:2 O tempo já não escorre mais, acumula-se.

Ofensas 5:3 E é cada vez mais poluído, este tempo. Mais capaz, mas mais mordaz. Mais agreste o nordeste; mais frio o sul que o bairro central de Seul.

Ofensas 5:4 Ofensas fizestes vós, filhos da Babilônia! Chegou a tua hora, e não será sem motivo. Abusaste de tua sapiência em detrimento uns dos outros, sem a menor bondade! Eu, que sou um Deus, puno-vos não por não ter bondade, mas por não tentarem se igualar a mim! Ao que é só bondade, e que brinca com a sociedade moldando-lhe como um jardim, uma poesia divina, uma brincadeira de criança - e tem-se em troca os olhares gratos das multidões. Mas é preciso subir muito alto, para isso, e o céu já sufoca de urubus, gaviões e harpias.

Ofensas 5:5 Queres dizer que não vais mais subir?

Ofensas 5:6 Quero dizer que sufocam a diversidade. Quero dizer que subir pode ser, por vezes, embrenhar-se ou mergulhar.


Ofensas 6:1 Falta alguém ainda para ofender, meu filho?

A velhinha na porta do orfanato católico, uma boa e velha freira magra e pequena, amada por toda a comunidade. À sua frente um jovem com seus 12 anos: asseado, calças retas e cinzas, camisa limpa e bem passada, os suspensórios fora-de-moda. O guri leva a mochila à mão, como quem se vai pensando na vida e feliz por partir.

Ofensas 6:2 Falta sim, senhora.

Ofensas 6:3 Falta ofender esse porra-

o guri cai sobre outro, atacando-o com murros e pontapés. A senhora, vestida de branco, sai dando de ombros, erguendo os braços e perguntando aos céus que elemento da raça faz os homens tão singulares desde a infância. Ao redor, enquanto a câmera se afasta para longe e para o alto, tudo são nuvens brancas: - de esquecimento? de distância? de paz? de solidão? de acomodação, talvez? de algo que se desfaz, que é irrecuperável e só em ti existe? Branco de paz e conformidade com o instinto, mesmo o mais agressivo instinto, e também com o mundo e com a natureza, a beleza e a sabedoria do universo. Branco como o céu dos católicos, brancos. Poderia bem ser o negro da certeza imperial, da sábia tradição de ferro impressa até os genes, da bravura, coragem e desapego à mesma vida que cultuamos, mas que hesitamos e não bebemos das últimas gotas de seu cálice. Finalmente, o negro escurece a sala.

FIM.



Ofensas 7:1 O que não rói a casca, rói o miolo. -

0 Comments:

Post a Comment

Subscribe to Post Comments [Atom]

Links to this post:

Create a Link

<< Home