Sunday, November 18, 2007

O medo dos memes

Todos louvemos a educação!
Todos louvemos a educação!
Todos louvemos a educação!
Tudo o que é repetido é absorvido.
Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade.
A educação é a padronização e a disseminação de uma forma de pensamento.
Como a TV, a educação não é comunicação.
A comunicação pressupõe dois interlocutores, um emissor e um receptor.
A TV e a educação têm poucos emissores, todos situados no interior da esfera a partir da qual o poder emana.
A TV e a educação têm milhares, milhões, bilhões de receptores.
Os receptores da TV e da educação não são todos pobres, nem são todos destituídos de idéias.
Mas todos aqueles que são pobres e todos aqueles destituídos de idéias são receptores da TV e da educação.

O sistema copia-se a si próprio.
A "invenção" da educação promoveu e desenvolveu nossa habilidade inata de copiar.
O humano inventou a cópia.
O macaco inventou a cópia.
O animal de pêlo inventou a cópia.
O réptil inventou a cópia.
O peixe inventou a cópia.
A anêmona inventou a cópia.
O protozoário inventou a cópia.
A bactéria inventou a cópia.
A vida inventou a cópia.
Os cristais minerais inventaram a cópia.
Os átomos de hidrogênio são todos iguais.

A educação, como atualmente existe, força os indivíduos a permanecerem rebanho.
Numa era de menos educação, as forças que controlavam a sociedade eram mais brandas.
Havia mais espaço para o inesperado, para o natural, para o não rotulado, não controlado, não catalogado, não medido, não estudado, não planejado.
As pessoas viviam pior que hoje, para os padrões ocidentais modernos do que venha a ser conforto, saúde, qualidade de vida.
Mas as pessoas não sabiam que poderiam viver como vivem hoje, ao contrário do que acontece com a esmagadora maioria dos cidadãos atuais, que sofrem por viver mal, e também sofrem por se verem diariamente comparados às vidas de quem vive melhor, muito melhor.

Como pensou e escreveu Guy Debord, autor de A Sociedade do Espetáculo (http://br.geocities.com/mcrost12/a_sociedade_do_espetaculo_1.htm), as pessoas vivem cada vez mais um mundo que não é o seu, o mundo do espetáculo, um mundo irreal. Cada vez mais, o mundo é menos vivido e mais representado. Cada vez vivemos menos nossas vidas, para viver mais vidas que não são nossas, a vida representada pelas ilusões transmitidas por uma cadeia de telecomunicações mais poderosa que os governos.
Mas é claro que esse 'nós' não se refere a nós, a elite intelectual, os professores pós-graduados de nosso país, embora se refira a milhares de nossos colegas.

As crianças que sobem nuas em árvores de ruas sem asfalto nos confins da Amazônia são um exemplo de quem não acha que está perdendo nada. Vivem sem instrução formal, ou levam isso muito pouco a sério - mas podemos dizer que vivem.
Podemos dizer o mesmo da criança urbana, do operário das fábricas, dos vigias, motoristas, porteiros, com seus postos de trabalho a horas do lar, ida e volta pelo trânsito congestionado, ruído, poluição visual e atmosférica? Quanto custa cada estrela que a fuligem e o brilho artificial das lâmpadas escondem?

Escola, metrópole, superpopulação, controle.
O sistema se copia e se perpetua pela adição sistemática de conhecimentos científicos sobre como controlar.
Estudamos para servir ao sistema, para ensinar aos poderosos (vendemos nosso conhecimento) como controlar melhor e melhor, mais e mais, e melhor.

Estudei, sim, mas fui sempre contra a escola.
Nunca achei que deveria aprender o que não me interessava.
Passei raspando em história e geografia e português, pela forma como eram transmitidas. (Decore os nomes e as capitais de todos os países do mundo - professora Janete. Quem foi João Nepomuceno da Eritrolândia e qual a sua relação com o tratado de Varsóvia? Você pode até saber isso, mas colocarei junto a ela outra questão bastante difícil, e se você souber apenas uma delas, perderá os pontos de ambas!)
Não é possível ouvir a risada da bruxa má?
A criatividade do fundão só é valorizada pelos poucos professores que pensam com a própria cabeça e que têm idéias, mas que, entretanto, não podem mudar o sistema.

A escola é uma fórmula para o vestibular, apenas.
E quantas crianças alcançam a faculdade?
A maioria perde o seu tempo na sala de aula, e não faz uso algum do que absorveu dolorosamente.
Médicos e advogados que se tornam camelôs? A maioria tem sorte pior - será camelô sem ter sido sequer formado em medicina e direito. Perderão a concorrência porque a escola os ensinou que pensar e aprender é doloroso e enfadonho.

A escola deveria ser um espaço de aprendizado técnico, de comunicação multidirecional, de aprendizado voluntário e ensino sem metas pré-estabelecidas.
Os sistemas alternativos de ensino, escola logosófica, piagetiana, etc. foram devidamente abafados, desestimulados ou perseguidos, e continuam desconhecidos da maioria.
As cidades deveriam ser espaços de pouco trabalho - afinal, para quê as máquinas foram e continuam sendo criadas, num ritmo exponencial? A jornada de trabalho tem diminuído ao longo da história, mas essa diminuição deveria refletir a curva exponencial da ascenção tecnológica. Estacionamos em quarenta horas semanais desde a época da TV em preto e branco.
Como disse Herbert Spencer, não é a vida para o estudo, nem é a vida para o trabalho, mas são o estudo e o trabalho para a vida.

A educação só será útil quando tiver como meta desmontar cuidadosa e eficientemente o sistema de reprodução das massas, da exclusão, alienação, e deterioração dos valores humanos primitivos, entre eles a criatividade, a ousadia de duvidar, de contestar, de criar e seguir os próprios valores. E, claro, a meta de interromper e reverter o estupro da mãe Terra.

O que não for isso não pode ser chamado educação.

3 Comments:

At 12:23 PM , Anonymous izambelli said...

Rodrigo,
Gostei muito desse texto que você fez. Sabe o quanto leio e discuto temas relacionados com a Educação. Penso que é isso mesmo que você escreveu.
A Educação só vai mudar quando todos nós tivermos a consciência de que a escola é um lugar onde o aluno aprende a ser e a valorizar os demais seres. Temos que entendermos também que o aluno, na sua relação com os colegas, professores e funcionários, não pode ser privado do ato de aprender com significado, tornando-se livre e autônomo. O conhecimento dos alunos dependerá do esforço coletivo em aceitar o novo e mesclá-lo às experiências, tendo a escola como espaço desse processo.

 
At 10:32 PM , Blogger Rodrigo said...

É, o difícil é encontrar professores motivados. Talvez vários até saibam disso, mas na hora de pôr em prática é diferente. É difícil. Mas no dia em que eu começar a dar aulas eu vou ter alguma proposta mais concreta pra falar a respeito. Por enquanto fico só na teoria...
[]s!

 
At 11:45 PM , Anonymous Bozz said...

Interessante a sua reflexão. Creio que jamais teremos uma educação de qualidade enquanto professores tenham que se sujeitar a migalhas que alguns chamam de salário. O modelo de nossa educação já é precário e com professores desmotivados então...

 

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