Sunday, December 13, 2009

"this one goes out to the ones i love"

Acordei com uma ressaca tenebrosa. Sonhei que o mundo era plano, belo e verde. No ar, uma estranha sonoridade, diferente como a brisa. Gorjeavam aves e insetos nessa media intocada. Duas letras i-n e não dizem nada, exatamente. O que não foi tocado? Como eu conheceria se não tocasse, como se de flechas materiais não fosse o olhar. Tocar e sentir, ver ou não, tudo é ofertado, mas nem tudo colhemos. Daí a ressaca? Daí certamente essa distância, essa sensação de que a realidade é tão extensa quanto sonhos que jamais teremos. E aí você, você mesmo, aí, sentado, eu sei que você existe, e é tão insensato quanto essas aves e esse verde, ou mais. A existência corre sob nossos sentidos como um grande rio, e quantos de nós navegam sem motor e sem vela. O que é um motor? O que é a vela? O que é o rio? Quem somos nós? Destino? Linha reta? História? Para quê? Para onde? Perguntas que não se calam e eu com um gosto na boca, de ontem.

Deixei a comida para esfriar. Saí tarde e encomendei uma marmita, mesmo sem fome. É que tarde, quando a fome vem pra valer, os restaurantes fecham. E aí só quem venderá o que comer cobrará o dobro. E eu, mesmo sem fome, quero defender o meu.

Mas a ressaca era sobre o meu e o seu, o nosso e o de ninguém. O verde intocado extenso, a vida que é só praia e momentos de alegria, ressaca, esporte, lazer, corpo e mente desanuviada. E como não? sob nuvens tempestuosas que também chovem. Tudo tem o seu tempo, vida e família, chuva e sol, tempo de conhecer, tempo de despertar, tempo de ocupar o tempo e viver, tempo de manter o coração vazio do desejo, completo com quanto? Toda espécie recebe o seu dia de jejum, toda população que cresce enfrenta o esgotar recursos. Mas nosso buraco é ainda mais embaixo, bem lá embaixo. O que dorme lá no fundo, nas trevas do passado, do inconsciente coletivo, das perguntas que não querem calar? Quem é? Você! Sim, tudo bem, pode sentar. O que queres? Não, eu não estava arredio, é só que... valores? Os meus, bem, sim, eu sei de você, não tinha nada, nunca teve nada, apenas uma sombra a vagar, apenas um valor, uma alma, uma vista, sentimentos, luz, brilho próprio, vontade. Você, meu amigo, sim, eu estava com você lá, no escuro, naquela noite fria e molhada, e vi os lugares onde não puseste os pés. Sim, eles estão lá, ainda, a fazer festa, e nada sabem dos seus caminhos, nem do tempo, assim, como o sentimos. Mas como o sentimos? Amor, vá com calma. O amor é para durar, mas nada dura. Ou dura? Alguns mais, outros menos... e eu não sou poeta. Não haverá nas sombras um momento único de choro, nem na luz uma única forma de amar. Não há ícones, não há modelos, nem moldes, e ainda assim há ideais. Ressaca de um ideal, ou ressaca de um tempo? Talvez da própria inocência, ajustar-se a outros moldes, desbravar um universo... verde e imenso, rico, cobiçado e aguardado. A grande selva, a vida memente, sensível, essa vida vive fora dos tijolos e tintas, ainda.

Algo mais, sim, ferrugem, sinto gosto de ferrugem na história. Algo que se está perdendo, trocado por algo pior, quase sem utilidade, por um capricho do tempo, um fator natural e um laissez-faire divinizado.

2 Comments:

At 12:40 AM , Blogger PedroIvo said...

Gostei muito disto. De verdade.

 
At 2:18 PM , Blogger Rodrigo said...

Valeu, Pedro. Abraço!

 

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