Thursday, August 13, 2009

O basilisco

O basilisco estava chegando. Todos se desesperavam e buscavam se esconder, embora não houvesse como. Sua promessa rondava o reino há gerações, e quando a besta surgia até os pais se desorientavam de tal forma que nem se preocupavam em esconder suas crianças. Seu hálito maligno era conhecido como um corta-mundos, e sua presença nefasta já bastava para cegar velhos e jovens.

A profecia se cumpria sempre com rigor, e lá vinha a coisa não se sabia de onde. Buscamos nos preparar, saímos às ruas, armas! Precisamos de armas! Preparamo-nos: eu tinha uma longa lança, meus companheiros se viraram com facas e guarda-chuvas, pedras e coragem. Permanecemos à rua até altas horas, um bando oscilante e trêmulo, íamos e voltávamos sem saber de onde a ameaça viria. Mandávamos entrar as crianças, que não conheciam o grande mal, mas as ingênuas mentes fracas queriam ficar ali para ver - seus pais já não podiam proibi-los, o medo era geral. Mesmo nós, ali na rua, no sereno da madrugada, não tínhamos confiança total em nós mesmos. Como se preparar para um mal desconhecido, cuja fama atravessa oceanos com a imagem de um demônio alado e invencível?

Por fim, nos reunimos numa escola. Ouvimos de longe o rugir bestial, aproximando-se pelo corredor até a sala onde aguardávamos. Quando entrou, primeiro nos decepcionamos um pouco com seu tamanho, mas em seguida ataquei. Perfurei-lhe a face repetidas vezes, enquanto meus companheiros apenas olhavam. Afastei-me, esperando uma reação, e a besta falou! Falava com uma voz suave como uma flauta doce, aveludada e sincera, tão sincera que a peguei no colo e me desculpei - não pretendia fazer mal a uma criatura tão divina, se ao menos soubesse...

Mas onde há um, há vários. Onde estava sua família? E de onde vinha tal medo, tamanho furor e revolta e apreensão que até os pais se esqueciam de seus filhos? Não, aquilo era apenas um disfarce, uma isca, uma distração. Pros diabos com esse filhote inofensivo, vamos nos armar. Fomos atrás de armas, encontramos alguns terçados e enxadas, punhais e mais guarda-chuvas, muitos guarda-chuvas, guarda-chuvas demais, estamos numa fábrica de guarda-chuvas? Onde pode chover tanto?

Voltamos à escola. Finalmente o monstro se aproximava. Seu brilho radioativo podia ser visto por trás da esquina, seu ruído demoníaco fazia o solo se retorcer, sua proximidade queimava as flores e calava as aves do céu. De repente, vi minha equipe se dissolver. Alguns se escondiam, outros deitavam-se despreocupados próximos à janela e dormiam. Seria mais um truque da criatura, ou o medo produzia esses delírios? Pelos corredores e cortiços, crianças brincavam e seus pais não eram vistos. Escondam-se! Escondam-se! Onde pensam que vão? A criatura vem aí! Mas agora, que os passos já eram ouvidos a poucos metros, o medo parecia se dissolver como num transe hipnótico.

Então surgiu. Tinha a pele multicolorida, um olho pequeno no topo da cabeça, outros de lado como os olhos de um gavião faminto. Sua pele irradiava uma luz espectral que nos lembrava a morte, e suas patas eram de ave. Apenas um companheiro lutava ao meu lado, e acertamos alguns golpes na criatura. Finquei-lhe o terçado na cabeça, e quando ia fincar o punhal em seu olho superior ela soprou seu bafo pestilento, fazendo-nos recuar entre o delírio e a moléstia. Onde estão todos os outros, que apenas temiam, e temiam sempre? Por que no momento decisivo tiravam o corpo fora? Eu já não tinha mais medo, apenas uma necessidade urgente de matar, de eliminar da face da Terra aquele mal, aquela hidra mitológica em forma de dragão.

Por fim, eu e o outro pusemos fim à maldição. Não sei dizer como, lembro-me apenas das pessoas reunidas enfim, a criatura amarrada, cega e ferida, e os preparativos de uma grande comemoração. Alguns cogitaram soltá-la, agora que aprendera a lição, mas eu estava resoluto - para isto, a morte! Acenderam uma fogueira e alguém disse: "você só vai matá-la para provar sua superioridade", ao que respondi que era preciso, ou se corta o mal pela raiz ou ele volta a nos assombrar. Acaso não lembravam todo o medo, rancor e desespero de apenas poucas horas antes? Castrem-na então, sugeriu alguém, e soltem-na. Não podemos nos igualar aos nossos inimigos! E a isso, respondi que não conhecíamos sua natureza. Há peixes que mudam de sexo e escorpiões que têm filhos sem copular. As intrincadas artimanhas da vida nos exigem a solução definitiva: o fogo.

E assim foi. Mas acordei antes de ver agonizar nas chamas a besta maldita. De tudo isso, apenas uma certeza tenho: o basilisco ainda vive e aqui é conhecido como Cristianismo. Hoje seu hálito ainda destrói a vida, mas o medo foi tranformado em apatia; o desespero persiste, mas sua fonte segue ignorada. Cristianismo, por todo o seu ódio pela vida e pela beleza, pelo que é natural e vigoroso, pelo diferente e cheio de opinião, por sua insistência em manter as crianças na rua da ignorância, quando deveriam investir em si mesmas, nesta vida, a única vida, seu destino é o mesmo que outrora aplicou a tantos que discordaram: há de queimar no fogo também. É só uma questão de tempo...

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