Thursday, August 13, 2009

Cultura

Eu ia escrever que "crença é ignorância" em relação ao monoteísmo, que por ignorar que é um mito como outro qualquer, é a ignorância mais perniciosa que conheço. Mas me lembrei que a própria ignorância é melhor que a crença, uma vez que aquela está aberta ao aprendizado, ao contrário desta. Quem "crê" acha que sabe e por isso não procura mais saber. Esse sentido de "crença" é interno e exclusivo do monoteísmo, uma cola mental, um cimento ou durepox jogado dentro de um sistema vivo, emperrando-o até matá-lo. O organismo continua funcionando, mas uma parte dele está morta. Qual parte? A curiosidade, o gosto pelo desconhecido, a vontade de aprender, a vertigem do risco, da iniciativa, o orgulho do debate, a felicidade da dúvida, a redenção das perguntas, o improviso, só aceitar como melhor um melhor temporário, cientes de nossa completa incompletude. Perfeição, eternidade, Deus - tornam-se todos substantivos abstratos indesejáveis, sem nenhum contraponto no mundo real, e pior, apropriando-se da definição de coisas reais, concretas e importantíssimas: nossas origens, bem, virtude, destino, propósito...

2 Comments:

At 3:08 PM , Anonymous Anonymous said...

A ciência também não passa de uma história mitológica cuja crença ferrenha de alguns causa enormes danos à sociedade.

A ciência de uma época é apenas uma mitologia que ainda se acredita. Novas evidências mostrarão o quão errado tais crenças estão/estavam.

Pelo menos a ciência observa as evidências e desenvolve mitologias que tentem se adaptar a elas... a religião simplesmente desrespeita e ignora as evidências.

A religião como meme precisa ser mais forte e exigir intolerância e fundamentalismo para se reproduzir e viver, uma vez que é preciso acreditar nela e negar as evidências.

A ciência não precisa exigir que o indivíduo negue as evidências, só precisa convencê-lo a observar sob certo ângulo e não por outros; por isso a ciência me parece um meme menos agressivo.

Talvez uma teoria sobre agressividade de memes seja interessante.

Falô, véi.
Eu mesmo, claro.

 
At 7:57 PM , Blogger Rodrigo said...

Concordo que a ciência lembra a mitologia, mas acho que a mitologia é ainda melhor que a ciência.

A mitologia absorve fatos da realidade e os traduz para o entendimento humano, como a ciência, só que num ritmo mais lento. Porém, a ciência não pede que o indivíduo olhe as coisas apenas por um lado, ela é que só tem oferecido um lado. O indivíduo que ignora a filosofia e a intuição sofre com isso. Mas o erro aí é do indivíduo (e da sociedade), não da ciência. A mitologia é, de uma só vez, ciência, filosofia e arte. Ela agrega a totalidade do conhecimento humano sem ser imutável como a religião (ou melhor, como os monoteísmos).

Precisamos esclarecer melhor estes termos e as relações entre eles (como com tantos outros).

Inté!

 

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