Tuesday, May 17, 2011

Do direito ao aborto e das dificuldades para obtê-lo

Cada sociedade tem a sua moral. Povos nômades, próximos da Natureza, têm uma moral mais ligada à conservação do ambiente, incluindo medidas de controle populacional (direito materno ao aborto e até ao infanticídio). Já os grandes impérios, cujas guerras de conquista exigiam populações crescentes, tenderam a adotar morais contra o infanticídio e até contra o aborto.

Em tempos de superpopulação e destruição crescente de recursos, Brasil e China ocupam extremos morais na questão do aborto. É verdade que a população chinesa é sete vezes a brasileira, o que levou o governo chinês à política do filho único - saída emergencial para o que podemos chamar "vítimas do próprio sucesso". Já o Brasil, que destruiu 95% da Mata Atlântica, 70% do Cerrado e 20% da Amazônia (e continua destruindo, a Amazônia a uma taxa de 1% a cada 2 anos), cuja população continua crescendo, com uma imensa parcela de pobres e miseráveis, uma maioria absurda de analfabetos funcionais e contingentes gritantes de desempregados; cuja inserção no mercado mundial (graças às louvadas políticas lulistas) significa um grau crescente de consumo e descarte; cuja agricultura é requisitada não só para alimentar sua população cada vez mais obesa, como também uma população mundial crescente e crescentemente obesa, além de produzir também biodiesel e etanol para um mundo com menos petróleo - este mesmo Brasil, dono da maior biodiversidade mundial e que mais rápido a destrói, não apenas estimula o crescimento populacional, como proíbe o aborto. Ou seja, se os imperfeitos e nem sempre acessíveis métodos anticoncepcionais, usados por mulheres igualmente imperfeitas (que se esquecem, por exemplo) falham - a mulher é obrigada a gerar uma criança que é ainda feto ou embrião. Não importa se o pai é conhecido, se deseja uma criança, se deve terminar os estudos; não importa se a mãe se sente preparada, se deseja terminar os estudos, se se sente miserável e desamparada - ela é obrigada a esperar enquanto o embrião vira feto e o feto vira bebê. Depois das dores do parto, pode dar o bebê para adoção.

As religiões dominantes e não-dominantes não só concordam com a situação, como fazem propaganda constante para que não mude. Podemos citar católicos e evangélicos, espíritas e até budistas. Para todos ou a maioria desses, considerações metafísicas - logo individuais e não demonstráveis - são suficientes para derrubar todas as demais considerações (psicológicas, sociais, ecológicas), mantendo uma lei nacional que tira das mulheres (e dos homens) um direito ancestral - o de planejar a própria família e comunidade.

Confrontar Ocidente e Oriente na origem de suas respectivas moralidades pode ser enriquecedor. Há muito se fala do declínio do Ocidente. A edição dos Analectos confucianos pela editora L&PM traz no verso: "Os Analectos tornam-se um contraponto essencial no mundo de hoje, de decadência de valores morais." Por que decadência?

Todos sabemos, ou deveríamos saber, que as doutrinas cristãs - o núcleo do "Ocidente" - estão em geral muito longe das palavras de Cristo. Os mesmos edifícios públicos que exibem crucifixos nas paredes proíbem a entrada conforme a roupa. Os bispos que ensinam a humildade não têm alergia a ouro, etc. Incontáveis "santos" da Igreja aos poucos inseriram um ódio ao sexo, uma condenação ao prazer, que faz os moralistas de hoje enxergarem a gravidez indesejada como uma espécie de castigo pelo prazer - descuidado ou não. "Ah! Mas na hora de transar ela quis, né? (Devassa!) Agora tem que arcar com as consequências!" O detalhe é que, se já não fosse injusto forçar a família a criar um ser humano, força-se também este ser humano a existir, e toda a sociedade a conviver com um contigente interminável de miseráveis indesejados (até pela própria mãe!). Depois se perguntam de onde vem tanta violência. Forçar alguém a nascer contra a vontade da mãe já é uma bruta violência - e todos sabemos que violência gera violência.

É impressionante que os clássicos taoístas e confucionistas, por diferentes que sejam entre si, mantêm-se hoje tão corretos quanto à época em que foram escritos (alguns séculos antes de Cristo). Os avanços da ciência não os tornaram obsoletos - o mesmo não se pode dizer da moral religiosa ocidental. O fato de os caracteres chineses terem permanecido praticamente os mesmos também conta (já a Bíblia sofreu inúmeras traduções, cada uma com suas próprias interpretações enviesadas).

Que católicos e evangélicos proíbam o aborto é compreensível - basta ver o palácio onde seus líderes vivem. Já o budismo exige uma interpretação à parte. Existe mais de um tipo de budismo, e nem todos são "encarnacionistas". No Brasil, o budismo mais disseminado inclui o encarnacionismo e parece concentrado numa classe social média-alta, assim como o espiritismo. Trata-se da classe social que mais reclamou ao ver suas riquezas compartilhadas com os mais pobres durante o governo Lula - por mais que suas religiões preguem o desapego, a compaixão e principalmente a caridade. É uma classe que, ainda que inconscientemente, defende o status que já alcançou, ainda que às custas da miséria alheia. Sim, pois proibir o aborto é manter a miséria alheia. Exigir "recato" de pessoas pobres e sem opções de lazer só podia vir de uma moralidade deturpada como se tornou a cristã ao longo dos milênios.

Essas mesmas pessoas de classe social beneficiada, quando suas filhas decidem abortar, não raro pagam um médico competente para fazer a cirurgia proibida com segurança. (Estatísticas - http://www.nytimes.com/2007/10/12/world/12abortion.html - mostram que a proibição não reduz a prática do aborto - o que mostra tratar-se, afinal, de um direito que as mães perseguirão mesmo contra a lei.) Somente os pobres recorrem a "açougueiros", colocando a própria vida em risco (muitos ricos querem mais que os pobres morram, mas claro que só admitem isso em círculos reservados) e gastando - as que sobrevivem - recursos públicos para procedimentos de emergência necessários devido a cirurgias mal feitas.

Pior é ouvir o argumento de "piedade" - "devemos poupar a vida do inocente" - hipocrisia que despreza a questão da qualidade de vida - inversamente proporcional à densidade humana, fato conhecido desde os primórdios - e que esconde o ciclo vicioso de maternidade precoce e baixa escolaridade, que se repete, inacreditavelmente, em pleno terceiro milênio.

Por falar em modernidade, o Ocidente está mesmo entre a cruz e a espada. De um lado, países como o Brasil e mais pobres, que proíbem o aborto com justificativas arcaicas, metafísicas e irresponsáveis. De outro, países mais industrializados e financeiramente ricos, cuja ciência e níveis educacionais permitiram que se vencesse essas religiões defasadas do bom senso. Porém, essa mesma ciência reducionista e arrogante, que garante o sucesso militar e industrial, vem causando prejuízos psicológicos e sociais (individualismo e consumismo, urbanização, xenofobia e perda do sentido da vida).

Ao negar mitologias e noções de sagrado por não serem "verificáveis" e "quantificáveis", o Ocidente não tem nada para preencher o vácuo deixado pelo recuo do cristianismo. Fala-se de uma geração que "não encontra ideais para defender", e o meio-ambiente destruído paulatinamente passa como um modismo, uma preferência exótica de tribos "verdes". Aqui aparece o posmodernismo, tendência vagamente ligada às artes, mas que se proliferou em quase todo o pensamento - ciência, literatura, filosofia. De forma um tanto grosseira, e desprezando a própria diversidade que o movimento pretende ter, podemos enquadrá-lo como uma suspensão temporária de conceitos. Como um novo Descartes eliminando tudo que não fosse certo, os posmodernos suspenderam todos os seus preconceitos para "olhar novamente para o mundo". Atitude louvável, caso tivessem encontrado algo em que acreditar. No entanto, o espírito da época posmoderna crê e divulga que "não existem verdades", ou que "a verdade é relativa" - simplificações grosseiras de filosofias mais sutis que, infelizmente, contaminaram as massas. Como num "fim da história" orwelliano, somos convidados a sorrir, consumir e parecer satisfeitos, a não perguntar e não problematizar. Aparência é tudo, e pouquíssimos têm paciência com quem busca a verdade. Como se diz: "buscar a verdade não está na moda". Isso porque alguns acadêmicos espalharam - com ajuda de uma mídia global nada desinteressada - que a ciência é apenas mais um discurso, não um método. Na verdade, a salada de ideias é tão variada que chega a ser inútil buscar a causa exata. Talvez seja mais produtivo observar seus efeitos: a maior parte da ciência hoje é feita por corporações para o desenvolvimento de produtos. Pesquisa-se para vender, não pelo saber em si. A Academia ficou algo isolada, com seus "especialistas" citando uns aos outros, como o cavalo de Aristóteles, que por milênios acreditou-se ter a quantidade errada de dentes apenas porque ninguém se lembrou de abrir a boca do animal e contá-los. (O caso descrito em Imposturas Intelectuais ilustra parte do drama.) A verdade está na boca do cavalo, não na minha cabeça ou na sua. Podemos e devemos, se soubermos contar, ir até lá conferir. Fora isso não há debate necessário.

Assim, voltando ao delicado tema do aborto, o debate é, sim, mais necessário que nunca. Mas requer honestidade intelectual e interesse pela coletividade. Duas coisas que andam em falta na nossa assim chamada "democracia" esmagada entre religiões arcaicas, imperialistas e anti-naturais e um movimento posmoderno hedonista, individualista e incoerente.

2 Comments:

At 5:58 PM , Blogger Renata Loyola Guirado said...

Como já havia te falado, concordo em número, gênero e grau com vc... apesar de não compreender as reflexões sobre algumas filosofias que vc faz, pois não as conheço.
Outro aspecto que precisa ser levado em consideração é o fato de médicos se negarem a fazer ligação de trompas queé legal) em mães que não desejam ter mais filhos, ou por elas terem um ou poucos filhos ou ainda serem jovens.

 
At 8:37 PM , Blogger Rodrigo said...

Não entendeu? Qual parte ficou em dúvida? É sinal, no mínimo, que eu preciso explicar melhor. Mas acho estranho gente que não entende, mas também não pergunta. Estranho, crescente e assustador.

Assustador como esses médicos aí, e como a ignorância das mães que não sabem que podem exigir um direito (ou não têm coragem, ou acabam cedendo à opinião de gente de mais autoridade, embora não de maior sabedoria).

 

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