Wednesday, February 03, 2016

Mandingo, Sófocles e Jimi Hendrix


se os ocidentais são bons...

os Chineses foram até a África fazer comércio.

os Europeus foram até lá arrancar escravos para levar a terras roubadas de outras civilizações.

E os Europeus, cristãos, é que são os bons? Os mocinhos?

"Os Europeus não sabiam que os negros tinham alma" - realmente, alguém acredita nisso? Não estou falando dos primeiros europeus que chegaram na África ainda no século 15 ou 16, estou falando do século 19 -- 300 anos, e MUITOS filhos e filhas mestiças, depois! Não estou perguntando se alguém vai dizer que acredita só porque está acostumado a ser hipócrita e repetir o que outros querem que se diga. Estou perguntando se ALGUÉM ACREDITA NISSO?

Mandingo (1975) apresenta a questão da escravidão com realismo - exagerado, dirão as puritanas - e, como é necessário, como uma tragédia, na moda grega de um Édipo Rei e sua irmã Antígona.

Quando um negro caça outro a pedido do dono branco, o que é pior, o medo de morrer ou a vontade de matar?

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Quando comparamos diferentes culturas ao redor do globo, vemos uma liberdade sexual muito maior que a ensinada pelas puritanas doutoras da igreja (usando aqui o jargão gay de chamar pelo feminino algumas "amigas").

A homossexualidade não era proibida no continente que depois seria batizado América. Pelo contrário, muitos relatos mostram não apenas uma grande consideração pelo "terceiro e quarto sexos", mas uma permissividade sexual generalizada, como na célebre "não existe pecado 'abaixo' do Equador". Também nos cânones orientais vemos a experiência e até erudição sexual de indianos, a espontaneidade dos daoístas: vão ambas em direções muito opostas ao moralismo anti-prazer que o cristianismo desenvolveu desde cedo (ver por exemplo a esplêndida obra de Uta Ranke-Heinemann, Eunucos Pelo Reino de Deus. "Misteriosamente", não encontramos a obra na página da editora, mas damos de cara com um alien nada amistoso -- vontade inconsciente de espantar leitores incautos?).

Será que o "chifre" vale mesmo uma vida? Não parece uma regra criada apenas para as famílias donas de imensas fortunas, que inventaram até a matemática e a geometria (o nome já diz, medida da terra) para salvar suas posses e prazeres? Regra que mais tarde vazaria para o "populacho", inevitavelmente, como uma tinta que aplicada à cabeça de uma estátua há de escorrer e colorir também as suas vestes e o pedestal?

Quando Jimi Hendrix cantava Hey Joe, quem ele encarnava, o amigo que inicia a letra, ou o próprio Joe, que mata a mulher por ciúmes? Talvez um pouco de cada? Qual o real papel de Joe? Esperava ser aceito pelos brancos? Tentava imitar o ideal de honra deles? Ou teriam seus ancestrais trazido da África este comportamento? Quando fugia para o México, é porque os mexicanos sabiam que a Natureza não pode ser domada? Ou porque onde estava, ao lado da lei de defesa da honra, havia também uma lei contra a defesa da honra -- nessas dicotomias do típicas do falso moralismo (se permitirem o pleonasmo)?

Qual mulher mereceria a morte: a adúltera ou a ciumenta? (Reparem se a versão do Blues Etílicos traz mais influência da capoeira ou de Roma. Além disso, ao contrário do "justiceiro" de Hendrix, aqui se prefere entregar o castigo à Executora natural, como também recomenda o Dao De Jing no capítulo 74. Já o direito romano há muito dá ao homem o direito de agredir e, muitas vezes, matar a mulher infiel.) O que pode ser considerado ofensa aqui? O que é pior, aceitar um chifre ou matar por ele? Quem são os selvagens, afinal?

Aliás, sendo a Selva um templo da Vida, o que queremos dizer quando acusamos alguém de ser "selvagem"? Viver na selva é viver longe dos seres humanos? Ou fugiram da selva os humanos que hoje a destroem, impiedosa e impunemente?

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O sentido da tragédia grega é o mesmo da Vida, às vezes ganhamos, às vezes perdemos. Não existe "felizes para sempre". A cultura europeia é baseada em milenares mentiras. A tragédia grega foi substituída pelo melodrama da Bíblia e de Hollywood (aliás, dizem que os judeus escreveram a primeira e hoje dominam a segunda). Se antes cada lado tinha os seus motivos, agora um é "bom" e o outro "mal". Para o cristianismo, para o islã, para o judaísmo -- "nós" somos "bons". O outro lado não está com o "deus único", só pode ter "inclinação para o mal"? Eis o melodrama, o maniqueísmo, a dicotomia que tenta separar o bem do mal, o branco do preto, o sim do não -- quando todos se alternam, como já sabiam os daoístas do yin-yang.




E assim, na tentativa de fazer a Vida parecer um roteiro mal escrito, muitas vidas são humilhadas, pisoteadas, destruídas. A posse de poucos somada a uma má filosofia gera a aparência para muitos, e milhões de escravos perdem suas vidas para erguer a tumba de um faraó que se acredita o único deus (ou mesmo sabendo da existência de outros, fechou-lhes os ouvidos). O resultado é a morte, a destruição das Florestas, a destruição do prazer, a destruição da Vida, da biodiversidade, do sentido. Para os descendentes do romanos, as pirâmides do Egito não passam de uma "grande maravilha do mundo"! Para os economistas da TV, a Natureza é um "recurso infinito"!

Mas quem sabe tenhamos alguns séculos pela frente? Se pudermos aprender com os distantes (ao invés de nos contentarmos em "amar o próximo"), talvez saiamos do lugar, talvez aprendamos a viver melhor. E a tragédia voltará a representar nossos problemas inevitáveis, e não mais os problemas desnecessários que criamos para manter uma única tradição em detrimento de outras.

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