Saturday, April 28, 2007

Desrazão

O conceito de desrazão.

Infelizmente, não tenho mais ferramentas à mão nesse instante do que a tinta e o papel. E claro, meus pensamentos. Porém, os pensamentos são tão fortes que os chineses a que se referiu chamam a palavra de "o crime da boca", como se as idéias fossem espadas manejadas pela mão, com a diferença de alcançar inúmeras mentes.

A sociedade que imagino a mais feliz é aquela com o mínimo de razão desnecessária. A razão, como a linguagem, também é uma arma, que pesa e sobrecarrega a sociedade como um todo, por mais benefícios que traga. O que imagino é que deveríamos reduzir a razão ao mínimo de leis máximas, diminuindo as exceções que atribulam nosso sistema legal, por exemplo, não apenas tornando difícil seu conhecimento e aplicação justa, mas também abrindo espaço para os que enriquecem à sua custa - ou melhor, às custas dos outros.

Sugeri que o sistema legislativo seja decomposto pela participação mais direta da população envolvida em cada caso. Como plebiscitos mais ou menos locais, que abrangeriam desde a instalação de usinas hidrelétricas até a legalização do aborto ou das drogas.

Não quis dizer que transformaremos nossa sociedade num idílio aborígene nem muito menos "irracional". A razão é nossa mais poderosa ferramenta, e como toda boa ferramenta, deve ser usada com precaução e responsabilidade. O maior problema de nossa sociedade, a desigualdade social, só é possível pela acumulação dos símbolos que mantêm o status quo, como o sistema legal hiper-racionalizado (no sentido de volumoso e complexo, exigindo décadas de formação para produzir bons juristas, o que ainda assim não costuma acontecer). A desigualdade social aumenta também na medida em que nossa juventude é entupida de conhecimentos gerais, antes mesmo que tenha aprendido a viver. A maior parte do que se ensina na escola é lixo: a que interessa à criança ter a obrigação de saber o nome de Pedro, o descobridor da Ilha de Santa Cruz, ou o dia em que ele aportou em nossa costa, se a curiosidade natural já foi eliminada muito antes disso? Às crianças não é permitido duvidar, hábito e alimento primordial da razão. Observe nossos jovens nas escolas, no ambiente urbano de máquinas e asfalto, e compare sua curiosidade com a da criança do campo, que pode correr livre pelo ambiente natural rico de diversidade e desafios.

Em tudo o homem aprendeu com a natureza, e hoje não lhe damos o devido valor. As pessoas arrotam suas religiões e matam e morrem por elas, ou pelo dinheiro, ou por drogas ou por um sistema de governo, mas não percebem que estão deixando para trás a natureza que nos formou e que é ainda hoje nossa fonte de vida e de conhecimento. Todas as grandes descobertas, a roda, o avião, a eletricidade, os fármacos, já estavam na natureza. Quando defendo uma sociedade do instinto, não faço mais do que seguir a antiga máxima do "Conhece-te a ti mesmo". Toda razão que não é usada nisso, ou seja, que é desperdiçada na criação de uma sociedade mais tecnológica, industrial e descartável, terá, por isso mesmo, ampliado mais ainda a ignorância e o fosso da desigualdade.

Em seu primeiro parágrafo, acho que você quis dizer que a consciência precede a razão. Realmente seríamos mais felizes com menos consciência. Mas assim como os problemas científicos (e como um dos últimos grandes problemas científicos, inclusive), também a consciência pode ser desmembrada em partes. Há uma consciência instintiva e uma consciência de quem estudou demasiado determinado aspecto da realidade. Um cientista biológico tem sua consciência fisiológica animal individual mais desenvolvida que o cientista social, que se prende à sua consciência social e histórica.

Nietzsche fez uma crítica mordaz ao ensino da história, na medida em que a juventude aprende primeiro todos os caprichos, as injustiças e as desgraças da história, antes mesmo de aprender a vida por experiência própria. Isso parece exaurir, nas cabeças em formação, toda a sensibilidade em relação ao mundo presente, a esperança em ideais - pois prova-se que nenhum ideal jamais "funcionou" - formando uma geração de cínicos que só vem aumentando cada vez mais.

Quando forçamos toda a juventude de um país a saber exatamente a mesma lista de fatos, como se devessem todos ser enciclopédias ambulantes, o que estamos fazendo é amordaçar o instinto, e isso não acontece sem propósito. A Igreja foi a primeira a destruir os instintos básicos dos povos que conseguiu alcançar com suas teias e patas de aranha. Antes isso era feito não por uma educação rigorosa, mas pela observância a comportamentos rígidos, que desviassem todos de seus prazeres e trivialidades do corpo (transformados, por uma longa e talvez fortuita cadeia de eventos, em coisas sujas e pecaminosas - talvez por se apresentarem opostos à superioridade do espírito imaterial, como se queria a essência de Deus). É bem verdade que assim Deus permanecia externo ao mundo, distante, acessível apenas a uns poucos iniciados, que com isso garantiam seu poder terreno, sempre em meio às barbas do Estado. Hoje, depois da industrialização e da vulgarização dos grandes núcleos urbanos, da ciência e do acesso à informação, a sociedade foi afastada ainda mais de seus instintos, primeiro pelo afastamento da natureza presente no campo, depois pelo anonimato e pela especialização técnica dos estudantes nas cidades, cada vez mais especialistas, mais restritos e mais míopes para o quadro geral da vida.

Hoje os teocratas (?) são os cientistas, os novos racionais - realmente muito mais racionais em seus métodos do que toda a baboseira metafísica que sempre confundiu, mas perpetuou, a Igreja. Como num processo de seleção natural, o pensamento científico alcançou maior sucesso junto às massas porque deu a elas a liberdade há tanto aguardada de exercer melhor seus desejos, o que de fato foi alcançado. Mas o efeito colateral do novo pensamento foi a comercialização de tudo o que antes não existia. Se a diferença antes se dava apenas entre o homem feudal e o nobre, hoje há toda uma categorização das desigualdades, passando por diferentes poderes aquisitivos, que vão desde água potável e comida suficiente até uma bicicleta e um tênis superiores, uma boa mochila e barraca de camping, moto, asa-delta, carro importado, lancha e avião - alcançando mesmo o direito de realizarmos viagens espaciais, apenas se tivermos dinheiro para tanto.

A razão em si não é um mal - é apenas uma ferramenta. O pecado de nossa era - se é que se pode falar em pecado - é usar a razão para criar necessidades, com a voracidade de uma criança curiosa e hiperativa. Em momento algum a sociedade como um todo olhou para tudo isso e pensou: desejamos mesmo tudo isso? Ou estamos só construindo uma nova torre de Babel, cujos pedaços já caem sobre as cabeças menos favorecidas?

A razão tem criado produtos antes de perguntar se queremos mais produtos.
Mais produtos geram diferenças, e "diferença engendra ódio", para citar o grande psicólogo Stendhal.

Acredito ser um fato biológico que diferença engendra ódio. Mais ainda se a diferença é criada, artificial e desnecessária - e portanto evitável -, como um tênis Nike ou um óculos Rayban ou um relógio Rolex. Esse tipo de razão, a razão luxuosa da tecnologia sem limites, afasta-nos do equilíbrio instintivo, daquela visão do Yin-Yang onde a razão deve ceder em ondas a uma intuição que se oponha a ela, equilibrando-a, equilibrando-nos - intuição, ou melhor, desrazão que sucumbe aos poucos pela overdose de racionalidade, de notícias, de informação, de conhecimentos e produtos.

Faço e farei tudo que estiver ao meu alcance para deter esse processo, tanto no mundo das idéias quanto no mundo das ações. Aqui, entre as quatro quinas de monitores mundo afora, mantenho minha palavra como a arma que melhor se adequa ao meu estilo de luta. Lá fora, espero conseguir levar minhas propostas às pessoas certas, no momento certo, de maneira que consiga realizá-las ou, ao menos, levá-las adiante.


Não resisti a copiar e colar alguns trechos, comentando-os em seguida:

1. Não é "conhecimento de si", e sim conhecimento do mundo fora de si, antes do conhecimento de si, ou antes de sabermos as conseqüências do nosso conhecimento do mundo sobre o mundo, através da tecnologia destruidora e irrefreável.

2. Para mim, "sabermos o que somos, quem somos e qual o nosso lugar no universo" seria nossa única salvação, mas antes de sabermos isso já estamos comprando vários aparelhos televisores e de ar-condicionado, telefones celulares, fixos, portáteis, computadores de mesa, laptops, máquinas de lavar roupas, de lavar louças, secadoras de roupas e de louças, ferros de passar, geladeiras, freezers, fornos de microondas, carros com vidros elétricos e milhões de outros utensílios que foram feitos para poupar nosso tempo, e no entanto vivemos correndo muito mais do que há um século atrás.

3. "Acorda quando lhe dá vontade e tem fome, aí então precisa preocupar-se em conseguir comida" - já abandonamos esse luxo há dez mil anos, quando começamos a agricultura - e dela nos tornamos escravos, coisa que não aconteceu com as poucas tribos de caçadores-coletores que persistiram até hoje.

4. "Uma sociedade de seres assim seria mesmo inimaginável e, mais do que isso, totalmente desnecessária" - Não faz sentido falar de "sociedade desnecessária", já que toda sociedade é apenas uma experiência.

5. "A liberdade na sociedade do instinto seria total e dependeria apenas da vontade de cada um e da capacidade para poder fazê-lo chegar ali, acolá, alhures." - a liberdade nunca será total em sociedade humana alguma, pois mesmo chimpanzés devem respeitar o líder do bando. Somos hierárquicos. Buscamos diminuir o contraste hierárquico, reduzir a desigualdade entre o máximo e o mínimo que se pode alcançar, sem perder de vista que sempre existirá uma relação de poder, e portanto, de liberdades restritas. Além do mais, a liberdade hoje já depende exatamente do que você disse.

6. "Aquele que tudo questiona, não pode ter um padrão fixo, ele terá padrões variáveis ao longo do tempo, ainda que seguindo uma linha comum derivada diretamente a partir de sua natureza biológica e, mais especificamente, de seus genes e da interação destes com o meio ambiente e sua sociedade." Faltou dizer o principal: a linha seguida derivará principalmente da filosofia ensinada. Assim surgiram as diferentes religiões, eis nossa Torre de Babel. O que sugiro é ensinar o mínimo possível, ou para ser mais claro: aproveitar em nossos ensinamentos o máximo da filosofia que a natureza já dá ao homem, em toda área do conhecimento onde isso for possível, ou na ordem em que se fizer disponível em nossa lenta mudança social.

7. Por fim: "quais seriam as modificações-chave a serem feitas nesta atual sociedade que temos para levar-nos mais diretamente à sociedade do instinto que imagina?" Algumas mudanças, todas inviáveis imediatamente:

- mudança do legislativo representativo para um legislativo consultivo onde o máximo de cidadãos envolvidos seja consultado.
- diminuição do papel da justiça, abrindo espaço para que grupos específicos resolvam seus próprios problemas sempre que isso for possível. Um exemplo disso acontece hoje no Brasil, quando indivíduos de etnias indígenas, morando em terras indígenas legalmente constituídas, praticam no interior dessas terras atos considerados ilegais pela nossa legislação, como, por exemplo, o assassinato. São impunes a nossa lei. O mesmo deveria ocorrer, por exemplo, se um indivíduo é morto por outro, e ninguém se queixa do assassinato.
- diminuição das leis restantes ao mínimo necessário e suficiente, num procedimento semelhante ao de simplificar um algoritmo computacional.
- diminuir a educação à oferta de cursos livres para quaisquer idades, e ao pagamento justo de mestres em suas profissões, para que possam servir como professores nestes cursos.
- limitação do direito à herança de bens materiais, para que o herdeiro aprenda a conquistar a própria independência, e também para que não exista tanta cobiça em acumular bens.


Acho ainda que a liberalização que proponho não se estenda à economia, que deve depender da proteção do Estado de forma a proteger os interesses do povo e da nação. Antes comêssemos bananas e dirigíssemos fuscas produzidos por nós mesmos, do que essa carnificina chamada mercado que hoje devora continentes.

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