Thursday, May 10, 2007

O conhecimento límbico

Nosso cérebro funciona em diferentes níveis, que podem ser vistos se cortarmos nosso órgão como uma laranja.
Por fora, como se fosse a casca colorida e o tegumento branco interno, que separa a polpa do exterior, temos o córtex. É o córtex quem raciocina o pensamento consciente, fazendo operações que envolvem a visão e os demais sentidos, a memória e diversas capacidades cognitivas (chamadas daemons, pois são numerosos e agem por conta própria, sem a nossa contribuição, como pequenas criatura não dotadas de inteção; pequenas máquinas feitas de neurônios especializados num determinado tipo de tarefa burocrática sobre o tecido nervoso e, por conseguinte, sobre nós).
Abaixo do córtex, temos aproximadamente o volume da polpa alaranjada e macia de nossa fruta cítrica: o sistema límbico. É nessa parte, igualmente desenvolvida nos demais mamíferos, que acontecem as descargas elétricas relacionadas às nossas sensações primitivas compartilhadas com nossos primos de pêlo - frio, fome, medo, sono e sonhos, etc. Nessa parte acontece a vida privada do cérebro, onde ele se defende de nossa curiosidade natural em desvendar seus segredos. Se fosse interessante que os mistérios da mente já estivessem todos decifrados, isso já teria sido feito e incorporado à nossa genética há muito tempo, dadas as maravilhas que a seleção natural é capaz de realizar ao longo das eras. No entanto, boa parte de nossa psicologia permanece oculta, e o "conhece-te a ti mesmo" da época dos gregos precisou ser balanceado com outra máxima de igual relevância, lado a lado com a primeira no templo de Delfos em Atenas: nada em excesso. Por isso, psicólogos precisam se tratar. Tentar desvendar a máquina é como tentar medir a velocidade e a posição do elétron, quando buscamos um, deslocamos o outro. A máquina não é imune a falhas, e não foi feita para desnvendar a si própria, nem ao mundo externo, em demasia. Afundaríamos em tristeza se analisássemos a frieza do mundo mineral com muito apreço. Não há nada lá, e acabaríamos por nos decepcionar.
Talvez por isso tenha evoluído em nós a sensibilidade à ignorância calculada, também chamada auto-engano. Boa parte de nossa vida mental ocorre escondida no que hoje chamamos inconsciente, e é exatamente aí que deve ficar. Não um deve de obrigação ou moralismo, apenas um de eficiência, de aproveitar num órgão aquilo que ele foi projetado, pela seleção natural, para executar.
Abaixo do sistema límbico existe ainda o núcleo central da máquina humana, o processador, ou ainda, o seu kernel - o centro de gerenciamento do sistema, que controla as atividades mais fundamentais, como a respiração, a circulação, o equilíbrio térmico, etc. Acesso restritíssimo.

Mas falemos de conhecimento e memória.

A memória, como a consciência, é feita em módulos. Não existe uma coisa a ser descrita como memória, trata-se de uma máquina com partes intrincadas e delicadas. Bilhões de neurônios fazendo trilhões de sinapses, e cada uma delas ligando uma coisa, um cheiro, uma cor, uma forma, um fonema, uma palavra, uma pessoa; a outra coisa, um sentimento, um lugar, uma época. Isso é a memória, e nosso Eu é a soma disso tudo, por onde temos passado, do que lembramos e do que esquecemos. Mesmo o que esquecemos não passou em vão; pelo contrário, foi o que passou por nosso cérebro que fez de nós o que somos - que moldou a rede de plugs e interruptores que é o que a gente é, por dentro e por fora.

No nível inconsciente, sensações repetidamente associadas com nossa resposta emocional permanecem guardados em estruturas (muito provavelmente neurônios) que ligam as sensações com o humor que tivemos como reação a essas sensações. Não precisamos nos lembrar o porquê de cada associação, mas o tempo todo fazemos todas as nossas escolhas baseados nesse tipo de ligação, intuitivamente.

Quando enfrentados com múltiplas percepções, a intuição consegue capturar, do fundo dessa memória inconsciente, uma resposta adequada a ela, por já ter se mostrado útil no passado. A razão, o pensamento racional consciente, apenas poderá seguir seu método afiado, porém lento, de analisar percepção por percepção, e já não poderá se lembrar de todas, para submeter cada uma delas pelo crivo estreito de seu parco regime de sistemas lógicos, tentando, em vão, justificar a intuição para dar-lhe apoio. A verdadeira intuição não roga pelo apoio da razão, é muito superior a ela. A razão é boa para determinadas tarefas, mas não pode se preocupar em tentar provar a intuição todo o tempo. Não é para isso que ela evoluiu. O segredo da inteligência está em saber usar as ferramentas que temos, nossos daemons, da melhor maneira, como eles funcionam melhor, seguindo para isso o instinto, o mesmo do pássaro que voa pela primeira vez e da girafa que já nasce de pé. Fazei como a tartaruga que sabe o melhor lugar para cavar, sem nunca ter pensado a respeito. Senti dentro de vós o chamado do inconsciente e o segui, sem esperar que a razão consiga entender por completo o que ali se passa. E admiti para vós mesmos que o Eu, na verdade, não é a razão, mas o conjunto de tudo isso que somos, do qual a razão é mera convidada, a última a chegar. Aí, nas portas da percepção, começa o auto-conhecimento.

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