Friday, October 27, 2006

Divagações cariocas

Cheguei ao Rio sozinho, achei um bom albergue, R$25 a diária, em plena Copacabana. Conheci um moreno delicioso, Vitorino, mora em Brasília mas é de Minas, e entre duas fodas e um bom sono sobrou só uma lembrança repetida. Continuarão os gays a vestir este caráter consumista fútil, urbano, "moderno", modista, glamouroso e elitista?
Quando as árvores?
Quando os peixes grandes e pequenos, em rios limpos, idílicos e sensuais?
Hoje acordei, dei uma pequena caminhada, encontrei o Luiz, conhecido da Internet. Mais masculino que o Vitorino, mas também bastante urbano. Mais gostoso, mais... apaixonante. Mas o que é, hoje, a paixão? Não quero defini-la, ou descrever o que é apenas uma palavra. Combinei de encontrá-lo à noite, e saí para caminhar. Fui de metrô até próximo ao centro, andei, andei, Av. Presidente Vargas, Palácio Duque de Caxias, Estação Central do Brasil, mini-rodoviária, ruas de negros, Coca-Cola a um real, lixo, nenhum glamour.
É incrível como o Rio só é gay na Zona Sul. No metrô, só eu, plena segunda-feira, de bermuda e chinelo. Um executivo de terno e gravata, carregando uma mochila de trekking, brilhantemente característica, me olhou de alto a baixo. As escolhas que fazemos, todos nós. Eu, de não ter mais do que preciso, e matar cada minuto após tê-lo vivido, sem medo de me tomarem o que posso depois recuperar. Só não me roubem o tempo. Ele, satisfeito com um nível preciso do que alcançou com o suor do seu trabalho, que o distingue em sociedade, provavelmente lhe garante uma esposa adorável, mas que para mim nada vale.
Cada rua que andava, cada esquina, cada olhar, cada passo sem rumo, o céu a dar direção, monumentos como referência, grandes prédios, montanhas, bem poderiam ser breves amores, e são... ou os não correspondidos, aquele desejo eterno. Amo mais meu desejo que o objeto amado, provavelmente. Depois que o consigo, perde um bocado da graça. Só quero o que não tenho, exceto para o que não é gente.
Dois anos, e quando eu achava que Manaus estava pior por minha causa, aparência, idade ou má-fama, descubro um Rio ainda melhor, mais tesudo, mais maduro (eu, no caso), mais fácil e aconchegante. E, ainda assim, quero é escrever. Quero viver o ímpar, o silêncio do ônibus que vai, do exílio ensolarado, a solidão das noites quentes.
Olhava as caras das pessoas nas ruas. Muitas olhavam para a frente, para nada, reto, estático, sem prazer ou esperança. A esperança está morta. As pessoas esperam um fantasma que ignoram, um desejo que não sabem nem por onde começar a querer, a buscar. Onde buscar o que não se sabe, e mesmo que se soubesse, não se admitiria?
Não que a minha solução serve aos outros, mas sei que já não tenho este olhar. Ou talvez tenha, mas não é mais pela mesma razão de quatro anos atrás.
A cidade é moderna, uma armadilha, uma espécie de papel mata-moscas, impecavelmente branco, inocente e fatal para os insetos míopes. Morrerão todos sem ver o que vi longe da cidade, muito longe. O que vi? Um vislumbre do passado, um passado quase extinto agora; serei seu último profeta e defensor? Ainda existirá quando eu morrer, velho talvez, e saudoso?
Este passado se chama ..., uma terra de praias e estrelas, flores carnais, amores platônicos, permissões calculadas, raras - mas valiosíssimas em sua raridade. Talvez valha tanto pela mesma lei que rechaça o desejo satisfeito, talvez não seja mais profundo que uma paisagem, um ponto no mapa e uma cor no céu, um certo pôr-do-Sol. Mas as estrelas à noite, revezando posições a cada estação, a brisa fresca de uma noite tranqüila, bucólica até, selvagem e espirituosa, permissiva.
As pessoas vivem nas cidades e têm suas idéias pré-concebidas sobre o que é a vida, o mundo, as leis - sobre como deveriam ser as leis, as coisas, os homens. Mas o homem é instinto, e não lei. Além de todas as leis há um homem comum, uma espécie de "essência", Natureza Humana, tão universal e bela que chega a ser um crime cada lei que consegue ocultá-la.
O homem sem leis não tem nada? O homem em sociedade tem um tipo de homeostase, de equilíbrio social - onde a justiça é a própria vontade do forte, seja ele pessoa, grupo, nação ou povo. Criaram uma máquina chamada Justiça, que cobra por seu funcionamento boa parte da homeostase original do sistema, e é de se perguntar: estamos melhor agora? Não responda. Pense em quem você inclui no "estamos" - seis bilhões?

*****

Há uma solução no abandono (auto-abandono? sócio-abandono?), no desapego, na permissividade.
Mas trilho este caminho só, e não me entendem. Em cada esquina me chamam louco, e cada vez mais os tomo por loucos a eles.
Ser louco é considerar que ser "normal" não vale a pena. Antes eu buscava me inserir nos bandos, ser aceito, compartilhar valores, opiniões. Não que não o faça mais, mas sinto que o faço cada vez menos.
As mulheres, por exemplo. Antes tornavam-se amigas. Hoje mal as olho. Valores diferentes. Diferentes demais. Se eu começar a explicar as diferenças para dez delas, dez não teriam paciência, ou não me entenderiam de fato. Uma ou outra exceção? Talvez uma em mil.
Sou hedonista, mas me preocupava com o "bem-estar social". Não deixei de me preocupar, suspendi temporariamente esses pensamentos. Melhor dito: busco a cada dia novos ângulos para definir este "bem-estar social". É preciso conhecer o mundo, conhecer o homem de cada lugar. Talvez até as mulheres. Talvez? Se for impossível desenvolver uma teoria do bem-estar social sem compreender as mulheres, estamos provavelmente perdidos, pois qual homem as entende? (E vice-versa.) Chico Buarque pode roubar-lhes as lágrimas, mas mesmo isso requer um entendimento apenas superficial, eu acho.
Hoje penso que entre o agir impensado e o não agir, o último é melhor.
A vida não pode ser apenas um dia após o outro. Deve haver um quadro geral, um plano, um esquema; algo que, em perspectiva, dê um certo sentido ao todo. Nada metafísico, místico, esotérico; mas construtivo, pragmático, voltado a objetivos concretos, positivistas? utilitaristas?
A humanidade é preguiçosa e egoísta. Que bom seria se não fosse preciso tanto sofrimento para submergir o egoísmo num único indivíduo. Eu também sou egoísta, mas me dói ver injustiça, esse governo vendido, sem projetos. O povo sem esperança. O que fazer?

*****

O concreto e o céu vermelho e frio compunham uma paisagem estéril, morta. Era uma cidade fria e gelada. Era tarde da noite. Meu ônibus saía em minutos, mas não era uma viagem que me traria alegria. Agora que passou, o fato é que trouxe; mas ali, na rodoviária de paredes lisas, mórbidas e impessoais, entre pessoas distantes, amorfas, inertes, num asfalto sem história, sem sangue, sem desejo, ali o tempo parou e eu só esperava o momento de movê-lo novamente.
Quero contar as histórias do Sol e das noites frescas de um eterno verão. Que o calor, mesmo indolente, é mais vivo que o frio.
Há um lugar onde o tempo passa noutro compasso e não se lamenta. Onde as pessoas sofrem as dores de serem humanas, mas desconhecem a dor de não ser. São. Estão. Fazem. Para elas, o pretérito mais que perfeito não se conjuga, não faz parte de seu dia-a-dia, a não ser numa conversa à toa na beira do rio, enquanto a noite não cai e os bandos de pássaros voltam pros ninhos. Ali onde a realidade é o que pra muitos seria fantasia, vive uma raça enganada, confundida a respeito do céu e do inferno, e que mesmo assim vive seu idílio cotidiano, que só quem enfrentou os mares cinzas das metrópoles sabe ver com os olhos que exige o paraíso.
Quando cheguei lá tinha 23 anos, e acabara de deixar minha cidade natal. Tinha sede de aventura mais do que nunca, e os quatro dias que passei no barco foram um lento penetrar num sonho.
Ainda no barco conheci Denilson, que subia com a esposa e uma filha. Tinha dez anos mais que eu, era um pouco menos inconseqüente e bastante jovem.
Os dias passavam entre goles de aguardente no convés, numa turma heterogênea de jovens e velhos, sérios e sátiros, mineiros, goianos, cariocas, cearenses. Todo o Brasil está representado num barco desses, e sob o som do violão aprendi que Raul Seixas e Renato Russo são, se não os maiores, ao menos os mais populares poetas brasileiros. À noite bebíamos. De dia também. À noite assistíamos TV. De dia também. Ainda jogávamos dominó, olhávamos as ilhas desertas, cobertas de um rico verde, perdidas e esquecidas na distância do mundo; gratas, muito gratas por isso. De manhã as aves cruzavam o rio nas alturas, o grande rio de águas escuras. Eram araras vermelhas, ou azuis e amarelas. Garças, papagaios. Toda sorte de animais se podia ver ali do convés: botos, ariranhas, uma sucuri repousava nas folhagens da margem.
O goiano havia sido garimpeiro. Sujeito simpático. Contou-me suas aventuras nas serras da fronteira à busca de ouro. Era uma febre aquilo. Tinha os delírios próprios das grandes febres. Juntava-se cem, duzentos gramas de ouro antes de descer para a cidade e gastar tudo com estrépito ardente. Alguns gastavam tudo numa noite, outros numa semana. Os mais precavidos levavam um mês, e davam uma parte para a mulher. E depois voltavam. Subiam novamente as serras para repetir o ciclo. Se aquilo era vida? Claro! A serra é única. O tempo que se vive no alto é abatido nas contas com a morte. Como nas paixões carnais, não era o ter que importava, mas o conquistar, e depois o gastar, o consumir; consumir-se. Os olhos do goiano brilhavam relembrando bons tempos.
O que eu buscava? ele perguntou. Aventura, disse. Também quero conhecer as serras, os índios, a natureza. Aprender o sentido da distância. Dei um gole e fitei o horizonte à frente - um mar de água doce. É mineiro, você vai gostar, ele disse. Era um bom presságio, e foi assim mesmo que aconteceu.

2 Comments:

At 6:31 PM , Anonymous Marco said...

Rodrigo, bom te ler de novo, embora ache que está talvez mais cético em relação a tudo. Não que eu discorde, no fundo, mas procuro ser mais sereno no dia a dia.
Evidente que, no Rio, como estrangeiro, o olhar é outro.
Estive em Vitória há alguma ssemanas e paasei por uma experiência surpreendente: ao sair de uma exposição na Vale do Rio Doce, tudo em redor era tão novo, fresco, surpreendente e maravilhoso! Cada pessoa, gesto, objeto, o barulho de máquinas, vozes, a água, um sorvete, paredes velhas e descascadas, gigantes carretéis coloridos.
Não durou talvez mais que uns 30 minutos, mas valeram por anos!
Mas certamente você viu coisas muito mais surpreendentes em suas viagens!
Um grande abraço!

 
At 8:11 PM , Blogger Rodrigo said...

É Marco, mesmo em BH eu tinha esse tipo de "transe" que você teve. É muito bom, mas é uma pena durar tão pouco. Há lugares, e certamente houve épocas, em que isso era mais comum, e é isso que busco, ou para transformar a realidade, ou para ao menos criar uma arte que tente simular isso, explicar ao mundo que isso existe, que não está morto.
Valeu e um abraço,
Rodrigo.
PS: Não é que esteja mais cético, talvez esteja mais preocupado em separar o joio do trigo pelo mundo, e na verdade dá muito trabalho, além de sermos tomados por chatos - as pessoas se acostumam a comer joio.

 

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