Monday, June 25, 2007

Desenvolvimento e reducionismos

Sempre tive preguiça desse papo de que as ciências modernas (como a biologia e a sociobiologia) são reducionistas e mecanicistas. Há uma infinidade de fenômenos que só passamos a compreender através dessa abordagem reducionista/mecanicista, compreensão que jamais teríamos alcançado de outra forma. Porém, a ciência ficou presa ao método, e também a um ideal de desenvolvimento onde o conhecimento em si atrai novos pesquisadores a cada ano, como a minhoca atrai os peixes. Avança-se na ciência por hábito, por profissão ou por mera curiosidade, nunca ou quase nunca colocando como prioridade a ética de duas perguntas simples: avançar para quê? Para onde?

A ciência tem impulsionado a técnica, e esta o nosso avanço predatório sobre o meio-ambiente. Assim, o mal do reducionismo não está na metodologia científica em si, mas no fato desta estar ilhada, desvinculada de um bom senso social, onde caberia decidir quais avanços são desejáveis, no sentido em que melhorarão não apenas o nosso conforto, mas principalmente nossa sobrevivência e dignidade, e quais avanços são supérfluos, dispensáveis, uma vez que tenhamos tomado a iniciativa de regular nossos avanços em benefício das gerações futuras.

O trecho a seguir complementa essa idéia:


A idéia de desenvolvimento continua ainda tragicamente subdesenvolvida, porque presa à racionalidade econômica. Essa idéia de desenvolvimento foi e é cega às riquezas culturais das sociedades arcaicas ou tradicionais, que só foram vistas através das lentes economistas e quantitativas. Ela reconheceu nessas culturas apenas idéias falsas, ignorância, superstições, sem imaginar que continham instituições profundas, saberes milenarmente acumulados, sabedorias de vida e valores éticos atrofiados entre nós. Fruto de uma racionalização ocidental-cêntrica, o desenvolvimento foi igualmente cego ao fato de que as culturas de nossas sociedades desenvolvidas comportam dentro delas, como todas as culturas, mas de formas diferentes, ao lado de verdades e virtudes profundas, idéias arbitrárias, mitos sem fundamentos (como a ilusão de termos chegado ao auge da racionalidade e de sermos os depositários exclusivos desta), cegueiras terríveis (como as do pensamento fragmentado, compartimentado, redutor e mecanicista).

Modificado de MORIN, E.; KERN, A.B. Terra Pátria. Porto Alegre: Sulina, 1995 apud BECKER, D.F. Sustentabilidade: Um novo (velho) paradigma de desenvolvimento regional. In: BECKER, D.F. (org.). Desenvolvimento Sustentável: Necessidade e/ou Possibilidade? Santa Cruz do Sul, EDUNISC, 2002. pp. 31-97.

E ainda:


Graças a seu caráter fluido e a seus objetivos humanistas, o termo desenvolvimento assimilou uma conotação positiva, de pré-julgamento favorável: ele seria em si um bem, pois "desenvolver-se" seria forçosamente seguir em uma direção ascendente, rumo ao mais e ao melhor. Aqui, a analogia com o desenvolvimento dos organismos biológicos aparece claramente: desenvolver é crescer, difundir potencialidades para atingir a maturidade.

Esta analogia, no entanto, é falsa e enganosa pois cada desenvolvimento biológico é a repetição de um desenvolvimento precedente inscrito geneticamente. É, portanto, o retorno cíclico de um passado, e não a construção inédita do futuro. Sob essas bases há uma ruptura com a noção "oficial" de desenvolvimento, aquela que vê o desenvolvimento sócio-econômico voltado necessariamente para a construção do futuro.

ALMEIDA, J. A problemática do desenvolvimento sustentável. In: BECKER, D.F. (org.). Desenvolvimento Sustentável: Necessidade e/ou Possibilidade? Santa Cruz do Sul, EDUNISC, 2002. pp. 21-29.

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