Friday, June 08, 2007

Livre-arbítrio

Penso que muitos filósofos filosofam de mais e vivem de menos. A discussão sobre o livre-arbítrio, por exemplo, é uma das mais belas e contenciosas distrações estéreis de que já ouvi falar. De um lado, o universo pode ser completamente mecanicista, toda causa desencadeando um efeito específico e previsível, tudo lógico e matematizável. De outro lado, pode haver espaço para o acaso, para espontaneidades sub-atômicas que - talvez - insiram no universo a possibilidade de múltiplos destinos, de histórias abertas a diferentes possibilidades; em outras palavras, a chance de sermos responsáveis por nossas próprias ações.

Como dúvida inicial, considero-a estéril porque, seja o universo 100% determinístico ou não, NÓS jamais saberemos qual neurônio vai disparar causalmente qual neurotransmissor, ou qual evento se seguirá a qual causa. A dúvida, portanto, é se existe ou não, DE VERDADE, essa coisa metafísica que se convencionou chamar livre-arbítrio. Ora, tenho dúvidas que me parecem bem mais interessantes. Por exemplo, se pensarmos que o consumo de combustíveis fósseis está aquecendo o planeta, e que nossa qualidade de vida e conforto respondem pela necessária desigualdade social, que misturada à falta de educação e oportunidades, junto ainda com o descaso oficial do governo que cobra impostos excessivos e é todo dia flagrado em espetáculos impunes de corrupção, tudo isso resulta na violência que vemos todos os dias, e que podemos esperar apenas piorar. Diante desse quadro, existe o livre-arbítrio de se fugir do sistema? Ainda que não fiquemos totalmente alheios aos seus efeitos, podemos ao menos agir diferente, queimar menos combustíveis, consumir menos luz, desperdiçar menos comida, exibir menos requinte e sofisticação, não exigir essa "classe especial" - que divide o mundo entre quem tem e pode e quem não tem e não pode - ?

Temos o livre-arbítrio para considerar que uma sala com sofás brancos e caros vale tanto quanto uma sala sem sofás, desde que haja cadeira para todos? Ou se não houver cadeiras, temos o livre-arbítrio para decidir que podemos nos sentar no chão, sem diminuir com isso nossa honra, e aproveitando do encontro apenas o que realmente interessa, ou seja, as pessoas?

Temos o livre-arbítrio para dizer que não precisamos de presentes nas datas comemorativas, e que não precisamos trocar de roupas ou aparelhos eletrônicos, consumindo algo mais novo e moderno, apenas para nos sentir melhores?

Temos livre-arbítrio para dizer ao governo que não queremos sua proteção, que preferimos não ter governo algum, ao menos para que ninguém venda as concessões públicas de radiodifusão para o pastor ou bispo ou senador que pagar mais? Ou que não nos interessa os contratos que fazem com as indústrias farmacêuticas e com as indústrias de comida industrializada e cheia de alimentos transgênicos, sem aviso, levando pouco a pouco a saúde que restava, isso quando a maioria das pessoas ainda sabia que saúde era esforço físico e amor, e não comprimidos e injeções? Que saúde é comer bem, e não refrigerantes cheios de açúcar, enlatados cheios de conservantes, engolir a comida por falta de tempo!... Quando escrevemos tudo isso já pensamos que nossos melhores amigos sabem todas essas coisas, mas vemos eles criarem seus filhos e repetir, contra sua vontade? contra algum livre-arbítrio? os mesmos erros que já acreditávamos remediados.

Que há algo podre no mundo já é sabido há milênios. O novo fedor, contudo, este que arde nas narinas que já aprenderam a distinguir-lhe o cheiro, é uma novidade que está no mundo há pouco mais de um século, e ainda não aprendemos a nos defender. Terá a indústria dado o golpe de misericórdia nessa quimera filosófica que chamamos livre-arbítrio?

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