Wednesday, June 06, 2007

Show de horrores cotidianos

Requiem para um sonho - EUA, 2000 - "Requiem for a dream"


Esse filme não é só mais um mergulho no mundo de drogados que se ferram, a exemplo de Christiane F, Trainspotting ou Kids. Paralelos aos delírios narcotizantes da cocaína, heroína e afins são apresentados vícios menos populares, como a eterna busca da auto-estima perdida, que se pretende inabalável pela idade, pelo excesso de peso e por uma vida metropolitana, sedentária e vazia. A grande sacada do filme é colocar lado a lado a síndrome de abstinência típica de viciados privados de suas drogas - e toda podridão que daí costuma resultar - e o desespero de uma senhora aparentemente idônea, que busca nos remédios uma forma de retornar à glória do passado, nem que seja numa única noite em um programa de TV, onde sonha em apresentar-se em seu melhor (antigo e estreito) vestido vermelho.

O filme reflete sobre diversas mazelas de nossa sociedade capitalista ocidental. O que temos em comum, a ponto de merecermos nos destacar da outra metade do mundo, são os tipos de sonhos que escolhemos, ou que acreditamos, sem poder falar propriamente de escolha. Sara, a personagem central do filme, seguiu sua vida com dignidade, até perder o marido e o afeto do filho, que se envolve pesadamente com drogas ilícitas. A mensagem central da trama podia até girar em torno do filho e da namorada que se vende em troca de drogas, como no velho Christiane F. Contudo, vemos que a perda do filho (um braço necrosado e amputado depois de repetidas aplicações de heroína) é bem menor que a da mãe (que acaba sendo submetida a uma lobotomia ?? depois de perder a razão devido a uma overdose de remédios para emagrecer).

Trocando em miúdos, não importa a idade, a classe social, o sexo ou a religião, TODOS temos um vazio que lutamos para ocupar, para dar sentido. Trata-se, no fundo, do sentido da vida. E o "sonho" ocidental exaustivamente repetido a cada 30 segundos pelos meios de comunicação de massa, os sonhos de sucesso, beleza e prazer, acabam funcionando como um tiro pela culatra, ao diminuir ainda mais aqueles que já sofriam o bastante por não terem tudo o que sempre sonharam.

Esta é uma das mensagens do filme: que o erro (do capitalismo) é fundamentar-se apenas na superexposição do lúdico, belo e perfeito, sem contabilizar a agressão psicológica que isso significa para o cidadão comum, ainda que passe despercebida. Poderíamos achar que só conhecemos uma ou outra pessoa que teve sua vida frustrada por abusos dessa natureza, mas observando bem, veremos que são milhares, que são quase todos os lares do país. Eu mesmo tenho parentes que investiram a vida toda numa casa bonita, algo de que se orgulhar, e que, chegado o momento da tão esperada "ascenção" social, perceberam apenas que o investimento material acabou por dispersar a família. Talvez a família teria se dispersado de qualquer forma, mas então, como se sentirá o pai ou a mãe solitários, em suas casas luxuosas, com os filhos distantes e ocupados, pensando que poderiam ter gasto tanto dinheiro para viajar, se divertir, dar churrascos, comprar presentes?

Requiem para um sonho é um soco no estômago que merece ser dado em todos os que estão passivos diante do mundo, todos que não se questionam os sonhos em nós inculcados, que não atentam para o verdadeiro sentido da vida.

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