Wednesday, August 15, 2007

Como prefácio ao próximo texto

"Nós mudamos de método. Tornamo-nos mais modestos em todas as coisas. Já não fazemos descender o homem do espírito, da divindade, colocamo-lo entre os animais. No nosso conceito é o animal mais forte, porque é o mais astuto: a sua espiritualidade é uma conseqüência disso. Por outro lado defendemo-nos contra uma vaidade que aqui também quereria levantar a voz: como se o homem tivesse sido o grande pensamento último da evolução animal. Não é de modo algum a coroa da criação; cada ser encontra-se junto a ele no mesmo grau de perfeição... E, pretendendo isto, vamos demasiado longe; o homem é, relativamente, o mais deficiente dos animais, o mais enfermiço, o que se extraviou dos seus instintos mais perigosamente, certo de que, com tudo isto, é também o animal "mais interessante!" - No que respeita aos animais, Descartes foi o primeiro que teve o admirável atrevimento de considerar o homem como "máquina": toda a nossa fisiologia se esforça em demonstrar essa proposição. Além do que, logicamente, não pomos já o homem de parte, como fazia Descartes: o que se concebe hoje do homem não vai mais além da sua concepção "maquinal". Noutro tempo concedia-se ao homem "o livre-arbítrio", como um dote de ordem superior: na atualidade arrebatamo-lhes até a vontade, no sentido de que já não é permitido entender por isso uma faculdade. A antiga palavra "vontade" não serve senão para designar uma resultante, uma espécie de reação individual, que necessariamente segue uma série de incentivos em parte contraditórios, em parte concordantes; - a vontade não "opera", não "move"... Antes via-se na consciência do homem, ou "espírito", a prova da sua origem mais elevada, da sua divindade; para "aperfeiçoar" o homem aconselhou-se-lhe a reconcentrar os seus sentidos em si mesmo, à maneira de tartaruga, a suprimir as relações com o mundo terrestre, a desprender-se do invólucro mortal: então nada ficava dele senão o essencial, o "espírito puro". Nisto também modificamos o nosso modo de pensar. A consciência, o "espírito" parecem-nos ser precisamente os sintomas de uma relativa imperfeição do organismo, como um ensaio, um tentame, um equívoco, um trabalho em que se gasta inutilmente muita força nervosa; - negamos que uma coisa qualquer se possa fazer com perfeição enquanto se executa ainda conscientemente. O "espírito puro" é uma pura tolice: se abstrairmos do sistema nervoso e dos sentidos o "invólucro mortal", "enganamo-nos no nosso cálculo", nada mais!..."

- Nietzsche, O Anticristo, XIV.

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