Monday, August 06, 2007

O rústico e o Messias no fim dos tempos

Apreciamos a vivacidade e a energia desse povo moreno e rústico, enquanto deixamos a preguiça crescer em sedentarismo, e definhamos, rememorando o bom passado e acreditando em uma vida pós-morte mais completa.

E se... ela não vier?

Esse é o maior dos dogmas, comum entre cristãos, islâmicos e judeus. Não por coincidência, as religiões predominantes no império ocidental, capitalista e modernizador.

Quando acordamos e vemos que o Deus da Igreja está mais perto do Inferno da História, torna-se possível entender também que o progresso traz em si muito desse cheiro de enxofre.

"Bons selvagens" pode ter sido uma alcunha exagerada, mas enquanto perspectiva não vejo outra direção.

Porém, só se pode ver essa realidade depois de um certo tempo fora desse sistema, fora da urbe capitalista, da metrópole. Só assim o corpo se reabilita, e os sentidos - afastados da vibração frenética de Hertz elétricos - relembra-se do ritmo ancestral, onde os instintos, as sensações e emoções evoluíram em harmonia, e ainda hoje o vemos no corpo forte e mente desanuviada dos rústicos e bons nativos que ainda restam.

Eles não têm educação - argumenta-se. A "educação" (ou conjunto de aprendizados formais para adaptar as massas à vida em metrópole) não tem nada a ver com a sabedoria - esta sim, reconhecendo finalmente o valor da tradição, da adaptação da espécie ao ambiente, do respeito ao corpo, à vida, à realidade, à natureza, muito aquém das especulações espiritualistas, apenas exigindo os valores mais simples, fundamentais e urgentes.

Por mais linhas que escreva, a batalha parece perdida. O bom tom manda não discutirmos religião, a sabãodoria prega a tradição pela tradição (num mundo inédito) e todos querem mais Volts, dólares e Ampères para não precisarem se mexer. Votam em deputados velhos e corrompidos e jamais se rebelam, por economia de energia, mas desperdiçam em todos os níveis, da lata de alumínio à garrafa plástica, do stand by à lâmpada incandescente e à janela pequena, das fotos para relembrar um passado que será logo decrepitude. O tempo é rápido, os tempos são outros, o tempo voa. Mas não paramos os ponteiros nem os esquecemos. Vamos ao fundo cantando vivas ao Senhor ou ao Mercado, e exercitando nossa inteligência apenas incipiente em cálculos inúteis, estéreis - quando tanto. Se vou ao fundo, também vou cantando, mas não a fantasmas maquiados ou a vertebrados gasosos, e sim como os 300 de Esparta que morreram fazendo o que faziam melhor - lutando.

Nossos dias como espécie estão contados, mas podem ser tão breves como uma hecatombe nuclear, ou tão longos como a meia-vida do Sol, ou o colapso térmico de um universo velho, bilhões de anos no porvir. Nada disso importa. O que importa é como respiramos, comemos e nos divertimos, como economizamos ao converter ouro em alegria, como deixaremos para os outros as belezas gratuitas, quanto lixo deixaremos para trás.

Se esse conhecimento tivesse a força de um Messias, quem sabe estaríamos melhor.

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