Monday, August 06, 2007

A Paixão Segundo Mim

Toda lembrança vista de longe tem algo de belo. Mas o que é a beleza, senão aquilo que nos desperta a paixão? E o que é a paixão? Quem a conhece pode tentar defini-la, mas só quem ainda não caiu em sua doce teia tentaria efetivamente fazê-lo.

Sendo impossível defini-la, posso apenas tentar recriar a atmosfera que a envolve, o substrato no qual suas lembranças gentilmente repousam:

> Estando o Sol alto e inclemente nos céus, ou dormente sob a linha perfumada do horizonte, permitindo-me apreciar a melodia geométrica das estrelas, o tom da paixão é dado pela pureza da atmosfera. A esta somam-se a inquietude de um espírito jovem e o tempo jamais medido, mal sentido, e só ligeiramente percebido em suas consonâncias astronômicas. O tempo distendido em capítulos nos quais meus movimentos correm suaves e precisos, inconscientes e sem peso, como planetas ao redor do abismo. A paixão se esconde nos detalhes e se escancara nas novidades.

Sob uma cachoeira crescem pequenas plantas, frágeis e inusitadas como algas, que guardarão de mim a lembrança de um bicho de pêlo à procura de um destino. Rio acima o desconhecido se revela: pessoas, tribos e pontos-de-vista. As cores do crepúsculo e principalmente a distância conferem à razão um pretexto para o repouso.

Um dia pedalei vários quilômetros para ver sobre mim o vôo de regresso de infinitos japiins para os seus ninhos. Nessa época eu ainda não questionava a utilidade das coisas; bastava-me que ardessem de um brilho próprio e atraente, único e real. Nessa época a liberdade era tudo, e o mundo, infinito.

Outro dia vi uma senhora tocando seu acordeón num casebre pouco iluminado, quando a tarde aos poucos se extinguia, e os acordes ocupavam o brilho pouco a pouco preenchido pelas sombras.

Sempre que o universo se apresentou aleatório eu tentei extrair daí necessidade, como nuvens que passam, companheiras e risonhas, ou como as folhas do açaí que reverberam o esplendor da tarde e nos prometem o seu vinho.

Outra vez foi a noite e a solidão das estrelas, refletindo do alto nossos egos ínfimos e desconcertados, perplexos ante a vastidão do nada. Mas ao meu redor a existência ainda pulsava, nas fogueiras do outro lado do rio, numa música que se fazia ouvir do outro lado da cidade, no brilho majestoso e pálido da Via Láctea num céu de cobalto, e principalmente na certeza de que minha jornada não é vã, nem solitária.

Mesmo naquela escuridão minha alma permanecia acesa; em busca de certezas, em busca de respostas, em busca de perguntas; em busca.

Porém, de todas essas buscas, nada se compara a um certo tom de azul de um céu translúcido numa manhã qualquer, acompanhado da respiração antiga da maior floresta do mundo e seus mistérios, suas larvas e aromas, sua bondade, perfeição e força - ah! que a história acabará por enterrar. Ainda assim, em mim restará a lembrança quente e sem nome...

0 Comments:

Post a Comment

Subscribe to Post Comments [Atom]

<< Home