Monday, August 06, 2007

Eles conseguiram acabar com o movimento hippie?

Aceito o fato de que os hippies nunca foram maioria. Nos anos 60, muito antes de soarem os alarmes do aquecimento global, eles já procuravam a comunhão do homem com a natureza e a substituição de valores morais impostos por outros, digamos, mais naturais. O movimento hippie não era o socialismo, nem o capitalismo. O que ele tentou foi justamente resgatar o ser humano das convulsões de suas próprias idéias, desses mares tempestuosos de sistemas teóricos falíveis e falidos, usando como bússola o que a natureza ­- a mãe da sabedoria - nos deu: nossos instintos.

Não sei bem o que houve de lá para cá. A televisão cresceu para se tornar a "primeira natureza" do homem moderno; derrubaram o socialismo, e com ele a esperança de um outro sistema; forjaram uma ciência humana onde o homem é apenas um produto do meio, moldável e adaptável a qualquer meio - ignorando o atrito entre esse meio e nossa natureza biológica original, imutável e imortal. Aquela natureza que os hippies tentaram recuperar. Asfaltaram o mundo. Impermeabilizaram o que era uno e vivo, tanto que as crianças de hoje desconhecem a natureza, chegando a temê-la, e assim já nascem talhadas a este mundo corrompido, incapazes de perceberem o que estamos perdendo com a degradação ambiental.

Hoje, que o mundo é um lugar mais populoso, mais sujo e violento que nos anos 60, hoje que somos mais informados, e teoricamente mais livres, ninguém mais se revolta, virtualmente ninguém desafia ou foge do sistema, não cuspimos na sua cara nem tentamos criar o novo.

A natureza humana resiste encurralada, assustada, na penumbra. Pergunta a si mesma se um dia será livre de novo, livre da imposição do consumo e da moda, da valorização do indivíduo pela sua roupa, carro e celular, livre das mentiras que aceitamos, dos impostos que pagamos, das máquinas, jornadas de trabalho, do calendário. Era isso que os hippies buscavam, e nunca estivemos tão distantes disso tudo quanto hoje. Não faz sentido que abandonemos a busca; temos um longo caminho de volta até lá atrás, onde nos perdemos, e aí sim, poderemos pensar em seguir adiante.

Porque aqui, aqui é um beco sem saída.




A sociologia deveria ser vista como uma forma de medicina, onde o mínimo de intervenção corresponde ao máximo de eficiência. Afinal, a sociedade nada mais é que um super-organismo, e falar de bem e mal, de moral, certo e errado, do ponto de vista social, é tão exato quanto definir - para o organismo individual - boa e má saúde.
A base de ambos, sociologia e medicina, se assenta sobre a biologia. Aí estão os parâmetros do que é o homem.

4 Comments:

At 2:56 PM , Blogger Hugo Ribeiro said...

Depois de um comentário no Conversa Afiada e este post, você conseguiu um leitor.

Inclusive peço permissão pra adicionar um link pro seu blog no meu. mais recente.

Um abraço.

 
At 9:08 PM , Blogger Chico Prosdócimi said...

Hummm, acho que vc tá exagerando e defendendo sua classe.

Não concordo que "nossa natureza biológica [seja] original, imutável e imortal". Original não quer dizer nada; assim como imortal. É imortal, mas e daí? (Lembrei aqui do Bachelard falando que adjetivos são características de textos do período pré-científico.)

Imutável também ela certamente não é. Nenhuma biologia existiria independente de um meio ambiente. A biologia, o comportamento, o metabolismo e tudo mais de um organismo estão diretamente relacionados com as condições do meio externo. Muda o meio, muda a taxa de transcrição de mRNAs em quase todos os tecidos. Regulação para produzir homeostase, meu caro.

Uma vez criei um termo quando escrevia umas viagens: essente, espécie + ambiente. Esta seria a verdadeira unidade em evolução (mudança através do tempo). É uma idéia boa, não?

 
At 10:47 AM , Blogger Rodrigo said...

Oi Hugo, obrigado pelo link, são sempre bem-vindos!

Chico, natureza humana original, sim, porque segundo o Fukuyama (de "Nosso Futuro Pós-humano"), daqui a pouco os ricos vão estar mudando os genes para criar filhos melhores (como em Gattaca). E imutável e imortal, bem, foram licenças poéticas, afinal, com toda mudança cultural que aconteceu na última dezena de milênios, nosso DNA ainda deve ser praticamente o mesmo.

O meio se soma ao DNA para produzir o fenótipo, ok. O meio muda, o fenótipo muda sempre da mesma forma, pois nossa natureza humana (o DNA) é imutável. Exemplo: um homem tem força. Se nascer rico, usará essa força para se divertir. Se nascer pobre, para trabalhar. Se miserável, para roubar. Generalizações à parte, essa tendência natural engloba toda a diversidade de mRNAs passíveis de serem transcritos. Por isso, natureza imutável.

Imortal: não quer dizer nada? Ora, Chico, seja mais poético!

Nunca quis escrever textos cientificamente impecáveis, e sim textos que capturassem o leitor através de imagens...

[]s!

 
At 7:19 AM , Blogger Rodrigo said...

Essente! Pode ser um nome a mais, mas não consigo enxergar isso como uma "unidade"...

 

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