Saturday, August 18, 2007

Da época em que guaraná tinha rolha e sua avó era gostosa

O bloqueio. O muro sobre o qual precisamos pular para chegar do outro lado. Mas que muro é este? A um certo momento não podemos falar o que pensamos, sob a certeza de que não atingiremos, assim, nossos objetivos. Então surge um bloqueio, porque instantes antes tentávamos nos concentrar num determinado aspecto, até então não percebido, da intrincada teia da realidade.

O vento sopra sobre este muro, e traz palavras que carregam a vida de... sentido? Será? Duvidar é sempre a melhor resposta. Claro que, com o tempo, você aprende do que duvidar e do que duvidar menos, e isto é o conhecimento. Para subir o muro e atravessá-lo é preciso um conhecimento do muro, como qualquer escalador pode testemunhar.

O que é o muro eu explico depois. Por hora direi que o vento traz, sim, algum sentido. Talvez seja melhor do que se não ventasse. Isso se fosse quente, etc. Então, o mundo tem um sentido. Uns chamam de realidade, outros de Gaia, alguns de Deus e os filósofos escrevem tratados criando sistemas para explicar o que no começo era até simples.

Não é preciso "ler os filósofos". Abomino a idéia de um curso de filosofia. Deve-se ler as coisas em ordem, e só. Cada pessoa tem uma ordem diferente. Só devemos ler o que gostamos. Depois dos romances policiais, contos de terror, histórias em quadrinhos, não necessariamente nessa ordem, Alguns filósofos, aliás vários. E também os grandes poetas, os donos da oratória precisa, humana e profunda, Dostoievski, O Vermelho e o Negro, Márquez. Há filósofos que podem ter mudado o pensamento de uma época para serem depois refutados tão brilhantemente séculos depois, que o golpe não chega a ser uma prova em contrário, mas apenas um enxotamento ao descrédito e desinteresse.

O muro é justamente constituído desse tipo de coisa. Informação demais. Só há uma coisa importante sobre a qual escrever, e o I Ching, a Bíblia, Martin Buber e Raul Seixas já fizeram isso muito bem - ainda que cada um à sua maneira - o resto é entretenimento. O muro, para ser ao menos orgânico, deve se constituir de raízes e lianas confusas, emaranhadas, mas podáveis. Um terçado intelectual dá conta do recado, mas para construí-lo é preciso ler os livros certos. Ciência e Filosofia. Religião apenas confunde, camufla as verdadeiras perguntas, esconde e ofende o espírito humano natural, inquieto e curioso, insaciável. De qualquer forma, ninguém chega a respostas, não existem respostas, apenas a religião dá o conforto que as mentes menos vigorosas acham mais cômodo. E quando pensamos que meio mundo segue bíblias inatacáveis, bem, a conversa muda de figura.

O cerne do problema, na minha opinião, está no que chamamos de realidade. Para ser categórico, ou talvez didático, imaginemos três tipos de pensamento: 1) aquele no qual a realidade é matéria, pode ser sentida, é compartilhada por todos os humanos dotados de razão, e mesmo que existam bruxas, por hora é o menor dos nossos problemas, 2) aquele no qual existe uma realidade invisível que é tão ou mais importante que a realidade concebida em (1), e 3) aquele no qual o nada e a realidade são a mesma coisa, que tanto faz, que não existe sentido - a intoxicação filosófica da modernidade, chamada niilismo. Observo com tristeza que (3) tem se tornado prática corriqueira entre a classe "intelectualizada" deste país. Russell, um dos maiores matemáticos e filósofos do século XX, escreveu a esse respeito em seu ensaio Sobre o cinismo da juventude (ou qualquer coisa parecida), publicado no livro O Elogio ao Ócio. Ali o pensador demonstra como uma sociedade idealizada (e porque mais trabalharíamos, se não para melhorar o mundo em direção a algum ideal?) só pode ser justa e agradável se enveredarmos pelo pensamento, ou antes sentimento, explicado em (1).

Discordo do filósofo que disse que qualquer filosofia é ou pode ser tão boa quanto qualquer outra. Como espécie, já existiu um imperativo biológico que nos aconselhava preservar-nos. Como intelectuais, a disputa dos memes só pode ser enfrentada com um tipo de raciocínio positivo, superior, melhor, do que seja entendido como necessidade humana. Não o consumo, a propaganda, a economia. Sim os ruídos do corpo, a sabedoria no consumo do tempo, o lazer. Nascemos para nos divertir, mas trabalhamos para pagar um carro por preguiça de pegar ônibus. Estranha essa sociedade e seus muros.

Só podemos curar a doença de Gaia, curar nossa própria insanidade crescente, quando a tratarmos como um super-organismo biológico, do qual a biosfera e o resto, nós e nossas ações somos parte. Principalmente quando o nosso muro, aquele do início do texto, puder ser devidamente podado. Somos a geração da informação, e fileiras e outras fileiras de jovens não acessam nada disso. A maioria, por não poder; os que podem não querem; e os que querem são justamente aqueles que agravam a doença de Gaia. Realmente, a bondade e a esperança, o pensamento otimista, só são comuns – são até mais naturais - entre os menos favorecidos. Vejo uns poucos destes que têm boas intenções, e quem sabe sua origem social poderia torná-los mais sensíveis ao que deveria ser feito - mas raramente têm acesso à posição em que podem fazer algo. Ou são barrados ou ficam na porta, algo boquiabertos, sem saber o que fazer ou falar.

Senão nas construções de nosso saber, busquemos qualidade em sua fonte. Senão nos artigos, livros e idéias publicadas, na natureza da qual extraímos o que sabemos. O muro só é transposto quando olhamos para dentro, e isso vale tanto para o indivíduo como para a espécie. Mas estamos ainda à espera da parteira para dar à luz esta necessidade moral.

Algumas pessoas nascem bem e vivem a falar mal do mundo, como se estudassem para resolver os problemas dos outros antes dos seus próprios. E existem pessoas que nascem "mal" e estão por aí, sempre a sorrir. Pra que tanta filosofia, afinal?

Rodrigo de Loyola Dias
Manaus,
17 de agosto de 2007, 21:34h, 28,3ºC, 77% UMIDADE RELATIVA DO AR
Revisão na manhã seguinte, 12:25h, 29,3ºC, 71% URA

1 Comments:

At 2:59 PM , Blogger Maria José said...

Filhão,
li seu texto e gostei muito.
É fantástico ter um filhão como você.
Este texto é muito inteligente, parabéns!
Beijos.

 

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