Wednesday, August 15, 2007

Das Gersianas ao estômago

A civilização é o processo pelo qual subtraímos nossas habilidades naturais em troca de liberdade.

De um lado da escala temos povos nômades, ágrafos, incapazes de fabricar ferramentas de metal ou de resistir por muito tempo às pressões que nossa civilização numerosa e melhor equipada é capaz de exercer.

Do outro lado estamos nós, essa civilização que herdou conhecimentos de povos tão distintos quanto os gregos, árabes, chineses, africanos e até mesmo os nômades do parágrafo anterior. Somos a sociedade da cultura múltipla, escrita, da transmissão impessoal de cultura.

Todos estamos igualmente bem adaptados aos nossos diferentes ambientes, é o que parece. O nômade planta sua macaxeira, come sua caça, seu peixe; o civilizado bate cartão, aperta parafusos, escreve memorandos. O primeiro volta à maloca e encontra sua família, sua tribo, seu mundo. O último volta pra casa e encontra esposa e filhos, a TV ligada, vizinhos e estranhos. O fato do primeiro existir assim há milhões de anos (antes mesmo do Homo sapiens, podemos abstrair) e o último ter cerca de dez mil anos, esse fato parece não chocar ninguém. E daí? me perguntam. Não estamos muito melhor agora? Dependendo de onde você nasceu, sim. Dependendo, não. Dado o grau de miséria, superpopulação, doenças, fome, insalubridades e fala de perspectivas em que vive parte considerável da humanidade, o nômade é um nobre. Tem terra para caçar e rios limpos onde beber, banhar-se e pescar. Tem todas as riquezas da natureza ao seu alcance, de onde pode tirar as paredes e o teto de sua casa, as cordas e fibras de suas roupas e ferramentas, a comida de sua família, a isca para o peixe, os cantos das aves para seus ouvidos, exemplos para a sua sabedoria.

O homem urbano tem o quê? Um governo que o protege. O contrato social foi firmado há muito tempo por nossos antepassados distantes, e hoje não temos mais como decliná-lo, mesmo se quiséssemos. Sabedor disso, o governo nos protege como bem entende, ou melhor, mal. Tudo isso, bem entendido, depende de onde você nasceu. Se você é filho de um proletário, ou um desempregado, não estará lendo isso, estará aprendendo que a polícia bate primeiro e pergunta depois. Mas se suas roupas mostram sua boa origem, a conversa é outra, porque você pode pagar por esse "conforto".

Já ouvi dizer que é a Lei de Gérson que emperra o país. Diz-se isso muito na mídia, e entre as bocas dos abastados. Dizem ainda que se as pessoas não fizessem questão de levar vantagem em tudo, o país finalmente iria "para a frente" (onde, para cada um de nós, é este "para a frente"?).

Não sei, mas parece que a Lei de Gérson é algo como uma constante humana, um instinto que floresce sempre que não há um governo super-protetor. Na Europa ninguém é assim, dizem, ou poucos são, mas não será porque lá eles acabaram com a pobreza? Devem ter exterminado seus pobres, ou os deportaram ou esconderam; ou os enriqueceram, exportando a pobreza através da colonização física e cultural de meio mundo, conseguindo acordos comerciais predatórios, comprando ouro e minérios a preço de banana, café a preço de sal, alumínio a preço de bauxita, açúcar a preço de nada. Assim fica fácil não ver a Lei de Gérson. Mas e aqui, ao sul do Equador? Ainda precisamos comer, e ainda nos sugam e nos montam como há quinhentos anos; parece que vai melhorar?

Quando o chimpanzé mais forte consegue uma comida muito boa, ele usa sua força para impedir que os outros comam, e assim mantém sua força, sua posição. A um cacique é permitido ter três esposas, desde que ele possa alimentá-las. Se coloco ambos, animal chimpanzé e animal humano, lado a lado, é porque os dois repetem hábitos (supra-)milenares. Já vejo a birra dos jovens (e velhos) estudantes das ciências humanas: o humano é muito diferente do animal! Temos cultura! Temos livre-arbítrio! Ora, poder taxar de mal o abuso de poder não o elimina. Os donos do mundo, do petróleo, da televisão, das construtoras, têm tantas mulheres (ou homens) quanto desejam, e usam sua força para impedir que os outros cresçam e os ameacem. Estamos no ramo evolutivo dos grandes macacos, e toda nossa cultura nada mais é que a descrição de tudo que evoluiu aí. Ou seja, somos instinto. Usamos da cultura para nos comunicar, para viabilizar os instintos que a civilização afasta como medida de auto-proteção, ou apenas para divertir e satisfazer esse mesmo instinto que é, em grande parte, lúdico.

Mas voltando à Lei de Gérson: talvez seja a descrição de uma parte da nossa natureza, daquela parte que busca sobreviver em meio aos mais fortes, que precisa tirar vantagem sob o risco de não lhe restar nada.

Aprende-se muito com isso. Aprendemos, em algum ponto da vida, que devemos ser espertos o bastante para sobreviver. Pois os outros querem ser espertos; nós precisamos ser mais espertos.

Quando o Governo de um país favorece os ricos de dentro e de fora e espezinha os pobres que o carregam nas costas, a Lei de Gérson é apenas Lei da Sobrevivência. Não se trata de querer levar vantagem em tudo, mas de beneficiar-se daqueles que parecem já mais beneficiados que você. É claro que, aos olhos desses já beneficiados, todo pobre acaba se assemelhando a alguém que irá querer roubá-lo. Conheci muitos pobres que assustariam e afastariam meus amigos abastados, que vivem em seu mundo de berço sem fazer muita questão de pularem as cercas. Essas pessoas que eu conheci inúmeras vezes se beneficiaram, e se mostraram extremamente gratas, apenas em troca de uma conversação agradável. Até disso precisam. Conversa distinta, contato com um mundo novo, conhecimento. E sequer isso se tem o costume de dar.

As habilidades naturais dos povos nômades não eram só caçar e pescar. Sabiam, e ainda sabem, olhar um homem nos olhos e definir logo de que estirpe é. Esses povos dominam melhor a natureza do homem, pois ainda vivem dentro dela. Não vêem televisão todos os dias, não seguem a moda de decoração da novela, nem compram calças ou óculos iguais aos do filme. Têm ainda uma riqueza imensa para perder tempo com o consumo. Sabem definir as regras do jogo da esperteza, algo que fere a índole sensível dessa gentalha acostumada a viver de favores, ostentação e conforto. Apenas por isso a negociação entre governo e índios é delicada. Fôssemos todos sábios, daquele tipo oriental que vive talvez dentro de um barril, e nosso interesse seria mesmo a conservação, e não é difícil admitir que Terras Indígenas sobre toda a Amazônia, com uma política firme de fiscalização do que sai delas, seria a melhor forma de conservar o que apenas apregoamos.

Defende-se, corrobora-se, matam e morrem por uma civilização do privilégio de poucos, do conforto e da liberdade do petróleo, enquanto a maioria se vira como pode. Viva o Rei! Viva o Rei! Viva o Rei! Eu é que vou andando, que minha barriga já ronca...

2 Comments:

At 8:02 PM , Blogger Prós said...

À exceção de um comentário sobre a Lei de Gérson, não consegui ver muita interligação do seu com o meu texto.

Resumindo, basicamente, parece que ficamos assim:
1) Eu acho que o problema maior é de desigualdade interna: rico brasileiro X pobre brasileiro.
2) Vc acha que o maior problema é de desigualdade externa: europeu médio, brasileiro médio.

Ainda acho que resolver (1) é a melhor saída, tanto por ser mais fácil (depende só de nós) quanto por ser um passo intermediário para chegar em (2), passo também imprescindível.

 
At 7:28 PM , Blogger Rodrigo said...

Não sei de onde você tirou isso. O problema maior do Brasil é de desigualdade sim, interna. O que justamente eu NÃO acho é que deveríamos ser tão ricos quanto os europeus (ou ricos no sentido em que eles são ricos). Resolver 1 é a saída sim, mas de fácil não tem nada, até porque quem manda aqui dentro até hoje são eles, aliados à nossa elite burra que prefere babar os ovos deles que construir algo aqui dentro.

 

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