Sunday, November 18, 2007

Cortando o asfalto

Quatro rapazes de Liverpool mudaram a história quando conheceram este quinto inglês chamado Bob Dylan. Dizem que este lhes apresentou uma droga cujo nome não deve ser dito.

Muito tempo depois um outro jovem, do outro lado do mundo, cortava as ruas da sua cidade com seus patins de gelo, procurando se esquivar das hordas de homens bons e justos que andavam armados de porretes, procurando acertar quem os contrariasse.

Este jovem encontrou, durante suas perambulações pela cidade, um pouco daquela mesma droga recreativa que teria mudado a história do século XX, a partir das primeiras experiências de quatro garotos de Liverpool. Mas ali não era Liverpool, nem as coisas eram mais tão fáceis.

Apenas a droga não funcionaria, a não ser que ele encontrasse um pedaço de papel fino o bastante para enrolá-la como em um cigarro, mas não sabia onde procurar. Tentou primeiro num bar onde costumavam ir os que se embebedavam até espancarem suas esposas, filhos e filhas, mas não encontrou o que procurava. Disseram-lhe que procurasse a loja de artigos finos na próxima rua, e seus patins cortaram o asfalto até lá.

Percebeu que se tratava de uma rua sem saída, e as hordas de homens bons e justos vagavam insalubres ao redor. Tentou então uma galeria, também de artigos finos, mas não corria mais sobre seus patins por medo de cortar os tapetes caros, na certa importados, que ornavam o piso interior. Pisando pé ante pé (não tirou os patins, pois isso prejudicaria uma eventual e necessária fuga, caso o descobrissem), reparou como um grupo de senhoras ricas e gordas - lentas a olhar as vitrines, por mais que já levassem no corpo mais roupas e penduricalhos que os exibidos nas prateleiras - com seus saltos altos e pontiagudos, deixavam um rastro de furos e rasgões nos delicados tapetes, mas ninguém parecia notar. Confuso, entrou logo num recinto onde pensou que encontraria o que buscava.

Uma senhorita elegante, porém bela, perguntou-lhe o que desejava, mas suas palavras foram proferidas num outro idioma, e ele pôde entender porque uma vendedora só poderia perguntar a quem entrasse em seu estabelecimento o que este desejava. Ele esboçou algumas palavras no idioma estranho, que conhecia apenas dos noticiários, mas preferiu comunicar-se mostrando na prateleira o produto que desejava.

- São 99 dinheiros - redargüiu a moça, com um sorriso talvez de quem não desconfiasse que ele precisaria trabalhar um mês inteiro para receber aquele dinheiro, e ainda assim o gastaria em não conseguir suprir suas necessidades básicas insatisfeitas.

Com o leve pacote entre os dedos, hesitou por um instante, olhando de relance para a moça, que já olhava nervosa para o segurança que assomava à porta. Não poderia devolver o produto, pois quem teria dinheiro para comprar fumo, e não o teria para comprar papel? A não ser que...

Desesperado, tentou fugir pela janela, mas caiu num barril repleto de algum líquido inflamável - uma armadilha para indivíduos da sua laia. Atearam-lhe fogo com a naturalidade de quem assa uma coxinha no microondas, assim ao menos ele não causaria mais estragos nos tapetes finos da galeria. É verdade que as dondocas da clientela já os estragavam até mais, mas ao menos elas consumiam.

O fogo ardeu e ardeu, enquanto seus amigos patinavam livres pelas ruas sem desconfiar que ele já não mais era, sempre atentos às hordas de homens bons e justos, que jamais dariam trégua na eterna guerra dos que muito têm contra os que apenas precisam...

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