Sunday, May 18, 2008

Vocês brancos não têm alma

O óleo fritava os pastéis que não paravam de sair, enchendo o estabelecimento com aquele cheiro seu típico. "Me vê dois de carne, por gentileza?" solicitou um senhor distinto, de terno escuro, cabelo grisalho indicando talvez a serenidade que esperamos das pessoas de mais idade. Um jovem alto e esguio ia passando, camisa vermelha desbotada e algo suja, bermudão gasto e tênis idem, pedindo moedas para completar talvez uma refeição ou seus hedonismos particulares. "Me vê uma moedinha de cinqüenta centavos?" ele solicitou, também naquele tom educado, típico daquela metrópole das aparências. Sim, eu tinha uma moeda dessas no meu bolso, filha única do troco dos meus quatro pastéis, e gentilmente a entreguei ao rapaz que, acaso não precisasse, eu precisava ainda menos. Fosse uma moeda de um real, teria ficado ainda mais contente com meu gesto de desprendimento, tão feliz estava, e acaso existisse moeda de dois reais, também teria entregue ao rapaz a quantia descomunal. Todos sabemos que dois reais é mesmo muito dinheiro. Enquanto isso, no décimo andar do mesmo prédio, os filhos do distinto senhor vestido de preto deviam estar cheirando cocaína para matar o tempo que para eles não tinha sentido algum que não fosse o de consumir o que fosse chique; jamais tiveram porque trabalhar.

O rapaz se foi e o distinto cavalheiro dividiu comigo seus pensamentos: "por que não vai trabalhar um rapaz desses, forte assim?" Olhei-o nos olhos, sem saber ainda que era apenas uma questão retórica, dessas vazias como as mentes que se destróem cheirando pó semanalmente. "Então desemprego é algo que não existe?", perguntei. "Ele devia ir lavar carros, tanto moço por aí lavando carros, ganhando seu trocado... um rapaz forte desses", ele insistiu, dessa vez olhando para o jovem - esse sim, razoavelmente forte - que trabalhava do outro lado do balcão. "Fica aí, pedindo dinheiro, um absurdo!" protestou. Como ele se dirigira a mim da primeira e dessa última vez, respondi: "Você não precisa dar moedas, mas se ele pede é porque tem quem dê".

O senhor até então distinto assumiu um ar que teria caído bem aos piores meliantes temidos pelo povo e odiados pela gente de bem. Movendo o corpo como quem se prepara para atacar um oponente, disse: "cada um tem um ponto de vista, você tem o seu e eu tenho o meu". "Trabalha quem quer", eu disse ao rapaz atento do outro lado do balcão, "se o cara ganha mais pedindo do que trabalhando, claro que ele vai pedir". "Não quero saber o seu ponto de vista", esbravejou o senhor trajado tão dignamente. Devo confessar que nessa hora a minha felicidade inicial esteve a ponto de dissolver-se, como nessas ocasiões em que perdemos um pouco a fé no ser humano. "Estou falando é com ele", respondi, apontando para o rapaz trabalhador um pouco mais forte que o outro franzino motivo da discórdia. Como mastigava meu último bocado, fiz para o rapaz da pastelaria um muxoxo na direção do senhor ranzinza que esbravejava já em murmúrios solitários, e o olhar daquele me deu razão em silêncio (ou foi essa a minha impressão), após o que acenei levemente com a cabeça e saí.

No décimo andar, os jovens que não trabalham e não pedem cheiraram cocaína até o amanhecer e perderam a aula da faculdade pública em que ocupam vagas para não absorver conhecimento algum. Mas o problema da sociedade, todos sabemos, são essas almas vagantes e aventureiras que preferem pedir que lavar os carros dos senhores de paletós escuros, cujos filhos ignoram e temem a realidade, e que amanhã regerão o país sem querer ouvir a opinião dos outros e ensinando que os jovens aventureiros e pedinchões deveriam estar lavando seus carros para que, aí sim, o mundo fosse um lugar melhor.

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