Thursday, April 17, 2008

A TV é uma droga

A química moderna propiciou à humanidade uma nova onda de drogas que veio substituir as milenares pajelanças que parecem sempre ter acompanhado a humanidade. O novo mercado das drogas, assim como o antigo, é dividido entre drogas lícitas e ilícitas - divisão com razões históricas mais gritantes que as de saúde ou ordem social. Basta olharmos para os números das mortes causadas pelo álcool e pelo cigarro, drogas lícitas, e compará-los com os efeitos colaterais de drogas ilícitas como a maconha usada ocasionalmente. Talvez a maconha cause câncer na mesma quantidade que o cigarro, mas pouquíssimas pessoas fumam dois maços de maconha por dia. E o comportamento do usuário tende a ser o oposto do comportamento de quem bebe; este procura acelerar mais o carro, enquanto aquele tende a ir mais devagar; este procura conversar e brigar, aquele procura atividades mais introspectivas. Uma pesquisa recente na Inglaterra colocou a maconha no mesmo grupo dos hormônios esteróides e antidepressivos. Considerando que boa parte da "civilização" toma no mínimo um remédio por mês, e são comuns armários de banheiro repletos de substâncias químicas, o termo "viciado em drogas" passa a ter uma conotação muito mais ampla do que "usuário de substâncias ilícitas".

Vejamos, a bela dama respeitada em seu círculo social se parece muito com outras tantas damas, que adora TV, tem dois celulares e mais de um carro na garagem. Ela tem lá os seus motivos para ter dois celulares, como quantos carros couberem em sua garagem, mas por hora falemos da TV. A dama diz que "não deixa de fazer nada por causa da TV". Gosta sim, mas não é viciada, argumenta.

O problema é saber onde termina o comportamento habitual e onde começa o vício. Talvez uma definição mais precisa seja: o que o tempo investido em algo nos dá de retorno, e à nossa família, sociedade e ambiente? Vivemos num mundo complexo e cheio de problemas; assistir TV para se informar traz à sociedade maior cultura e prosperidade, assistir TV para se entreter traz ao indivíduo maior paz de espírito. Então a questão do vício talvez seja: Quanta paz de espírito o brasileiro médio ainda exige ter, enquanto com a TV desligada teria uma vida familiar com mais diálogo, e todos os membros da família estariam livres para usar seu pensamento da maneira que achassem mais produtiva.

A primeira divisão na família surge pela TV. A TV ligada no ambiente doméstico obriga o jovem que não gosta de sua programação a ligar música, ou a sair de casa. A TV cria uma atmosfera, um quase-espaço, onde o interno está distante, imerso na cultura exógena ditada por pequenos grupos super-poderosos.

Hoje, com a internet e seus infinitos diretórios, blogs, fóruns de discussão, comunidades, jornais on-line com espaço para os comentários dos leitores e tudo que constitui a tão badalada Web 2.0, percebemos quão pobre é a velha e já nem tão saudosa TV. O conteúdo dos maiores jornais não poderia ser mais enviesado. As tramas das novelas não acrescenta nada à vida de ninguém, muito menos os "humorísticos" de péssima qualidade. Se as pessoas não tivessem TV (porque dificilmente conseguem deixá-la desligada - basta uma pessoa acender a besta para criar uma onda subliminar que contamina todo o ambiente do lar), acabariam se vendo obrigadas a conversar, ler ou pensar, todas atividades cada vez mais raras.

Não consigo pensar que a TV não seja uma droga, uma vez que como toda droga traz tranqüilidade, iluminação (qual a iluminação trazida pelo Big Brother? Talvez a de umas vinte velas, quando não estão mostrando cenas no escuro. E o que William Blake tinha a dizer sobre As Portas da Percepção?), como costuma também trazer dissidências familiares.

Todo mundo sabe que o problema do Brasil é a má qualidade de sua educação, mas quantos livros as pessoas pegam nas bibliotecas? E quantas horas passam assistindo TV?

Poderia falar em TV a cabo, ou na proposta da TV digital, mas duvido que seja diferente. Ante o lixo televisivo, a Internet vale ouro. Pena que os povos de língua inglesa sejam muito mais cultos do que nós, acho que 99% do conteúdo útil da internet deva estar em inglês. Mas quem está estudando inglês, se a TV já faz a dublagem por nós?

Eis mais um retrato da nossa era, queremos que todo o trabalho (exceto nossa especialidade) seja feito pelos outros.

Não tenho TV (mesmo nos dois anos em que morei sozinho e não tinha computador ou internet em casa - acho que li muito e cresci bastante assim). Se queremos reconstruir a sociedade em que vivemos, o primeiro passo é jogar a TV no lixo, e usar o tempo que surgirá para cuidar melhor do corpo e da mente.

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