Thursday, June 05, 2008

Nada ou quase nada

"Há em cada cidade uma tocha - o professor; e um extintor - o padre." - Victor Hugo.

Que falta faz o conhecimento! Quando converso com parentes que pensam e dizem que entre o crer e o não crer há apenas uma diferença de opinião, sinto pena deles. No ponto de vista deles a crença é a única opção correta, e sei que eles sentem pena de mim - prefeririam que eu também acreditasse. Se fossem evangélicos ou católicos temeriam que minha alma fosse arder no inferno. Mas como são espíritas, sentem apenas que eu terei que voltar à vida mais uma vez, na eterna ascenção espiritual que define a doutrina do espiritismo.

Mas o que haveria de lamentável nisso? Voltar à vida? Mais uma vez? Repetir os mesmos passos? Não sei se compreendo. Gosto demais da minha vida, gosto da aventura de poder conhecer o mundo, conhecer as pessoas, descobrir a natureza das coisas, da história, da ciência, do pensamento, da política. E se eu tivesse mesmo a oportunidade de reviver tudo isso, fosse essa repetição idêntica ou não, eu acharia ótimo! Sensacional!

Mas por que preciso definir logo a minha crença? Não basta viver com justiça, desejar o bem comum, trabalhar pelo que acredito correto e bom, tentar deixar o mundo melhor do que o encontrei? Se todos pensássemos assim, o mundo não seria um lugar maravilhoso? É claro que há pessoas e pessoas, umas com mais tendência para o bem do que outras, e é compreensível que queiramos mudar os outros, convertê-los aos nossos ideais. Mas, como dizia, que falta faz o conhecimento nesse processo! O problema da crença é se julgar correta antes de entender as alternativas. Muito das discussões éticas de nosso tempo estão atrasadas porque as pessoas não buscam o bem comum, mas o bem a partir de seus dogmas religiosos. Na questão do aborto, a vida da mãe - uma pessoa com um histórico de vida, sentimentos complexos, lembranças, pessoas que a amam, dores e alegrias - vale tanto quanto a vida de um amontoado microscópico de células - sem história, sem personalidade, em um certo ponto sem sistema nervoso, sem emoções, sem capacidade de sofrer, simplesmente indistinguível de um embrião de girino. Como matar algo tão simples poderia ser comparado a um assassinato, a não ser por pessoas tremendamente ignorantes?

E o tratamento dado até hoje aos homossexuais, como poderia ser diferente se as pessoas buscassem o conhecimento antes de tentar satisfazer seus deuses! O homossexualismo é uma parte da variação humana, e a verdade é que ninguém é igual a ninguém. Existe um medo enorme, infundado e até desumano de que o homossexualismo, se deixado à vontade, corromperia todas as crianças, até o ponto em que a família desapareceria, as pessoas não mais procriariam e toda a sociedade desmoronaria. Como podem ser tão ridículos! Ou, como é ridícula a ignorância. A compreensão da evolução biológica e dos instintos humanos torna evidente que os homossexuais nunca serão a totalidade da espécie. Não existe ameaça. O que existe é o sofrimento de milhões de pessoas ainda hoje assassinadas, torturadas, difamadas, envergonhadas, tendo que viver sua vida sexual escondidas, como se isso fosse um mero detalhe. Se assim fosse de fato, os homens e mulheres heterossexuais se casariam escondidos, e não com festas caríssimas. Mas apenas porque está escrito em um livro antiqüíssimo que o homossexualismo é errado, ainda hoje milhões de homossexuais sofrem devido à fé cega. Fé cega, faca amolada. O mesmo livro, diga-se de passagem, que condena à morte vários outros "pecados" hoje simplesmente ignorados, como trabalhar no sábado ou comer carne de porco.

Como faz falta o conhecimento! Pela falta de conhecimento científico a massa humana segue em frente acreditando que crer é uma virtude, ou que deixar de crer é apenas uma opinião como outra qualquer. Falham em reconhecer que a crença desaparece no exato instante em que se descobre como funciona. E essa descoberta não é "apenas uma opinião", mas a conseqüência natural de uma massa de evidências. Por exemplo, a exigência da fé, associada à imagem de um inferno em chamas para os infiéis, é apenas uma isca para propagar com mais eficiência essa fé fanática. A proibição do planejamento familiar (seja pela camisinha, pílula do dia seguinte ou aborto, seja por políticas públicas contra a superpopulação) é apenas uma artimanha - uma estratégia política - para aumentar o número de fiéis da seita. Quanto mais filhos, mais seguidores no futuro, mais lucro. Quem não enxerga os objetivos das grandes religiões não fez uma escolha ainda. Só podemos falar em escolha a partir do momento em que um número mínimo de fatos é conhecido. E para isso é preciso ler outros livros, dialogar com outras idéias - todas práticas "perigosas", senão pecados graves, dentro de uma religião que correria assim o risco de se extinguir.

Vejamos o espiritismo, uma tendência minoritária dentro do cristianismo, que se julga mais moderna, mais esclarecida, científica até. Uma pessoa se senta confortavelmente num ambiente propício (luzes, incensos, mantras, respeito e comoção da platéia). Após um ritual de auto-hipnose, começa a dizer com uma voz geralmente modificada aquilo que todos ali esperam ouvir - um espírito desencarnado. O que seria da religião sem seus rituais? Pergunte aos presentes com toda a honestidade: mas e se aquilo não for um espírito, apenas o próprio médium em outro estado de consciência? E se ele for apenas esquizofrênico? É claro que você os ofenderá, pois eles não estão ali para descobrir a verdade, mas para satisfazer sua necessidade de um espetáculo. Ou de consolo.

As pessoas que precisam da fé não são apenas fracas ou mal informadas, elas são humanas. A fé organizada é que é esperta o bastante para reconhecer esse ponto fraco e construir um império sobre ele - minando tudo que o ameace, como a educação científica, o pluralismo de idéias e o debate aberto. A maior motivação para alguém crer numa religião é encontrar justificativa (ou escapatória) para a morte. Mas não viveríamos melhor, com mais atenção e respeito, com mais reverência, se não houver nada depois dela? E o que seria do mundo sem a morte? A superpopulação já é um problema gigantesco, e graças a todos esses religiosos "misericordiosos" o problema tende a aumentar ainda mais. Todos sofremos ou sofreremos um dia pela morte de alguém muito querido, mas um dia é preciso erguer a cabeça e continuar a viver. Se nos reencontraremos ou não com esse alguém é uma boa questão, mas ainda não foi respondida. Enquanto esperamos para ver, podemos usar nosso tempo disponível para aprender um pouco mais sobre a natureza da homossexualidade, do instinto humano, do processo embrionário, da psicologia de massas, da história das religiões, da filosofia da ciência, das coisas que os candidatos às próximas eleições estão ou deveriam estar falando. Ao invés disso, a grande massa procura apenas se entreter, para depois abraçar uma religião qualquer que a livrará de todo mal, desde que acredite com força suficiente (quanto maior e mais duradouro o entretenimento, maior a força necessária - o pecado é o entretenimento, nem tanto a busca por conhecimento; afinal, o império religioso sabe muito bem que a busca pelo prazer é muito mais comum, e por isso mesmo uma alavanca para multidões de convertido$). Acreditar, eis a palavra-chave. E se outros sofrerem porque a opinião dos crentes foi injusta, infundada, parcial e intolerante, não há problema: basta nos arrependermos no momento que há de chegar. Mas o sofrimento já terá sido causado, e a injustiça quase nunca tem remédio. Não importa, é importante respeitar a religião alheia, mesmo que essa religião não respeite as pessoas. Como é?

Devemos mudar as coisas? Podemos mudá-las? Sabemos que as coisas mudam lentamente, pelo menos aqueles de nós que têm um interesse genuíno na história. E se as coisas mudam, é graças àqueles que preferem argumentar sobre os pressupostos de toda crença, do que deixar as coisas como estão. Os crentes tendem a achar que o mundo não muda, ou que sua religião é um porto seguro (não importa sobre a cabeça de quem caia a âncora). Mas há uma diferença entre não mudar nada e não mudar quase nada; uma diferença sutil, mas profunda. O problema é que é preciso mais conhecimento para enxergá-la do que a maioria de nós acha necessário ou tem disposição para adquirir.


Nota: Há tantos livros maravilhosos para ler, e os espíritas geralmente lêem apenas livros espíritas. Que tal ler "Deus, um delírio", de Richard Dawkins, só pra variar?

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