Wednesday, August 27, 2008

Eppur si muove

Como é estranho colocar as palavras por aqui. Sei que o vento vai continuar batendo, e as pessoas desinteressadas. Quem eu queria mudar não muda, não quer; quem eu queria ver aprender não sabe que não sabe.

A sabedoria é um longo e trabalhoso processo. Para alguns essa labuta é um prazer, mas para a maioria já deixou de ser. O mundo continua dando corda em seus relógios para que alguns poucos afortunados acordem tarde ganhando mais, enquanto o resto sustenta seu ritmo alucinado. Não poderiam desacelerar nem se quisessem, mas poderiam deixar de desejar? O desejo move o mundo, e só bilhões de budas não-desejosos podem nos conciliar?

Palavras, palavras vãs quando não cimentadas em atos; mas atos, atos sem palavra pensamento plano discussão, não são atos cegos?

A maioria pensa que já está no rumo certo, quando ainda nem olhou em volta. Adorar o Deus dos seus ancestrais, mesmo em guerra com os deuses dos demais? Sobra ainda espaço para o diálogo? O bem e o mal estão acertados? Como o descobriram tão rápido, se nem os profetas ainda tinham tanta certeza? Pra que pensar tanto, me perguntam, vamos viver, propõem. Mas viver hoje é trabalhar comprar consumir morrer? Sem dor mas com medo. Satisfação garantida mas sem arte. Trabalho sem sentido, vida sem direção, ou redemoinho adentro. Um furacão, um furacão é o que somos, e vamos destruindo bucolicamente a paisagem, erguendo prédios e parindo parindo parindo. Multipliquem os pães, porque Jesus já foi embora e hoje é preciso trabalhar. Mais comida, mais brinquedos caros, mais objetos desnecessários, mais algemas, mais lenha na fogueira, mais, muito mais. Números não nos impressionam mais, queremos potências de dez. Se não somos G8 somos BICR, se não somos terceiro mundo estamos em franco e acelerado processo de Avança Brasil. Os pretos na sarjeta, ora são pretos na sarjeta, não ouviste falar? Refugos inevitáveis do processo. Fuja! Recomponha-se. Faça uma caridade para aliviar sua mente burguesa. Dê uns trocados mas mantenha sua classe social. Você fala tão bem, sabe usar os argumentos mas desconhece as falácias que comete, tudo bem. Você é humano, e o principal é que faz parte de um plano maior, onde nada falha. Sem este plano maior ficaríamos loucos, a responsabilidade é só nossa? É demais! O erro existe? Não! O plano perfeito é certeza, ainda que invisível. Sim, ainda acreditamos no progresso, acreditamos na evolução moral das almas ao longo dos éons, não por esforço nosso é claro, posto que não sabemos atentar para os detalhes sutis da lógica que desvela a verdade, mas sabemos conversar sobre o que já sabemos, e como? Querem nos ensinar a duvidar? Mas a dúvida é tão instável, tão insegura, tão incômoda, tão.... duvidosa. Prefiro saber. Prefiro acreditar que sei. Assim poderei criar meus filhos com a pretensão desmesurada do religioso, da religião-ciência, religião-fato que engole realidades, que matou índios e hereges, que atira fogo na lógica e alimenta o esquecimento. Mostrem seus cães, hereges! E sobre eles ergueremos nossa torre prepotente de verdades! Sim, sabemos a verdade explicada pelos livros, aqueles livros apenas, não esses. Esses nunca li, nunca lerei, são pesados demais para meu pobre intelecto amador da verdade, mas preguiçoso de buscá-la. Ah, Hércules da informação, por que se oculta? Brainstormings de farinha, apenas. Mas o quê! Não discutamos para não atrapalhar o sono dos anjos. Não argumentemos para não pôr em xeque nossas certezas falhas frágeis inconsistentes. Há buracos, eu sei, mas no mais onde não os há? Uns se acham melhores que os outros, paremos! Vivamos apenas da alegria do viver, todos iguais, todos medíocres, todos enganados, manipulados, enjaulados bois no pasto pós-moderno dos senhores. Vivamos e não discutamos. Sigamos rolo-compressor à frente, cruel e indigente, selvagem impiedoso mas com tempo nos comerciais para irmos ao banheiro. Está tudo certo, Deus é grande, e enquanto estivermos do seu lado estaremos certos e seguros. Talvez mais que o desejável.

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