Thursday, July 24, 2008

Os funcionários e seus aviões

Miguel pegou o avião que o deixaria em duas horas na cidadezinha onde trabalha. De barco a viagem levaria quatro dias, e Miguel se considerava um homem ocupado. Gestor público, suas ações repercutiam na vida de muitas pessoas, mas Miguel não conhecia o princípio taoísta da não-ação (無為); Miguel não lia muito. Como gestor, acreditava que já sabia o que devia ser feito. Ora a realidade para ele era bem simples -- existe a lei, existem os que estão do lado da lei e os que estão do outro lado. A linha a separá-los sempre fora fina, e embora os ricaços precisassem sempre de bons advogados para situá-los do lado mais adequado (entre eles o certo e o errado são sempre mais relativos), com os pobres era mais fácil atuar. Miguel gostava de um trabalho simples, e a bem da verdade, nem o seu trabalho era assim tão simples. E justamente por ser um trabalho delicado, de grande responsabilidade, ele precisava ir logo de avião para chegar logo. Precisava trabalhar. No barco, gastaria quatro dias (incluindo um sábado e um domingo) convivendo com o populacho -- ora, o que aprenderia com eles que já não soubesse? Miguel era um engenheiro, tinha anos de estudos, não era, não fazia parte daquela gentalha. E Miguel sempre poderia ler a bordo do barco, se tivesse uma lista de coisas que realmente desejasse ler. Mas não tinha. O seu trabalho justificava que não lesse, consumia todo o tempo que ele queria para si, e não gastaria o restante com atividade tão insípida. Miguel dominava mal-mal o português, e entre a "gentalha" a bordo dos recreios que ele tanto odiava estavam vários índios poliglotas. Mas para que serve alguém poliglota nessas línguas indígenas? ele se perguntava. Nessas línguas inferiores? Miguel nunca havia lido como novas línguas tornam nosso raciocínio mais rico, nem tinha qualquer interesse pela lingüística, para saber que "língua inferior" era uma idéia no mínimo simplória. Era, como dissemos, um gestor público. E engenheiro. Miguel lia, sim. Procurava se atualizar na legislação da sua área e nos avanços de seu campo técnico. Também lia os jornais de vez em quando, só para não ficar muito por fora: sabia que aquilo era tão fictício, e portanto inútil, quanto as tramas novelescas. Mas não gostava de filosofia, nunca lera Nietzsche, nem conseguia entender porque alguém leria textos anteriores ao século XX.

Miguel era um personagem complexo. Tão complexo que nem ele mesmo conseguia se entender. Talvez, se soubesse das máximas "conhece-te a ti mesmo" e "nada em excesso" do templo grego de Apolo, isso ajudasse, quem sabe? Mas Miguel é uma metáfora, apenas. Uma metáfora para os milhares de gestores públicos deste país, ocupados demais para perderem tempo perto do seu povo ou da história antiga, gestores que cumprem a lei sempre que podem -- e não sempre que deveriam. Espere! Sempre que deveriam? Não! A lei é a lei, e deve ser cumprida sempre. Mesmo não sendo sempre cumprida. Um paradoxo, parece, um duplipensar orwelliano, mas para que insistir? Miguel não lera nineteen-eighty-four. Entendia que a lei devia ser cumprida; e se não fosse, não seria por sua inação. Agia sempre que podia, mesmo que isso representasse, em mais de 80% do tempo, agir contra os pobres, os menos culpados. Não conhecia a Desobediência Civil de Thoreau, nem o seu Walden, e qualquer desafio à Instituição o colocaria em risco de perder seu precioso cargo (colocaria mesmo? Miguel sabia que não, mas ocultava esse conhecimento da própria consciência). Conseguiria outro emprego?...

(Mas eis que o barco chegou ao porto. Em outra oportunidade continuo a descrever os dilemas que não chegam a passar pelas cabeças dos cupins que compõem o nosso Estado.)

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