Thursday, August 07, 2008

O alvorecer do homem

A espécie humana caminha para a afeminação, isso já não foi dito? Depois que as máquinas começaram a fazer todo o trabalho pesado - para quem as pudesse comprar - a característica viril mais marcante foi subjugada: a força física.

Na maior parte do reino animal os machos são os animais mais vistosos. Leões, touros, galos, pavões, cervos, macacos: os machos em geral não são apenas maiores, são também mais fortes, mais rápidos e mais coloridos. Quando é a fêmea quem escolhe, os machos não têm escolha a não ser capricharem naquilo que elas exigem.

O animal humano por muito tempo não foi diferente. Ainda hoje podemos observar a vaidade dos homens Xingu e Yanomami em seus trajes de festa, suas pinturas, máscaras e adereços variados. No Xingu, os homens lutam como forma de adquirir status social. Seu tamanho descomunal (para o típico homem urbano e moderno) é um assustador retrato do passado. Entre os Sateré-Mawé, os jovens que alcançam a idade adulta devem colocar as mãos numa cesta cheia de temíveis formigas tocandeiras, cuja picada dolorosíssima é a mais violenta entre os insetos conhecidos. A afeminação da espécie nada mais é que o abandono de práticas como essas, que valorizaram por milênios virtudes masculinas hoje desvalorizadas: força, coragem, habilidade, entre outras.

E não é que a mulher tenha deixado de escolher, apenas seu objeto de escolha hoje deixou de ser natural, deixou de ser intrínseco ao conjunto masculino - corpo e mente - para ser apenas um produto da posição do homem dentro da sociedade. Em outras palavras, dinheiro.

Os homens que competem pelas mulheres sabem o que apreciam nelas: seu charme, sua leveza; um jeito próprio, especial e cheiroso de mexer no cabelo, ou de caminhar, ou sorrir. Ou tudo isso junto. Apreciam também a volatilidade feminina, essa capacidade de se adaptarem ao recipiente que é o ego masculino, sua necessidade de se encontrarem no homem; de só ali, em seu protetor e parceiro, se realizarem, se encontrarem e serem mulheres. E, como disse o poeta, ser então toda amor. E é claro que esses homens ainda valorizam aqueles traços mais mundanos, medidas, circunferências, um belo corpo de violão, etc.

E as mulheres que gostam de homens, valorizam o quê? E os homens homossexuais, valorizam o mesmo que essas mulheres? Não, não vou traçar paralelos nem diagonais. Levaria muito tempo e correria o risco de ficar impreciso ou incompleto. Mais seguro dizer o que eu admiro num homem. Só posso lamentar o fato de os homens seguirem o que as mulheres sempre desejaram, ou seja, a capacidade de se adaptarem à sociedade local de modo a prover o sustento de uma prole outrora numerosa, durante no mínimo duas décadas. Hoje a prole não é mais tão numerosa, mas sua criação é tão custosa que o homem outrora bravo, forte e viril hoje chega à maturidade como um rascunho, uma sombra do que foram nossos antepassados. A especialização hoje necessária à sobrevivência torna os homens criaturas frágeis, dóceis, obedientes aos chefes, temerosos de perder o emprego, submissos à mulher, aos sogros, a Deus, à patria, à família, à vizinhança, ao que for. Sujeitos passivos, gentis, controlados (ainda que à força), obedientes às regras sociais e impossibilitados de se afirmarem como indivíduos únicos, diferentes, próprios, pessoais. Na possibilidade de darem errado como experiência, temem estender à esposa e aos filhos as conseqüências de tal erro, e por fim deixam de experimentar, de arriscar, enfim, de serem o que em outras ocasiões é o apogeu do macho.

A maior e mais valorosa característica masculina é a coragem. Antes da mídia de massas ser descoberta como uma poderosa ferramenta de manipulação popular (a esse respeito, sugiro que se conheça a obra do sociólogo francês Gustave Le Bon), antes disso poderíamos dizer que as pessoas tinham um nível "normal" de coragem. Hoje, muitas pessoas temem andar a esmo nas ruas das grandes cidades, apavoradas por um medo artificial, inventado e sustentado pela divulgação constante e incansável de desgraças, atentados, assaltos, homicídios, suicídios, tiroteios, chacinas, genocídios, perseguições, acidentes, e todo um universo de más notícias que - dizem - atenderia a uma necessidade inata do ser humano pelo que há de mais pérfido na natureza. A perda da coragem é uma espécie de doença neurótica que transforma os outrora homens em sujeitos passivos, cada vez mais satisfeitos com os muros e grades que nos protegem uns dos outros, e que cada vez menos nos permitem conhecer a sociedade em que vivemos, da qual dependemos, e que é cada vez mais um anexo obrigatório, um parasita que nos sustenta, uma espécie de gêmeo siamês - cuja tentativa de separação finalmente nos mataria. A sociedade a cada ano deixa de fazer sentido para se tornar algo com o que nos identificamos por pura falta de opção.

Outra mudança paulatina do mundo em que vivemos é a degradação ambiental, que longe de nos causar apenas "possíveis problemas futuros", já eliminou de boa parcela da humanidade a noção do que seja a biodiversidade. O homem moderno não teme apenas seus semelhantes urbanos, principalmente os menos favorecidos, teme ainda mais as outras espécies, as milhões de espécies que durante milênios serviram de inspiração à arte, à mitologia e à ciência, e que hoje são geralmente vistas com reações que variam do desdém ao nojo, do desinteresse ao mais genuíno e profundo medo. Se há uma característica masculina típica e nobre, é a de se interessar pela natureza ao seu redor e não temer o desconhecido. Característica, infelizmente, cada dia mais rara.

A força física, embora admirável, perde para a coragem por uma razão bastante simples: um homem fraco mas corajoso é capaz de obras mais elevadas que um homem forte, porém medroso. Ainda assim, a força física, por si só, não poderia ser ignorada quando tentamos traçar um retrato do homem ideal. Ainda que o homem mais forte do mundo seja um luxo desnecessário em qualquer época, ou apenas uma interessante curiosidade, o que observamos hoje é uma preocupação excessiva no acúmulo de bens, a tal ponto que não apenas a força física em geral é relegada a último plano, mas a própria saúde é deixada de lado. O homem moderno, assim como a mulher moderna, aceitam ajuda das máquinas não apenas quando desnecessária, mas mesmo quando prejudicial. Algum conselho para uma vida mais saudável poderia dizer "para subir um andar ou descer dois, use as escadas" - mas o que vemos é um hábito generalizado a mesmo descer um único andar pelo elevador. Isso, mais vidros elétricos nos carros, máquinas de lavar pratos, máquinas e mais máquinas não nos trouxeram, incrivelmente, àquele mundo onde teríamos mais descanso, mas pelo contrário, nos trouxeram a um mundo mais congestionado, mais poluído, onde precisamos trabalhar muito para pagar por tantas máquinas e contas, e ainda perdemos muito tempo nos trajetos de ida e volta; para no fim das contas vivermos mais preocupados, mais apressados, mais nervosos, mais fracos e com menos saúde. Vivemos mais anos, mas somos débeis sombras de guerreiros envelhecidos antes mesmo dos trinta anos. Nos rincões menos civilizados do globo vemos vários homens capazes de carregar uma carga considerável por uma longa distância, ou mesmo apenas carregar essa carga (para colocar um motor em um bote, por exemplo). Dizer que esse tipo de trabalho é inútil nos dias que correm é algo como admitir que seja saudável vivermos num mundo em que somos cada vez mais fracos (e burros); e as máquinas, mais fortes (e inteligentes). Não é preciso muita imaginação para enxergar onde isso pode parar.

A curiosidade também é um traço tipicamente masculino. As crianças dos dois sexos são bastante curiosas, mas à medida que as meninas são preparadas para cuidarem da futura família, é sugerido aos homens que sigam seus instintos investigadores. Talvez por herança histórica, talvez pela diferença biológica entre os sexos, o fato é que os maiores gênios de todos os tempos foram homens. Os maiores cientistas, os maiores pensadores, escritores, pintores, escultores, músicos, arquitetos, inventores, enfim, as maiores mentes de cada época e área de especialização foram homens. Enquanto suas irmãs e primas estavam sendo ensinadas a agir com graça e elegância para conseguirem um bom marido, as mentes desses homens estavam ocupadas em fugir das imposições há muito estabelecidas pela tradição, em buscar o novo. Talvez venha justamente dessa curiosidade a típica independência masculina. Ao contrário da mulher, que em geral só é completa quando junto ao homem que escolheu para seu, creio que não exagero ao dizer que o homem só é ele mesmo quando solitário, quando seus demônios voam livremente no universo da imaginação, criando e vibrando como música em infinitas e vagas variações, inúteis, despropositadas, e por isso mesmo tão carismáticas e apaixonantes como a boa arte deve ser.

Aliando a curiosidade e a coragem, temos o perfil do homem engenhoso, do tipo que conserta um encanamento, troca a resistência do chuveiro, improvisa uma churrasqueira, e coisas assim. No mundo moderno, é cada vez mais comum que paguemos a profissionais por serviços desse tipo, e com isso o homem deixa de lado esse belo traço próprio da espécie, a capacidade de improvisar, de moldar o próprio mundo ao invés de apenas trabalhar, de resolver por si só um quebra-cabeças e encontrar prazer na tarefa.

Há ainda uma tríade de sentimentos, ou antes ações, ou estados de espírito, que acredito serem tipicamente masculinos, e ao mesmo tempo parecem desvanecer largamente no mundo atual, que tanto valoriza a aparência sobre a essência, o possuir sobre o ser. São eles: a serenidade, o desprendimento e a permissividade.

Serenidade é quando tentamos não nos perturbar pelos acontecimentos externos. Isso inclui, por exemplo, tolerar o clima de uma região permitindo que o corpo se aclimate aos poucos; não se manifestar sobre uma condição que não podemos controlar, até que esta tenha atingido um limiar realmente insustentável; manter o humor estável o suficiente para que se possa tomar uma atitude racional mesmo em meio a uma tempestade. As mulheres são tipicamente mais levadas pelas próprias emoções; e o que por um lado pode ser útil à inteligência e à ação, muitas vezes avança para quadros mais instáveis e até histéricos. A serenidade é a calma antes da ação, a ponderação antes da decisão, a estabilidade frente às ondas, o porto seguro no mar agitado. Ainda que uma boa dose de descontrole seja lindamente aproveitada pelas artes, e até pela própria ciência, a serenidade é o traço masculino que impede que esse descontrole se transforme em frenesi, em excesso, e muitas vezes em perda.

Desprendimento, ou desapego, é a capacidade de reconhecer que as pessoas e os momentos que vivemos têm uma importância incomparável frente aos objetos, às posses e aos detalhes. Poucas coisas na vida realmente têm importância, e descobrir que coisas são essas é uma preocupação cada vez mais ignorada. Damos importância demais ao que não é importante, e fugimos ao principal. Aqui entram valores antigos, como a religião e seus preconceitos, idéias de culpa e pecado, salvação, vida após a morte e outros vícios; mas entram também valores modernos, como o consumo, a competição, a ostentação, o luxo e a riqueza; todos contribuindo igualmente para que percamos de vista o que realmente interessa. Hoje, nesta sociedade afeminada, podemos dizer que o desprendimento é um valor que falta igualmente a homens e mulheres, mas a história tem registro de vários homens que se tornaram eremitas, muitos deles sábios, assim como hoje na Amazônia podemos conhecer homens que vivem com muito pouco em meio à única riqueza que valorizam: o canto dos pássaros, o ar puro, a água limpa para nadar, frutos e peixes variados, entre outras tantas maravilhas naturais. Poucas mulheres abrem mão de criar uma família, mas muitos foram e são os homens que abrem mão dessa tarefa em busca de uma vida mais simples. Melhor fariam, talvez, se criassem uma família e passassem adiante os seus valores, que, acaso fossem compartilhados por uma parcela maior da humanidade, nos ensinaria a todos a deixar de lado a competição virulenta que causa esse mal-estar da modernidade.

Por fim, a permissividade se refere à tendência de permitir que a natureza siga seu curso, sem que queiramos interferir. Essa atitude parte da concepção de que a natureza é mais sábia que os homens, e portanto temos mais a aprender com sua observação do que ensinar pelas nossas ações. A permissividade consiste em deixar que os outros sejam felizes fazendo o que precisam, mesmo que isso nos cause por vezes um certo desconforto. Consiste em valorizar as coisas não apenas pelo que trazem a nós e aos nossos, mas principalmente pelo que trazem às outras pessoas, que por vezes sequer conhecemos. Aqui as mulheres tendem a ser mais egoístas que os homens, talvez porque as mulheres têm mais certeza de que os filhos que criam são mesmo seus, ao contrário do homem, que tem sempre de encarar o espectro de ser "o último a saber" e carregar na testa um símbolo do fracasso. Mas, pensando assim, se o fracasso é possível e mesmo nele podemos ser felizes, então talvez o fracasso não seja de todo ruim. Mais ainda, talvez seja apenas o fracasso, com toda a responsabilidade que nos retira dos ombros, que permita ao indivíduo viver a vida sem se sentir obrigado a mostrar aos outros do que é capaz. O fracasso seria, assim, liberdade. Daí o desprendimento e a permissividade andarem juntos, uma vez que só somos verdadeiramente livres quando não temos nada a perder.

À guisa de epílogo

Não lembro se foi Thoreau ou Emerson quem falava de uma época no futuro em que os homens seriam novamente exemplares, quando não mais poderiam olhar de soslaio, pelo canto dos olhos, e apenas poderiam olhar para alguém virando toda a cabeça na direção desejada. Se e quando este futuro chegar, os homens terão vencido as diversas camadas de preconceito e superficialidade que nos separam da verdade, e poderão abraçar sem medo a sua completude, serão seus próprios eus, nem mais, nem menos. Até lá, cabe a cada um de nós resgatar cada uma dessas virtudes aos poucos perdidas, mas que se encontram ainda nas fendas cavernosas da mente coletiva. Até lá, cabe a nós sermos o ideal que esperamos encontrar, e cabe a nós cobrar dos outros esse tipo de honra que a algazarra eletrônica da modernidade anseia por nos deixar esquecer. Enquanto isso, sejamos bravos, fortes, curiosos, hábeis, serenos, desapegados e permissivos. Sejamos, em uma palavra, homens.

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