Tuesday, August 12, 2008

A Verdade Absoluta

O que é, afinal, a Verdade Absoluta? Isso existe ou não? Se pensarmos que existe uma Verdade Absoluta, ou seja, uma Realidade alheia às vontades e convicções de cada um de nós, então cada opinião de cada pessoa pode corresponder ou não à Realidade; cada pessoa está mais certa ou mais errada que cada outra pessoa com opinião divergente. Ou ambas igualmente erradas. Se essa Realidade não existir, então só o que temos é a visão de cada um, e não faz sentido falar em certo e errado, apenas em interpretações.

Chamemos essas duas hipóteses de Verdade Absoluta (que existe uma Realidade única independente das nossas expectativas) e Relativismo Cultural (que a realidade é mutante e impalpável, variando conforme nossas crenças). Qual das duas é mais comum? Entre cientistas físicos (o que inclui a física, química e biologia) e também entre religiosos extremistas, parece haver o predomínio dos “Absolutistas”, ao passo que entre cientistas humanos e religiosos moderados, parece haver mais “Relativistas”.

A posição dos cientistas físicos busca evitar toda e qualquer forma de antropocentrismo: o mundo é o que é, não o que pensamos que seja. Toda a história das ciências parece avançar nesse sentido, derrubando as certezas antigas (e antropocêntricas) em favor de um universo indiferente a nós (vale notar que esse progresso se deu pela adoção das leis mais simples que explicam o maior número de fatos, o chamado princípio ou navalha de Occam). Já os religiosos fundamentalistas chegam à mesma posição, embora pelo caminho inverso: seu Deus é o único existente, suas Leis não são “descobertas”, mas “reveladas”, e são universais, mas apenas os seguidores da mesma religião conheceriam a Verdade.

Desnecessário dizer que a primeira visão (dos cientistas físicos) pode ser compartilhada por toda a humanidade, já que toda teoria científica está humildemente à espera da evidência contrária que fará o conhecimento avançar, independente da raça, sexo ou ideologia de quem apresente tal evidência. Ciência é isso. Entre os religiosos fundamentalistas não pode haver tal consenso, uma vez que suas “verdades” não são fundamentadas em nenhuma evidência palpável; e como as verdades de cada lado são defendidas com o mesmo furor cego, nenhum lado jamais se juntará aos outros.

Já o Relativismo é comumente defendido por vários cientistas humanos (embora por essa única razão eu prefira o termo “humanidades” ao invés de “ciências humanas”). Para vários desses profissionais (incluindo antropólogos, cientistas sociais, jornalistas e outros), parece não existir o conceito Verdade. Não quando investigado a fundo. Se uma sociedade crê numa coisa, e outra sociedade crê em outra, teríamos apenas um fenômeno de diversidade cultural, que deve sempre ser louvado, nunca questionado. No meu ponto de vista, os Relativistas confundem a beleza da diversidade cultural com a validade de pontos de vista discordantes.

É comum entre os que têm contato com povos indígenas, por exemplo, a idéia de que o conhecimento de mundo desses povos seja apenas diferente do nosso. Nem mais certo nem mais errado, em nenhum ponto. Como se fizessem parte de outro “reino” natural, suas explicações os satisfazem, então simplesmente não faria sentido questionarmos qual “reino” estaria correto quando há divergência. Relativistas parecem não se fazer esse tipo de pergunta. Por exemplo, a tribo indígena A diz que o Sol está mais distante da Terra do que a Lua, a tribo B diz que a Lua está mais distante, e a tribo C diz que ambos estão à mesma distância. Sabemos que a astronomia tem um modelo heliocêntrico, no qual a Terra e a Lua orbitam juntas em torno do Sol, e as distâncias são enormemente diferentes. Para que as tribos B ou C estejam corretas, um novo modelo deveria ser proposto que explicasse todos os fenômenos astronômicos que a teoria atual explica, das interações entre galáxias distantes ao movimento das marés, do fenômeno da paralaxe às instabilidades nas órbitas dos satélites. Enquanto esse modelo não for proposto, e o modelo atual explicar com satisfação e simplicidade os fenômenos que observamos, não temos porque achar que A, B e C estão igualmente corretos. Pior, independente da verdade, como podemos pensar seriamente que os três possam estar corretos ao mesmo tempo?

Um dos temores que as pessoas têm em relação à idéia de Verdade Absoluta parece ser o risco de alguém se apropriar dessa Verdade, como a Igreja fez entre incontáveis assassinatos à época da Inquisição. É fácil perceber como as pessoas têm um certa desconfiança, e mesmo temor, em relação à ciência. Mas não é isso que os “Absolutistas” propõem. A despeito de existir uma única Realidade, o que a ciência faz é se aproximar dela cada vez mais, sem nunca alcançá-la. Sabemos que nossa compreensão atual do mundo é mais completa do que o quadro que tínhamos no ano 1300. Mas também sabemos que esse quadro será sempre incompleto, por mais detalhes que adicionemos.

O que os animais fazem na obscuridade de seus ninhos depende da natureza deles, não da nossa. Da mesma maneira um cometa é visto em qualquer país sobre o qual passe, independente de que um decreto presidencial proíba a passagem de corpos celestes. Uma geada destrói plantações inteiras, independente do entendimento que façamos dela. E esse entendimento pode ser o mesmo que explica porque o gelo bóia, como o Ártico sustenta ursos polares e como construir geladeiras. Ou podemos ter conhecimentos místicos dissociados de outros campos do conhecimento. Em outras palavras: podemos escolher entre interpretação individual ou coletiva. A interpretação individual é a que os Relativistas respeitam, a interpretação coletiva é aquela buscada pelo consenso dos Absolutistas.

As mortes que uma guerra causa não são devolvidas. Não há espaço para interpretação nisso. Ou alguém morreu ou está vivo. Assim, o fato de não alcançarmos em definitivo a Verdade não significa que esta não exista. Para um biólogo ou um físico, essa sentença pode parecer tão óbvia que sequer mereça ser escrita. Mas as humanidades parecem circular ao redor de seus eruditos, dos grandes filósofos e seus complexos sistemas sem encontrar um porto seguro, sem encontrar um pensamento onde ancorar seu mundo. Aparentemente, o estudo de muitas teorias divergentes associado à ignorância científica comum à maior parte da população produz este resultado insensato: a Realidade é tida como menos relevante que as opiniões.

Talvez numa dimensão mais distante da realidade, no nível das partículas sub-atômicas, ou em velocidades próximas às da Luz, ou nas vizinhanças de um grande buraco negro, tudo isso deixe de fazer sentido. Mas na escala humana, nas dimensões médias do nosso planeta e nossas vidas, os fatos observados por uma pessoa são os mesmos fatos observados por outras pessoas. É verdade que as diferenças culturais atuam como filtros, dificultando o entendimento. E é precisamente aí que a diferença entre Absolutismo e Relativismo se torna relevante. Quando aceitamos diferentes pontos de vista sem questioná-los ou entendê-los, não estamos contribuindo em nada com o mundo. Se, pelo contrário, conversamos até estabelecer denominadores comuns ao entendimento, conceitos intercambiáveis, podemos manter nossa cultura, compreender a do outro e tornar ambas mais ricas.

E você, qual é a sua Verdade?

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