Saturday, February 27, 2010

Nunca precisamos tanto do taoísmo como agora

"Na própria origem do pensamento e sentimento chinês reside o princípio da polaridade, que não deve ser confundido com as idéias de oposição ou conflito. Nas metáforas de outras culturas, a luz está em luta com a escuridão, a vida com a morte, o bem com o mal e o positivo com o negativo e, assim, o idealismo de cultivar o primeiro e de livrar-se do último floresce em grande parte do mundo. Para a forma tradicional do pensamento chinês, isso é tão incompreensível quanto a corrente elétrica sem os pólos positivo e negativo, pois a polaridade é o princípio de que + e -, norte e sul, constituem diferentes aspectos de um mesmo sistema, e o desaparecimento de um dos dois emplicaria o desaparecimento do sistema.

As pessoas educadas dentro da aura das aspirações cristãs e hebraicas consideram tal realidade frustrante, pois esta parece negar qualquer possibilidade de progresso, ideal oriundo de sua visão de tempo e história lineares (tão distinta da visão cíclica). De fato, toda a iniciativa da tecnologia ocidental busca "tornar o mundo melhor" - obter prazer sem dor, riqueza sem pobreza e saúde sem doença. Mas, como agora está se tornando óbvio, nossos intensos esforços visando alcançar este ideal com armas tais como DDT, penicilina, energia nuclear, transporte automotor, computadores, agricultura industrial, incitando todos a serem, por lei, superficialmente "bons e saudáveis", têm criado mais problemas do que soluções. Interferimos num complexo sistema de relações que não compreendemos, e quanto mais estudamos seus detalhes, mais ele nos ilude, revelando outros detalhes a serem estudados. Quanto mais tentamos compreender e controlar o mundo, mais ele nos foge. Em vez de impacientar-se com tal situação, o taoísta pergunta qual o seu significado. O que é isso que sempre recua ao ser buscado? Resposta: você mesmo. Os idealistas (no sentido moral da palavra) consideram o universo separado e diferente deles mesmos - isto é, um sistema de objetos externos que precisa ser subjugado. Os taoístas encaram o universo como igual a eles mesmos ou inseparável deles mesmos.

Assim, diria Lao-tzu, 'Conheço todo o universo sem sair de minha casa'. Isto implica que a arte de viver é mais semelhante à navegação do que à guerra, pois o importante é entender os ventos, as marés, as correntes, as estações e os princípios de crescimento e declínio, de forma que se possa utilizá-los e não lutar contra eles. Neste sentido, a atitude taoísta não se opõe à tecnologia per se. Na verdade, os escrios de Chuang-tzu estão repletos de referências a engenhos e habilidades aperfeiçoadas por este princípio de 'prosseguir a favor da natureza'. Portanto, a tecnologia só é destrutiva nas mãos de pessoas que não se percebem como o mesmo processo do universo. Nossa excessiva especialização em atenção consciente e no pensamento linear tem levado à negligência ou ignorância dos princípios e ritmos básicos deste processo, cuja característica fundamental é a polaridade."

- Alan Watts com a colaboração de Al Chung-Liang Huang. TAO: o curso do rio. pp 47-49. Ed. Pensamento.

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