Saturday, May 01, 2010

Os dilemas da energia sustentável

Quem conhece de perto os bastidores do poder ou perde de vez suas noções de ética ou vive em constante náusea. Participei de uma reunião sobre a criação de uma reserva natural em um dos últimos remanescentes da caatinga. Cerca de 80% deste bioma já foi destruído pela ação humana, e o que resta avança no mesmo triste rumo. A área em questão abriga uma grande variedade de espécies da fauna e flora ameaçadas de extinção, uma vez que não ocorrem em nenhum outro local (e ao contrário do imaginário popular - que se concentra em esqueletos bovinos e cactos paupérrimos - a caatinga é um ambiente rico em biodiversidade). Além disso, paredões de pedra erguem-se em meio ao cenário abrasador, abrigando cavernas, pinturas rupestres e uma beleza cênica estonteante. Aparentemente a área será protegida por um parque nacional, mas parte dela cederá seu espaço e sua beleza para a instalação de usinas eólicas, aquelas estruturas imensas que se parecem com ventiladores, e que serão espalhadas às centenas no topo desses paredões rochosos, a uma distância de cerca de trezentos metros uma da outra. Estudos feitos no sul do país mostram que este tipo de geração de energia causa grande mortalidade de morcegos (que respondem por 25% das espécies de mamíferos em todo o mundo) e aves. Dois grupos ecologicamente importantes como polinizadores, dispersores de sementes, controladores das populações de outros organismos, como insetos, e assim por diante. Ou seja, as usinas eólicas não afetam apenas aves e morcegos: seus efeitos se alastram por toda a teia alimentar. Isso tudo para deixar claro que não existe este santo graal denominado "energia limpa". Toda forma de produção de energia causa degradação ambiental. Placas solares requerem a mineração de elementos químicos e sua produção em escala industrial, o que requer água e mais energia, gera resíduos poluentes, degrada o solo, requer a compra e manutenção de máquinas, que por sua vez exigem mais mineração, e assim por diante.

O dilema não está entre construir hidrelétricas, usinas eólicas ou termelétricas. O dilema está entre gerar e economizar energia. No entanto, todos na dita reunião partiam do pressuposto de que a instalação das turbinas eólicas no último grande resquício de caatinga era algo inadiável. O governo está comprometido com a geração de energia a partir de fontes alternativas e renováveis, mas esconde os efeitos que essas palavras "mágicas" ocultam. Existe um programa governamental de eficiência energética, mas serve apenas para "inglês ver". Na prática, a construção de usinas, compra de equipamentos e contratação de mão-de-obra causa muito mais impacto político do que a única solução realmente ética (leia-se viável e sustentável no longo prazo): economizar.

O maior obstáculo ao avanço efetivo dessas idéias está na própria elite que governa: a coordenadora socioambiental do setor de energia eólica do Ministério de Minas e Energia é capaz de soltar pérolas do tipo "pode haver mortandade de aves, se é que há aves lá", e isso passa incólume, a não ser por alguns olhares mútuos entre os poucos presentes que perceberam o absurdo. Os funcionários do próprio ministério do meio ambiente não levantam a voz contra o desenvolvimentismo que visa apenas crescimento, enriquecimento e expansão eternos (ou melhor, sobre os quais não se discute fronteiras).

A idéia é gerar riqueza, "retirar as pessoas da pobreza". Mas fala-se apenas de riqueza financeira, ou melhor, da compra de eletrodomésticos e gadgets que tornam a todos semelhantes, satisfeitos em se sentirem parte de um "admirável mundo novo" do qual, no entanto, a instrução, a ética e o respeito pela coletividade e pelo ambiente se fazem cada vez mais ausentes. Há uma "moda" politicamente correta, mas esta se traduz em usar equipamentos que consomem menos energia, mas que são novos, caros e que exigem custos ambientais de mineração, transporte e assim por diante. Usa-se carros flex ao invés dos convencionais, há quem acredite que a solução seja carros elétricos, mas num planeta de quase sete bilhões de pessoas, onde os politicamente corretos defendem maior igualdade social, qualquer carro é uma agressão não apenas ao ambiente, mas à qualidade de vida nas cidades, sem falar na própria saúde das pessoas cada vez mais sedentárias.

A "opinião pública" está achando que a solução dos nossos problemas reside no aumento da tecnologia, o que é verdade até certo ponto. Mas o ponto principal é que devemos, na maioria das vezes, diminuir a tecnologia - retornar ao simples. Andar mais a pé, trocar o carro pelo ônibus, metrô ou bicicleta. Fazer mais coisas a mão, ao invés de depender de instrumentos elétricos. Lembrar que a saúde física e mental dependem do exercício, e que navegar pela internet, assistir TV a cabo e filmes estrangeiros jamais substituirão os livros e a conversa ao vivo (sem a interrupção de telefones celulares nem a máscara de óculos escuros). Nossa sociedade está perdendo a visão geral das coisas, e confiando cada vez mais em "provedores de conteúdo" cada vez mais poderosos, mais globais e menos preocupados com a vida local, os costumes regionais, a biodiversidade e a saúde de todos nós. Pior, quanto mais a natureza é destruída, mais pessoas saem do campo para os grandes centros urbanos, o que apenas acentua a alienação e alimenta o ciclo vicioso.

A saída reside em retornar ao simples. Em todos os aspectos.

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