Sunday, August 01, 2010

Valores realistas?

Como medimos o valor de um pensamento, o valor de Lucrécio, de Plutarco, de Heráclito?

Uma primeira ideia é o esforço que empreenderam dezenas de gerações de estudiosos para guardar e reproduzir suas obras antes da invenção da imprensa. Assim, textos gregos, latinos, chineses, hindus, persas e árabes chegaram até o nosso tempo. E hoje, como medimos o valor das obras que consideramos importantes? Uma primeira dificuldade é que hoje é muito barato copiar. Mesmo um texto sem valor algum, preconceituoso, parcial, hipócrita e superficial pode ganhar milhares de cópias e durar décadas e até séculos. Outra dificuldade é que as pessoas que selecionaram os textos a serem preservados durante milênios viviam diretamente em contato com o mundo. Toda a sociedade estava dentro do seu raio de deslocamento. Hoje, não. Hoje as pessoas vivem não a realidade, mas a interpretação que a televisão dá; não vivem o dia-a-dia do seu bairro, mas o que acontece em São Paulo, Londres, Jerusalém. Não vivem a história, vivem notícias. Não se preocupam com o assassinato de um vizinho, mas se preocupam com o assassinato da modelo famosa. Não conhecem mesmo os pomares onde seu alimento é produzido, mas apenas as prateleiras das redes de supermercados. Nunca uma geração foi tão alheia à própria realidade como nós somos hoje, e isso certamente influi no que acreditamos de nossas leituras.

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