Saturday, August 07, 2010

De excessos intelectuais

"Quanto mais baixo estiver um homem do ponto de vista intelectual, menos intrigante e menos misteriosa parecerá aos seus olhos a existência em si mesma. Ao contrário, como ela se dá e no que ela consiste, tudo enfim, vai lhe parecer tão-somente parte da ordem usual das coisas. Isso se deve ao fato de que seu intelecto permanece essencialmente fiel ao seu destino original, que é ser prestativo à vontade como instrumento de suas motivações e, portanto, estreitamente ligado ao mundo e à natureza como parte integral deles."

- Schopenhauer (1844): The world as will and representation. Trad. E. F. J. Payne. Vol. 2. Nova York, 1958, p. 161.

"Nós estamos em meio a uma corrida entre a destreza humana quanto aos meios e a sandice humana quanto aos fins. Dada uma insanidade suficiente quanto aos fins, todo aumento de destreza para alcançá-los é deletério. A espécie humana sobreviveu até aqui graças à ignorância e à incompetência; mas, dados conhecimento e competência aliados à insanidade, não há certeza alguma de sobrevivência. Conhecimento é poder, mas poder para o mal não menos que para o bem. Segue-se daí que, se a sabedoria não avançar na medida do conhecimento, ao avanço do saber corresponderá o avanço do pesar."

- Bertrand Russell (1952): The impact of science on society. Londres, 1976, p. 110.



Admiro muito mais Russell que Schopenhauer, e essas duas passagens ilustram isso. Claro que cada um deles é fruto de seu tempo, e Schopenhauer foi da era do Mistério, enquanto Russell foi da era da solução dos maiores mistérios da vida. "De onde viemos?" Darwin e Wallace mataram a charada, e a humanidade e a filosofia nunca mais foram as mesmas. Além dessa diferença, Schopenhauer era o tipo de intelectual que não alcançou a sabedoria de grandes mestres como Laozi (suposto autor do Tao Te Ching), Buda ou Confúcio. Na sabedoria desses e de outros mestres, o grande sábio se parece com uma criança (Confúcio, por exemplo, era chamado Kung-fu-zi, sendo que zi significa criança; o mesmo acontece com Lao-zi). Depois de muito se aventurarem nos labirintos da língua, nas charadas da lógica, nos abismos da filosofia, todos acabaram retornando ao simples, não tendo escolha a não ser acolher o mundo e a Natureza, fazendo-se "parte integral deles". Assim, o que Schopenhauer desejava era um acréscimo de intelecto, enquanto o sábio, ao buscar o tao, "deixa algo para trás a cada dia" (Tao Te Ching, cap. 48 - "Na busca do conhecimento, a cada dia algo é aprendido. Na busca do Tao, a cada dia algo é abandonado.").

Assim, não é que devemos deixar de aprender ou abandonar a curiosidade pelos fenômenos e maravilhas da Natureza. Mas perceber a armadilha do intelecto, os infinitos meandros da intelectualidade que não levam a lugar algum, e podem, na pior das hipóteses, afastar uma pessoa de boa índole do mundo e da Natureza. O "destino original" de que fala Schopenhauer, "ser prestativo à vontade como instrumento de suas motivações" pode receber várias interpretações, sendo para mim a mais profunda delas relacionada às motivações humanas universais, ou seja, viver em paz, entre amigos, com tranquilidade, alimento e lazer. A ganância que invade e domina alguns é um fenômeno mais raro, portanto menos universal que o primeiro, e está provavelmente mais ligada ao excesso de intelectualidade do que à sua falta.

"Abandonemos a santidade e a sabedoria,
e o povo será beneficiado cem vezes;
abandonemos a benevolência e a moralidade,
e as pessoas recuperarão o amor e a bondade naturais;
abandonemos o gênio e os lucros,
e não haverá mais ladrões nem roubos.
Esses três, contudo, não são suficientes.
Devemos então nos concentrar em:
enxergar os elementos básicos,
abraçar o que é simples,
evitar o egoísmo, desejar pouco.
Abandonemos a necessidade de estudos e a tristeza acabará."

- Tao Te Ching, 19.

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