Friday, February 04, 2011

Lendo nas entrelinhas

Nosso Desafio Energético
National Geographic Brasil - Edição Especial: Recarregando o planeta - Energia para o futuro. Ed. 110-A

Por Bill McKibben

"Estamos imobilizados - entre uma rocha inviável e um ambiente superaquecido. E é uma questão em aberto se vamos conseguir nos libertar. E essa questão vai definir se o século 21 será marcado pela manutenção do progresso ou pelo início de um declínio longo e debilitante. O que está em jogo é a salvação do planeta em que vivemos."


- como assim "entre uma rocha inviável e um ambiente superaquecido"? A rocha inviável se refere a quê? À vida na Terra sem tanto consumismo?
- reparem como o autor nos dá duas opções apenas: 1) manutenção do progresso (manutenção dá a entender no ritmo e estilo atuais) e 2) declínio longo e debilitante. Acredito que a maneira mais eficiente de corrigir a economia atual é diminuir o consumismo e eliminar o supérfluo. Isso implicará numa perda relativa de luxo para os mais ricos, mas será isso tão cruel assim para ser chamado de "declínio longo e debilitante"? A propaganda subliminar aqui é que ou voltamos à idade da pedra ou continuamos como hoje. Maneira sutil de evitar outras alternativas.
- O que está em jogo não é nem nunca foi a salvação do planeta, mas da nossa própria qualidade de vida (e de outras espécies, é claro, mas se não ligamos nem pra nossa qualidade de vida enquanto espécie, não é a preservação dos animais que vai comover os desperdiçadores de recursos).

"A energia, claro, não é apenas mais um aspecto da nossa economia. Para todos os fins, ela é nossa economia. O grande economista John Maynard Keynes certa vez afirmou que as condições de vida da maioria dos seres humanos haviam, na melhor das hipóteses, dobrado de qualidade ao longo dos milênios desde o alvorecer da história até a virada do século 18, quando aprendemos a usar o carvão para mover máquinas. Em um curto espaço de tempo, as condições de vida, no Ocidente beneficiado por essa fonte de energia, passaram a ter sua qualidade de vida dobrada em intervalos de poucas décadas. (Há motivo, afinal, para que as expressões 'mundo industrializado' e 'mundo desenvolvido' sejam quase equivalentes.)"


- Sobre a frase de Keynes, a América tinha milhões de nativos que viviam muito bem segundo suas próprias culturas, assim como Ásia, África, Oceania e até mesmo a Europa. Claro que a definição de "qualidade de vida" que ele usa é a de um economista que considera que um urbanóide com carro na cidade está mais FELIZ que um índio na floresta com caça, pesca, açaí, caxiri e rede. E como o urbanóide na cidade não está feliz, a não ser que compre um carro novo por ano, a sua felicidade acaba destruindo a felicidade do índio - eis aí, bem resumida, a história dos últimos 500 anos.
- Mundo desenvolvido pode ser sinônimo de mundo industrializado, se a visão de qualidade de vida que se deseja vender (literalmente) for essa. Nem todos os povos concordam com isso, e não é por outro motivo que esses povos simplesmente odeiam os EUA e a Europa. O problema é que as elites desses países (por consequência também as nossas elites) não conseguem enxergar que a vida num ambiente tropical, sem ar-condicionado e na área rural, é uma coisa que outras pessoas gostam e preferem sobre a cidade. Acreditam (essas elites) que o êxodo rural acontece porque todos concordam (e devem concordar) com o ideal deles, e não porque o homem do campo é expulso devido à concorrência desleal, à falta de apoio do governo para essa categoria (ao contrário dos industriais e latifundiários que vivem de subsídios), ao desmatamento e as doenças que se sucedem, à falta de instruções e medicamentos sobre essas novas doenças, à valorização da terra e aumento dos preços, falta de conhecimento sobre oportunidades políticas e econômicas, etc.
- Em última instância, quando as elites finalmente percebem que o seu luxo é o responsável pela expulsão do homem do campo para a cidade, via de regra pagando mais por menos (se ele soubesse não teria nem ido, mas agora não há volta) - quando finalmente as elites percebem isso, qual a sua reação imediata? "QUE SE DANE! Eu estou feliz, isso é o que importa." Conhece alguém que pensa diferente?
- Mais uma coisa a se considerar é a propaganda e o "efeito demonstração"* (de J.S. Duesenberry), chamados por economistas mundo afora, na maior cara de pau, de "criação de demanda". Em bom português: "vamos fazer as pessoas acreditarem que precisam do que de fato não precisam, pois embora emporcalhemos o mundo e incitemos o ódio entre irmãos, nosso lucro assim será maior".
- As consequências de tudo isso? O consumo de petróleo (que está acabando) será trocado pelo de carvão mineral (que contribui ainda mais para o efeito estufa). Podemos também mudar de ambas as fontes para a chamada "energia limpa", uma das quais é o biocombustível. O problema é que o consumo é tão grande que áreas gigantescas serão utilizadas apenas para o plantio de cana, dendê, mamona ou qualquer planta semelhante. É preciso, de certa forma, ser um "gênio" para supor que isso não acarretará nem um aumento no preço dos alimentos nem em mais desmatamento (diz-se que serão utilizadas terras hoje improdutivas. Se estão improdutivas deve ser porque sua fertilidade já foi esgotada. Logo a plantação nessas áreas - no modelo monopolista a que estamos acostumados - exigirá cargas imensas de fertilizantes e agrotóxicos, causando ainda mais poluição - para não falar em linhagens transgênicas, monopólio de sementes e redução da diversidade agrícola dessas plantas. A alternativa seria a silvicultura, que dispensa o uso de venenos pois utiliza os serviços proporcionados pela biodiversidade - mas o apoio a esse modelo ainda é escasso, exigiria reforma agrária e prejuízo para indústrias de insumos já bem estabelecidas). Outras fontes de energia são hidrelétricas, usinas eólicas, solares e nucleares, todas exigindo mineração, inundação, expulsão de comunidades de suas terras (para outras via de regra piores), instalação de painéis e hélices com efeitos nocivos sobre a fauna e flora, manejo de material radioativo, risco de acidentes nucleares, acúmulo de lixo radioativo (que muita gente sugere - a sério - que seja levado para o interior de terras indígenas), entre outros problemas. Tudo isso VAI acontecer - a diferença é que quanto mais economizarmos energia, MENOS acontecerá. Infelizmente os seres sedentários e preguiçosos de hoje só aceitam economia de energia via tecnologia. Transporte público, caminhada e suor ainda não estão na agenda (mesmo com o culto ao corpo nas academias - será porque pagar uma academia contribui para o PIB, enquanto andar não?). E por que não estão na agenda? Porque andar para economizar parece coisa de POBRE, pegar ônibus pior ainda, e obrigar as pessoas a parecerem POBRES seria coisa de comunista, logo é uma proposta da qual as pessoas não têm pudor de rir nos workshops conservacionistas (realizados em paraísos turísticos do lado de dentro de salões com ar-condicionado por pessoas que, em sua maioria, jamais foram pobres, e que não sentem prazer algum em passar um final de semana que seja com pobres felizes - aqueles do samba, praia, cachaça e amigos). Inclusive porque pobres não lêm a National Geographic, como poderiam saber de alguma coisa?



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* "De acordo com o exposto no recente [em 1953] livro de J.S. Duesenberry, Income Saving and the Theory of Consumer Behavior, a hipótese de que as funções de consumo individuais relacionam-se entre si em vez de serem independentes contribui para explicar certos fatos que pareciam enigmáticos. A interdependência das preferências dos consumidores pode afetar principalmente a escolha entre consumo e poupança. O motivo pelo qual, por exemplo, 75% das famílias dos Estados Unidos não poupam virtualmente nada não é porque são demasiado pobres ou porque não queiram poupar; a principal razão é que vivem num ambiente que as leva a necessitar cada vez mais de novos bens de consumo. Isso é o que Duesenberry chama de 'efeito demonstração' dos padrões de consumo mantidos pelos 25% da população que constituem o topo da pirâmide [5% no Brasil, mais as páginas da Veja, as novelas da Globo, os outdoors e os comerciais da TV]. Quando os indivíduos entram em contato com bens ou padrões de gastos superiores, podem sentir certa tensão e inquietação - e sua propensão ao consumo aumenta."

- Ragnar Nurkse. Alguns aspectos internacionais do desenvolvimento econômico. In: A.N. Agarwala & S.P. Singh (orgs.) A economia do subdesenvolvimento. Contraponto/Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento. 2010.

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