Saturday, June 07, 2008

Tentei, mas é impossível?

O caminho completo que ia de baixo até em cima não era o caminho completo.
O caminho incompleto do alto até em baixo é tão completo quanto o inverso.
O caminho reto não percorre as alamedas com suavidade, nem olha as estrelas, nem as folhas nas árvores.
O caminho claro ofusca a visão para os esconderijos com seus tesouros.
Os tesouros não têm utilidade ou função ou sentido ou forma.
O pó das estrelas não tem valor, nem seus filhos precisavam existir.

Mas existem.

O caminho tortuoso demora mais que o reto, e o tempo não se curva.
O tempo é constante, e o caminho curvo.
Nas voltas do caminho estão os tesouros guardados à luz das estrelas ou à sombra das folhas.
Os filhos do pó percorrem o caminho sem saber, e nele dão nome aos valores e valor aos tesouros.
Mas o caminho é o valor, e o tesouro é o caminho.
As folhas e as estrelas são filhas do pó, e o pó é o futuro e o passado.

O pó.

O pó se separa e se une, e nenhum grão seu é maior que o outro, embora alguns ventos não carreguem todos.
Os ventos são no caminho as ações do pó, e cada pó tem sua ação.
O pó sem ação é como o pó que age, exceto que seu caminho é mais curto.
Um caminho mais curto guarda menos tesouros, e seu valor é ainda menos conhecido.
O pó pode ser poeira ou areia, pode ser levado pelo vento e sujar o caminho, ou deitar-se ao longo do rio numa bela praia.
Mas o pó pensa ser o pó algo imóvel, imutável, necessário, rígido e mineral.

O pensamento.

Existe o pó e existe o pensamento.
O pensamento é do pó sem ser pó, é como o brilho da estrela que não é estrela nem pó.
E no entanto, o brilho não é da estrela como o pensamento é do pó?
E morrendo a estrela não cessa seu brilho, embora haverão ainda muitas estrelas?
E se o céu fosse tomado de infinitas estrelas, onde restaria a noite?
Quantos visões ofuscadas não mais enxergariam tesouros?

Tudo tem seu lugar.

Quando a onda passa a água não a segue.
O som é a vibração do ar, mas o ar não segue o som, ou seria vento e não som.
As ondas movem o mundo sem movê-lo, e o pó são ondas.
As ondas vêm e vão, e nenhuma onda existe depois que se foi, embora seu meio ainda esteja lá.
O pó retorna ao pó, e outro o substitui, como ondas são e deixam de ser, sem jamais deixar de ter sido.
O infinito é reservado ao pensamento, não ao pó.

Infinito.

O infinito é uma idéia, que é pensamento do pó.
Não é o pó pensamento, nem idéia, nem infinito. O pó é pó.
É breve, é sujo, é limpo, é longo, é estreito, é curvo, é reto, sobe, desce, são ondas, são vários, mas não são infinitos.
O pó não é infinito.
O pó tem o brilho do pensamento como as folhas nas árvores têm sua cor.
Depois que morre a árvore, a folha cai, muda a cor, e alimenta novas folhas em novas árvores.

É suficiente.

O pó é suficiente, e somos todos pó.

Macacos de pó. Macacos que falam idéias de infinito.

E ainda assim, pó.

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