Friday, June 26, 2009

A biologia é o estudo das exceções

Estávamos sentados na areia clara olhando o horizonte verde da paisagem, uma garrafa de pinga passando de mão em mão, vendo as águas caudalosas do grande rio descendo à nossa frente. Um e outro se levantava e pulava no rio, voltando para outra dose, a conversa sem pressa...

Era domingo, ou podia ser sábado, não importava. A maioria de nós não tinha qualquer instrução formal, qualquer uma que pudesse ter alguma utilidade em suas vidas, provavelmente, e agora não lembro o porquê de ter pensado naquele momento "o que realmente importa?" Eu poderia ter uma garrafa do melhor uísque, ao invés desta bebida barata, e meu paladar se sentiria grato pela diferença, mas e quanto ao resto? Se não estivéssemos naquele local belíssimo, sem compromissos, sem grandes perspectivas nem preocupações, se estivéssemos sentados em uma sala confortável e climatizada ao redor de uma grande mesa da melhor madeira, rodeados por belas obras de arte apreciando a melhor das bebidas, tudo isso substituiria a divindade daquela areia que não fora criada, o azul do céu que não tinha nome?

Pensei sobre isso e cheguei à conclusão de que a "melhor" bebida é um processo de engarrafamento do belo, uma finitização do infinito. Pois não há paisagem, não há Natureza, que possa ser convertida em algo "nobre" sem a destruição de todos os momentos sagrados que ali teriam lugar algum dia.

- Mas o que é destruído? perguntaram.

- Isto! Respondi. Todos os lugares abertos e belos e ainda suficientemente limpos para nos sentirmos livres. Onde você não precisa pagar para entrar ou ficar atrás de uma cerca, ou ter que fazer uma carteirinha ou preencher um formulário e entrar numa fila, ou aturar de perto - a uma distância menor do que dita um certo instinto - outras pessoas falando e tendo suas intimidades, seu conforto.

O que está sendo destruído é o conforto dos pobres, ou antes o conforto de todos, para construir uma cara e falsa noção de conforto, que com a ajuda da propaganda faz um bando de macacos se matar e se enfurnar em escritórios para alcançá-la. A cidade destrói muito em nós. Olhem para vocês, olhem para mim. Vocês não conhecem prédios de apartamentos. Vocês não sabem o que é não ter acesso a um mergulho, ao silêncio, à escuridão. Não ter um espaço onde duas pessoas possam se amar escondidos e livres como dois animais. Somos doentes, frágeis, raquíticos, enquanto outros são obesos e carentes. Somos todos carentes como animais enjaulados, feios e sem viço quando comparados à expressão máxima daquilo que nossa estrutura é capaz. Os homens do norte são super-homens, comparados aos homensratos que vivem hospedados como um favor ao longo de avenidas impessoais de lâmpadas amarelas, onde castas andam a cem, cento e cinquenta por hora sem perceber que ali do lado os marginais param para observar as margaridas crescendo.





Qualidade

Aqui, deitado na noite que antecede a grande Singularidade, aguardo no escuro. Vou lembrando da noite de ontem, quando fui no Mistura Fina atrás de alguém. Encontrei-o lá mas conversamos pouco. Eu estava mais querendo observar, e também nunca sei como minha conversa será recebida por quem quer esconder - prazer e sexo entre homens. Diversão, felicidade, conversa. Conversa boa. Conversa de homem. Não esse papo feminino, falando sobre coisas, sobre pessoas. Essas conversas rodeadas por muros. "Não, dali não passo, daqui ninguém me tira." Papo que alguns homens também seguem, mas que não alimenta um tipo de espírito que eu observei em muito mais homens - com e sem instrução formal - que entre mulheres. Alguns dirão que eu não conversei com mulheres suficientes. Eu direi que o motivo que me levou a não conversar com mulheres suficientes foi exatamente este. Sua conversa é apoiada por crenças, não têm agilidade na formulação de perguntas e respostas, gastam muitas palavras para tentar se explicar, quando deveriam buscar se ater a um mínimo, tendem a esconder suas intenções e nem sempre conversam por amor ao conhecimento, à aventura intelectual simples e desinteressada. Vou repetir que há mulheres que são exatamente o contrário disso, e homens que são exatamente assim. Acontece que a biologia é o estudo das exceções.

Exceções?

Mais uma minoria. E quem tem medo de minorias? Quem? Você tem? De quem? De quais? De Quantas? Quem é você? Quem somos nós? A maioria das minorias não tem nome. A maioria das minorias já não deve nem existir mais.

Dominação. Império. Monoculturas.

Comércio, dinheiro, PIB. Pirâmides. Estátuas. Eternidade...

ah o homem e seu sonho pela eternidade. Não satisfeito em ser um ridículo grão de pó, e ainda assim um magnífico grão de pó, o homem quer nada mais nada menos que eternidade!

Mas o que é eterno? O universo parece começar no big-bang e continuar se expandindo e queimando até se apagar de todo, ou retornar ao tamanho inicial e talvez explodir de novo e talvez eternamente, quem sabe com que leis, com que tempo, com que ques. Quem sabe eternamente igual. E ainda que eternamente diferente, se é eterno, e irá se repetir eternamente, então infinitas vezes ele será idêntico em todos os detalhes como ele foi hoje e é sempre. A eternidade é uma armadilhaaranha, e nós somos a mosca em sua teia. E fora dela, quem pode vislumbrar o eterno oceano de espuma, onde todo o universo conhecido é só uma bolhinha? E que importa? Já sabemos que o mundo é infitito para cima e para baixo, resta-nos saber da melhor maneira possível o que está ao nosso redor. O que merece ser chamado de sagrado?

Mitologia, senhores e senhoras. O estudo dos mitos. A criação talvez de novos mitos, para curar o que a ganância dos faraós feriu.





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Em alguns países a homossexualidade ainda é crime:

No Egito, homossexual é preso.
No Iraque, é açoitado em praça pública.
No Irã, é enforcado.
No Afeganistão, é apedrejado até a morte.

Depois dizem que homossexualismo que é doença.
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Na Inglaterra o homossexualismo foi crime até 1967. No Vaticano, é dito que leva ao inferno, e tem muita gente na América Latina que acredita. As igrejas evangélicas por aqui arruinam qualquer chance de felicidade dos homossexuais. E isso tudo por quê? Ora, porque, matematicamente, estatisticamente, esses "curados" recalcados darão crianças com boas chances de serem crentes fiéis à igreja que ensina aquilo. Nas casas onde crescem, livros são vistos com desprezo, ciência e filosofia também. Os representantes atuais do Estado toleram tudo, pois é do voto de ignorantes que dependem. As famílias que têm algo a perder entram na onda aceitando a falsa paz que os impede de serem talvez nômades, batizam suas crianças e pedem a benção para seus matrimônios, colocam os filhos no catecismo, e os homossexuais continuam no escuro.

Até que... dez anos depois, o mundo mudou. As frentes do Ocidente avançaram, a crença religiosa deu lugar à descrença e ao niilismo. Jovens conservadores e ingênuos deram lugar a cínicos desapaixonados. Mas aqui e ali, numa esquina e num quarto de motel, alguém apaixonado vive ainda, alguém no meio do caminho, pedra para uns, esperança para outros, alguém que ama e obedece conforme sua própria moral, mas uma moral fluida, não volátil, nem sólida, condizente com a razão e a emoção, uma moral que busca ser equilibrada, que se admira e se espanta frente ao desconhecido, que não teme e quer sempre conhecer. Conhecimento pelo conhecimento, bondade pela bondade, prazer pelo prazer. Aqui e ali essas pessoas buscam se encontrar e ter voz, e à medida que os anos passam elas se encontram e não podemos dizer que as engrenagens estão paradas nem completamente enferrujadas, embora todos os dias esses manipuladores do mundo trabalhem duro para manter tudo como está, e outros ainda piores não querem nada menos que retornar à antiga confiança de que não seriam incomodados, não seriam destituídos, não seriam ultrapassados. Serão ultrapassados, mas por quem? E quem estará sentado à direita e à esquerda desses que tomarão a frente? Se soubéssemos, talvez estivéssemos fazendo outra coisa, talvez não. Cada um é cada um. E a maioria de cada época será julgada pela maioria da época seguinte (e pelas minorias de todas as épocas). Nós. Julgando por nossa própria experiência, por uma experiência livre e enriquecida por viveres proibidos, ou pela experiência de quem dita o que é proibido, o que é saudável, o que é belo. Ainda que hoje o caro seja feio, o suntuoso seja deselegante e o grande seja pequeno. Como, talvez, sempre foi, mas provavelmente nunca tão feio, tão deselegante e pequeno como hoje. Quem enxerga a inflexão da curva?








Dizer que não existe instinto é negar o sentimento de frustração do homem em uma distopia. Vivemos em uma distopia, por isso ninguém pode dizer que discorda. Você pode discordar politicamente, mas não fora do sistema político. Você pode discordar publicamente, mas não daquilo que o público concorda. "Calem-se as minorias, Deus está falando!"





Por todo o salão as cadeiras rodeavam o picadeiro, onde uma puta se apresentava por vez. A cerveja não era cara, e era gelada. O atendimento era bom, o ambiente era seguro, embora visitado pelos tipos mais bizarros. Um homem à minha esquerda se levantou e sentou-se ao meu lado, oferecendo-me uma bela pulseira de prata. Disse que não usava essas coisas, e nem tinha a quem dar. Ah, a objetividade, sempre abrindo portas. Ele insistiu que estava desempregado, liso, precisava faturar algum, etc, e eu perguntei com o que ele trabalhava, quando estava empregado. Em joalheria, ele disse. Perguntei se havia mais trabalho para quem mexia com jóias alguns anos atrás, quando o garimpo não era tão controlado como hoje, e foi uma pergunta boba, senti após tê-la feito. Estava na segunda garrafa. Ele virou os olhos e eu abaixei a cabeça e ri. Ele me mostrou a peça, apanhei-a nas mãos e olhei de perto. Uma corrente de elos achatados cinza-chumbo, uma peça central mais clara, tudo muito polido e sóbrio e belo. Devolvi-lhe e ele me pediu um gole. Chegou a estender a mão sobre meu copo de plástico, e em outra ocasião eu o teria deixado beber. Mas ali, preferi pagar-lhe uma garrafa. Interrompi seu braço com um movimento gentil e lhe disse. Se o homem estivesse de pé acredito que teria saltado. Seus olhos de repente brilharam e ele pareceu estar disposto a fazer qualquer coisa por mim naquela fração de segundo. Deu-me um abraço (as cadeiras eram próximas), cumprimentou-me e começou a desfiar seu rosário de agradecimentos e lisonjas. Não lembro o que disse, eu estava muito feliz. Ele terminou seus agradecimentos e disse que voltaria para a sua mesa. Eu achei aquilo tão maravilhoso, sincero e simples. Econômico seria a palavra errada, foi mais como uma máquina bem regulada, o óleo lubrificando os cilindros, os cilindros girando rápido...

...ou apenas na velocidade certa.





Para que realidade virtual quando podemos sonhar.

E por que não "para que realidade quando podemos sonhar"?

Porque a distopia não pode vencer. Ou, com o que sonharão aqueles que só conheceram mármore e amianto, concreto e asfalto? Só sonhamos com aquilo que existe, o que se perdeu já não ocupa mais nossos sonhos. E quando o sonho é pesadelo, as feras da antiguidade vêm tomar de volta um espaço da sua realidade que lhes foi tomado. E sempre que a Lua se põe eles descem do seu lado escuro para perturbar o inconsciente dos homens. E de tão imundo está o seu inconsciente que o homem tombará por fim a lua, para não mais ter medo de sonhar. Mas aí já não haverá com o que sonhar...






Todas as ciências se unem, então por que a biologia continua sendo sistematicamente ignorada pelos que manipulam mentiras cotidianas? Por que não liberam um pouco o picadeiro para que outros palhaços tenham vez? Afinal, todos queremos rir, e vocês já perderam a graça.

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