Thursday, August 13, 2009

O que a mitologia indígena tem que vocês não têm

Confúcio dizia que a primeira atitude que tomaria se tivesse o poder seria corrigir as palavras. Poucas coisas poderiam ser mais sensatas. As palavras moldam o pensamento, e este molda as ações. Logo, concentremo-nos na base.

A palavra "religião", por exemplo, costuma designar coisas tão díspares quanto o confucionismo e o cristianismo. A maior diferença entre ambos, acredito, é que o primeiro é apenas um conjunto coerente de sugestões morais baseadas em seu reflexo na sociedade, enquanto o segundo é um conjunto de dogmas sobrenaturais que, claro, também busca ter reflexo na sociedade. Confúcio não falava sobre espíritos, e afirmou isso explicitamente. Não há o que dizer sobre algo cujas evidências nunca foram bastante seguras (para quem gosta de andar em terra firme, naturalmente).

O cristianismo é uma religião como estamos acostumados a ver - nós na América Latina do século XXI do tempo cristão - ou você acredita no mistério improvável, ou está fora. A salvação depende da fé, e toda a sociedade se curva sobre uma moral duvidosa além da razão. O confucionismo parece o extremo oposto, ditando conselhos sensatos que não se afastam da razão. É um sistema que não exige que desliguemos nossa racionalidade para funcionar. O mesmo pode ser dito do taoísmo: embora este abranja a metafísica, chama o mistério de mistério e não faz nenhuma suposição além do que o senso comum admitiria. Mesmo um cientificamente informado.

Confucionismo e taoísmo, portanto, não são religiões no mesmo sentido em que o cristianismo e o islamismo. Muitos preferem, assim, chamá-los de "sistemas filosóficos".

E a mitologia indígena, o que é? Ou melhor, as mitologias indígenas?

Cada povo do planeta desenvolveu seu próprio sistema de valores baseado em suas experiências - isso se aplica à religião e à mitologia. A diferença crucial, ao meu ver, é que religiões são monoteístas (excluo deste conceito até mesmo o hinduísmo), enquanto as mitologias são geralmente politeístas (e podem ser ateístas). Nunca existiu essa invenção branca chamada Tupã. É apenas um engodo para nos levar a crer que "Deus" é uma entidade natural - já que até os índios apresentariam algo similar. Em muitas sociedades amazônicas, os criadores eram um casal, e não um "macho" ou "algo" solitário, o que é infinitamente mais sensato. Nada na natureza vem sozinho. Nada é um. O Sol pode parecer único para nós pela distância, mas é apenas mais uma estrela. A lua é o único grande satélite natural da Terra, mas é um satélite de um planeta como outros satélites em outros planetas. Algo tão complexo como a vida existe apenas porque se reproduz e evolui, adicionando complexidade passo a passo. Para existir um criador, ele deve primeiro ter evoluído, sendo portanto natural - como a mitologia. "Deus" é, assim, uma invenção anti-natural que nos joga contra a natureza. (É a mitologia monoteísta - aquela que não aceita ser chamada de "mitologia", ou mesmo de "seita" - que afirma que o homem deve "dominar" a natureza, ao invés de conviver com ela como preconizam as mitologias indígenas.)

Agora surge outro conceito a ser modificado: o relativismo "pós-moderno", o hábito de pensar que toda verdade é válida, de que cada pessoa tem a "sua" verdade, e isso basta (claro que isso faz sentido apenas dentro do monoteísmo, que ativamente desliga algumas porções de nosso mentalware).

Aristóteles já deu uma definição satisfatória de verdade como correspondência com a realidade. Sendo a realidade - o mundo lá fora - externa a nós, como poderíamos ter verdades internas? Temos crenças, aspirações, ideais, achismos, e podemos estar certos ou errados. O pós-modernismo me parece uma criação da sociedade individualista que pretende enraizar o individualismo na natureza humana, como se tivéssemos sempre sido assim. Mas não somos, nem fomos sempre assim. Há culturas que valorizam também a coletividade, em pé de igualdade ou até acima do indivíduo. Podemos sentir um impulso de rejeitar essa idéia ao nos lembrarmos dos sistemas totalitários, escravidão e abusos históricos, mas o individualismo total não é uma opção. Contudo, é isso que é implicado quando se diz "cada um tem a sua verdade". É um uso temerário da palavra "verdade", e é hoje, mais do que nunca, imprescindível que pensemos profundamente sobre isso.

A mitologia indígena me parece sinônimo de sabedoria. Nossa sociedade dividiu a sabedoria em diversas áreas, como ciência e religião, e as tornou incomunicantes. Alguns de nossos expoentes intelectuais reconheceram o erro e nos alertaram a respeito (como o psicólogo Abraham Maslow), mas poucos deram ouvidos. Um indígena é, assim, capaz de ouvir lições do confucionismo e do taoísmo e traduzi-las dentro de seu sistema de valores (não crenças), é capaz de aprender com o hinduísmo, e acredito que vice-versa. Ao ouvir sobre uma religião (neste senso restrito de monoteísmo), que "é a crença de alguém", como algo que alguém *escolheu* acreditar, um nativo sábio não poderia deixar de expressar um leve sorriso condescendente, ciente de que aquele alguém decidiu aleijar sua potencial sabedoria, aceitando como Verdade um mito entre tantos outros, e encontrando dor em discussões e buscas intelectuais em que outros encontram prazer.

As religiões têm eliminado os mitos, lenta porém inexoravelmente. Sua finalidade é reinar sobre toda a espécie, insensível à perda diária das riquezas sociocultural e biológica. A religião não é um bem, mas um abuso. Não é uma necessidade, mas uma imposição. Não é um alívio, mas uma chaga. Acostumamo-nos a ela, como acostumamo-nos a tudo o que fede. Mas atenção! Chegará o dia em que nos arrependeremos de nossa complacência, ou nossos filhos, ou os filhos deles, e estes então nos culparão por termos sido tão crédulos, ingênuos e tolos, deixando que vendessem a natureza em troca de um bem impalpável, imaginário e vão.

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